Por que Wemerson Nogueira tem chances reais de ser eleito o melhor professor do mundo

Conversamos com quem descobriu o projeto que deu a Wemerson o título de Educador do Ano em 2016, no Brasil. Saiba os pontos fortes do trabalho do professor

POR:
Nairim Bernardo
Wemerson Nogueira durante a cerimônia de entrega do Prêmio Educador Nota 10 de 2016.  Charles Naseh/Divulgação Fundação Victor Civita

A edição de 2017 do Global Teacher Prize será no próximo domingo (19), nos Emirados Árabes, e poderá premiar o brasileiro Wemerson Nogueira como o melhor professor do mundo de 2016. Se isso acontecer, será a primeira vez que um docente da América Latina é eleito para o Nobel da Educação. Mas quais são as chances reais desse professor de Ciências de Boa Esperança, Espírito Santo?

Para descobrir essa resposta, NOVA ESCOLA foi a procura de Mário Domingos, doutor em Ciências da Engenharia Ambiental, professor da Universidade de Santo Amaro (Unisa) e responsável por selecionar o trabalho de Wemerson para o Prêmio Educador Nota 10 - anualmente, os professores brasileiros podem enviar projetos para uma banca de especialistas em todas as disciplinas que premia dez entre os melhores trabalhos do país. O capixaba foi escolhido Educador do Ano de 2016 na premiação nacional com o projeto “Filtrando as lágrimas do Rio Doce”, o mesmo que valeu sua indicação no Global Teacher Prize, ou Prêmio de Professor Global, em Português.

Mário vê como realistas as chances do brasileiro. “O projeto é realmente muito bom, conseguiu envolver os alunos e impactou diretamente a sociedade por meio da distribuição de filtros que a turma realizou”, defende. Outro aspecto que pode somar pontos na disputa pelo prêmio é o fato de a tragédia de Mariana ter chamado atenção de todo o mundo para questões ambientais. “A água é um problema mundial. Em vários lugares, quando ela está disponível, está contaminada. É um recurso muito nobre. Ou seja, a contaminação da água do Rio Doce não é apenas um problema do nacional.”

Agora que o projeto ganhou repercussão no Brasil e em outros países, fica claro seu tamanho e importância. Mas Mário conta que, antes mesmo de investigar mais profundamente o trabalho que Wemerson havia desenvolvido, já lhe chamou muito a atenção a metodologia que o professor utilizou em sala de aula. “Assim que li o relato, percebi que Wemerson conseguiu sair da caixinha. Ao invés de introduzir o estudo da tabela periódica apresentando todos os elementos juntos, ele separou e contextualizou os elementos para depois mostrá-los na tabela”. Segundo ele, essa foi a lógica utilizada por quem criou a tabela periódica, que primeiro teve que estudar cada elemento, para depois agrupá-los.

Além da mudança metodológica, a justificativa de Mário para premiar o trabalho foi a de que ele coloca os alunos frente a um problema ambiental e social em processo (o rompimento da barragem da Samarco em Mariana) que atinge não só os recursos naturais como também a comunidade local, afetada pela contaminação e falta de água. O professor também utilizou bem o laboratório da escola e organizou atividades extraclasse que envolveram visitas ao sítio impactado, suas comunidades, a coleta de material, ao laboratório de análise da água da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Por fim, conseguiu associar um conteúdo complexo - normalmente é visto como distante da realidade dos alunos - com uma questão social e de saúde atual.

Uma das preocupações dos selecionadores do Educador Nota 10 é a possibilidade de que os projetos sejam replicados em outras escolas. Os professores não precisam que um acidente como o de Mariana aconteça para desenvolver esse trabalho, pois a mesma lógica pode ser aplicada em outros contextos. “Qualquer riacho, córrego, represa que esteja ao lado da escola pode servir para que a turma analise os elementos químicos presentes na água. Outra possibilidade é utilizar alimentos no lugar da água. Além de interessante, está dentro da realidade da turma”, sugere.

O vencedor do Global Teacher Prize será anunciado neste domingo, às 18h, em Dubai, 11h de Brasília. Acompanhe!

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