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Pixação é vandalismo?

Discutir sem preconceito é o ponto de partida para entender, junto com os adolescentes, essa forma gráfica de contestação

por:
RS
Renan Borges Simão

A mesma provocação que escancaramos no visual dessas páginas tomou conta das redes sociais e da cena cultural em várias metrópoles no início deste ano, depois que galões de tinta cinza cobriram grafites e pichações em São Paulo. A “faxina”, protagonizada pela prefeitura sob o slogan Cidade Linda, acendeu a polêmica e revelou o óbvio: alguns veem como arte urbana o que outros entendem como sujeira e desrespeito.

NOVA ESCOLA também defende que dá para enxergar sob vários ângulos os traços aplicados com spray. Por isso, a ideia é que, depois de ler esta reportagem, você ganhe coragem para discutir na escola essa manifestação de jovens da periferia. Não pense que vamos incentivar a pichação: ela é considerada crime, sim, e pode dar cadeia (leia destaque sobre a lei). Em outros centros urbanos, como Barcelona, Nova York e Berlim, é passível de multa, que chega a salgados 7 mil euros. Mas essa representação visual, que deixa marcas em várias cidades brasileiras, grita por atenção e tem potencial para o debate entre educadores e adolescentes, também nas aulas de artes.

Primeiro, vale apontar uma diferença: pichação com “ch” pode ser qualquer rabisco feito em propriedades sem autorização. A pixação ou pixo com “x” nomeia a prática feita em São Paulo e reconhecida por ter uma “dinâmica social estabelecida há 30 anos e um estilo de letra específico, o tag reto, de formas pontiagudas”, explica Gustavo Lassala, mestre em Educação, Arte e História da Cultura e autor do livro Pichação Não É Pixação.

A tipografia do pixo paulistano é mundialmente reconhecida. Mesmo assim, os pixadores não buscam esse reconhecimento. Preferem, em vez disso, a adrenalina, o risco, a contestação e a aversão a regras socialmente aceitas. Por isso, quanto mais repressão, mais o pixo afirma sua razão de existir (veja a frase sobre o quadro acima). “A pixação é uma expressão cultural da cidade. Uma abordagem para entendê-la é identificar suas relações com a realidade de onde vivemos e a invisibilidade social e econômica da população da periferia”, descreve Danilo Oliveira, mestre em Artes Visuais e curador de arte urbana. Ele diz que é preciso olhar a estética do pixo como uma “experiência dos sentidos”, acompanhada de carros, violência, poluição, pessoas em situação de rua, desuso de espaços públicos, tudo junto.

Muros que gritam

Na história, a pichação serviu para propagar desde o clássico “abaixo a ditadura” a críticas à Guerra Fria no muro de Berlim. O artista norte-americano Keith Haring (1958-1990) expressava suas posições políticas em giz colorido e deixava clara a ideia de que a arte deve ser acessível. Seus painéis pichados no metrô de Nova York foram expostos, décadas mais tarde, em uma galeria de Paris. Um dos maiores nomes da arte urbana americana, Jean-Michel Basquiat (1960-1988), é associado ao grafite e à pintura neoexpressionista, mas seus rabiscos de assinatura SAMO lembram os códigos da pichação. Ambos comprovam que o feio de um determinado momento histórico pode ser considerado belo mais tarde.

A expressão gráfica como possibilidade de questionamento da vida urbana também faz parte dessa discussão. O grafite e a pichação “estão para o texto assim como o grito está para a voz”, disse o poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989), que usava o spray como faceta da poesia marginal. Na escola, a pichação costuma começar na carteira, no banheiro, nas paredes. “Ali o jovem sente a primeira repressão”, destaca Mauro Neri, pixador, grafiteiro e ativista, que ganhou notoriedade com sua prisão em São Paulo após restaurar um grafite. Autor da expressão urbana Ver a Cidade, Neri fala em ampliar o repertório de arte dos estudantes, sem reprimir a ideia da pichação. O diálogo dá chance para a expressão com consentimento e incentiva a ter responsabilidade com o espaço. Ele leva a uma “pixação consciente”, conceito propagado por Neri, que não vê sentido em garranchos incompreensíveis.

Como em qualquer debate, na sala de aula também não é preciso consenso. “Estudantes não são artistas, nem pichadores. Eles precisam investigar o assunto, ouvir as várias vozes, construir seu ponto de vista e saber argumentar”, diz a formadora de professores de Arte Marisa Szpigel. Ela sugere que você peça aos jovens para expor as definições deles de pichação, pixo, grafite e outras formas de arte urbana e trabalhe com eles textos, imagens e vídeos da internet para colocar em perspectiva os contextos sociais e as intenções de quem se manifesta dessa forma. Incentive os alunos a fotografar grafismos no caminho entre a casa e a escola (ou a buscá-los na internet), e estimule-os a montar painéis e classificar as formas de expressão. Organize assembleias para que todos possam opinar.

Antes de dar vazão à arte, Marisa sugere que se investigue em conjunto os modos aceitos e os não aceitos de se manifestar na escola. “É uma negociação feita entre alunos, professores e a comunidade escolar. Após esse acordo, conseguir um espaço para artes urbanas será uma conquista dos estudantes”, conta Marisa, baseando-se em experiências na Escola da Vila, na capital paulista. Estêncil e lambe-lambe são as técnicas mais usuais para colorir muros e paredes, mas dá para pixar e grafitar com giz e cal, que mostram bem o aspecto efêmero dessa prática.

“A ideia é ajudar os alunos a identificar os limites dos espaços e intervir neles. Se a gente transgredir demais, ele pode se perder”, diz ela. Encontrar esse equilíbrio não é fácil e foge da ideia de subversão inerente à pichação. Porém, assim como transformar uma praça pública demanda escuta e ação comunitária, o mesmo acontece na escola. E, então, topa encarar junto com suas turmas o fenômeno da pichação?

GRAMÁTICA URBANA

Grafite X Pichação

São linguagens diferentes em um mesmo suporte – a cidade. Ambas têm presença forte dentro da cultura hip hop e dividiam o status de expressão não autorizada. Nas últimas décadas, o grafite passou a ser apreciado em fachadas de prédios e casas e em galerias de arte.

Estética de cada lugar

O tag reto, caligrafia famosa, é nativo de São Paulo. No Rio de Janeiro, o xarpi é um estilo de letra embolado e curvo.

Juventude logotipada

Os códigos são mais compreendidos e identificados pelos pixadores, que se organizam em grupos e trocam logotipos entre si usando folhas de caderno.

Atitude é crime, sim

A Lei no 12.408 diz que “pichação é crime que prevê pena de três meses a um ano de prisão mais multa". Se for em monumento ou imóvel tombado, a pena mínima sobre para seis meses.


Fotos: Wikimedia Commons. Ilustrações: Lucas Freire

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