Mesmo aprovada em concurso, percorri 20 escolas em dois dias para vaga temporária de professor

Lydia Cintra, professora de Geografia, peregrinou pela cidade em busca de vagas que as escolas nem sequer sabiam se estavam disponíveis

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Lydia Cintra

No mapa, os pontos destacados indicam as escolas municipais de São Paulo. Os marcados em vermelho são as 20 unidades percorridas por Lydia. O ponto em roxo é a Secretaria Municipal de Educação. Para navegar no mapa, clique com o mouse e puxe para a direção desejada. Para aproximar ou afastar a imagem, clique nos símbolos + ou - na lateral inferior esqueda. Para saber mais informações sobre as escolas, clique em cada um dos pontos de seu interesse.

“Entre 9 e 10 de fevereiro, das 8 às 17 horas, percorri 20 escolas municipais de São Paulo, dez em cada dia, de ônibus e metrô. Nas andanças, encontrei muitos professores fazendo a mesma coisa que eu: cadastro de vagas temporárias para o ano letivo de 2017, que já começou.

Temos um concurso homologado para professor de escolas municipais. No entanto, a prefeitura (alegando emergência) decidiu abrir contratações temporárias, ao invés de efetivar os aprovados. O método utilizado para viabilizar as contratações temporárias é desrespeitoso e contraproducente.

As inscrições foram individualizadas nas escolas. Cada diretor deveria comandar a seleção dos que se cadastraram na sua unidade, seguindo critérios do edital. O fato fez com que iniciássemos uma verdadeira peregrinação pela cidade, seguindo a lógica de que ‘quanto maior o número de escolas em que eu me inscrever, maiores são minhas chances de conseguir uma vaga’. O problema é que São Paulo possui mais de 500 escolas municipais de Fundamental II e Médio. Considerando tempo, distância e as limitações do corpo humano, como lidar com um universo de 500 instituições?

Nessa via sacra paulistana, a tensão física e emocional foi ao limite. As escolas não sabiam sequer responder sobre as demandas por vagas. Fiz a seleção no escuro, sem saber quais realmente precisam de professor de Geografia. Em todas as unidades em que me cadastrei, me falaram que o quadro da disciplina já estava completo ou que não havia como passar a informação, o que naturalmente minou o pouco de ânimo que resistia nessa jornada. Recebi relatos de professores que sofreram insolação, tiveram dores na coluna e que precisaram negociar faltas no trabalho para conseguir realizar os cadastros.

O edital foi publicado em 2 de fevereiro, com inscrições de 6 a 10. Cinco dias de corrida maluca, anunciados com pouquíssima antecedência. Muitos professores que foram às escolas logo no primeiro dia de inscrições deram com a cara na porta. Algumas nem sabiam que as inscrições estavam abertas e pediram para os professores voltarem outro dia.

A lista com o ranking dos inscritos em cada unidade seria disponibilizada em 14 de fevereiro no mural da entrada de cada uma das escolas. Logo, para saber a minha colocação, eu teria que voltar em cada uma e conferir a lista. Mas, no final do último dia de inscrições, o secretário de Educação, Alexandre Schneider, publicou um comunicado no Facebook prorrogando o prazo por mais três dias e alterando a dinâmica dos cadastros, que passaram a ser concentrados nas 13 Diretorias Regionais de Ensino (DREs), que agregam todas as escolas municipais de São Paulo de acordo com a região.

A mudança ocorreu a pedido de um grupo de professores mobilizados que conseguiu se reunir com o Secretário expor a insanidade à qual os professores estavam sendo submetidos, em todos os aspectos.

Mesmo dentro de um cenário ruim (não haver a convocação efetiva do concurso), fazer as inscrições nas DREs claramente era a forma mais adequada, produtiva, sustentável e humana de organizar as inscrições. É mais fácil ir a 13 Diretorias – que, inclusive, têm a verdadeira dimensão das demandas por vagas – do que pensar no que fazer com uma lista de 500 escolas. Estamos falando de milhares de docentes que foram às ruas em baixo de sol, à procura de vagas incertas, sem informação clara e carregados de dúvidas e angústias.



Uma vez que o método de inscrição mudou no meio do caminho (mudou para melhor, sim, mas a situação continua absurda), posso afirmar que joguei fora muita energia e dinheiro. Gastei mais de 100 reais com transporte público, xerox de documentos e alimentação ao longo do dia.

A situação também afetou diretamente as escolas – pelo grande volume de trabalho repentino – e, claro, as próprias DREs, que centralizaram milhares de cadastros e tiveram apenas dois dias para disponibilizar o ranqueamento. Como era previsível, muitos erros apareceram na lista preliminar divulgada: nomes faltando, outros duplicados, classificações equivocadas... agora, passaremos por um período de recursos para a correção das listas. E não sabemos como se dará o chamamento para a ocupação dos cargos temporários.

Diante disso tudo, me pergunto: o processo de nomeação para as vagas efetivas do concurso realmente é tão mais demorado que o de contratações temporárias, que levará ao menos um mês para ser concluído? Como a prefeitura pode abrir vagas temporárias para cargos em que já há concurso público realizado?

Sobre o método utilizado para as inscrições dos temporários, me questiono: por que, afinal, em pleno 2017, a prefeitura da maior cidade do país não disponibiliza online, de maneira organizada, as listas com a nossa classificação? Há uma rede de solidariedade entre docentes neste sentido. Muitos estão tirando fotos das listas e postando em grupos do Facebook, evitando assim que todos nós tenhamos que voltar às Diretorias para conferi-las. Isso nos poupa tempo, dinheiro e desgaste, mas gera insegurança. Cobrei o Secretário duas vezes nas redes sociais sobre a possibilidade de colocar as listas online, mas não obtive qualquer resposta. Em Minas Gerais, por exemplo, o processo de designação para a rede estadual já é feito pela internet.

Por fim, é fundamental que nos perguntemos em que momento a gestão administrativa de uma cidade como São Paulo julgou razoável fazer os professores irem de escola em escola em busca de trabalho. Este é um método recorrente? Vem de outras gestões? Não importa. Sempre é tempo de rever absurdos. Nenhuma categoria merece tal tratamento e não podemos aceitar esse tipo de situação com nossos professores. Se a Educação é tão importante, por que tratamos como heróis missionários que aceitam qualquer coisa aqueles que fazem a Educação acontecer? É realmente um descaso com a categoria. Desejo que nenhum professor precise passar por isso futuramente.”

Lydia Cintra, professora de Geografia aprovada no concurso público da Prefeitura de São Paulo realizado em abril de 2016, ainda sem efetivação

 

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