Leve os enredos das escolas de samba para sua aula

Músicas do carnaval de São Paulo e Rio de Janeiro podem ser utilizados para apresentar diversos temas, de cultura brasileira ao debate sobre meio ambiente

POR:
Ubiratan Leal

Carnaval é festa, música e cultura, mas também pode ser um ponto de partida para trabalhos na escola. Todo ano, dezenas de escolas de samba cariocas e paulistanas vão à avenida cantar um samba, sempre para contar alguma história. E muitos desses enredos podem se transformar em temas para uso em sala, de debates sobre assuntos atuais até eventos históricos.

A edição de 2017 do desfile traz várias oportunidades para sua aula. Do meio ambiente, com o enredo sobre rios da Portela, até corrupção no Brasil, discussão proposta pela São Clemente, passando por música, cultura afro-brasileira, arte de rua e literatura. Selecionamos alguns enredos de Rio de Janeiro e São Paulo que podem ser trabalhados em aula. Confira:

RIO DE JANEIRO

TROPICALISMO

Escola: Paraíso do Tuiuti
Horário do desfile:
domingo, às 22h
Trecho do samba: “Ê Bahia... é lindo o movimento musical / E segue a massa pra viver essa aventura / Quanta mistura... intercâmbio cultural / E na Terra da Garoa... tropicalista / Debochando numa boa... salve o artista”

O Tropicalismo, movimento artístico que valorizou os elementos culturais brasileiros, abre o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. O enredo destaca a participação de nomes como Caetano Veloso e Gilberto Gil e fala sobre como o Tropicalismo deu uma nova forma ao manifesto modernista.

PARQUE INDÍGENA DO XINGU

Escola: Imperatriz Leopoldinense
Horário do desfile:
segunda, entre 0h10 e 0h30
Trecho do samba: “Sou o filho esquecido do mundo / Minha cor é vermelha de dor / O meu canto é bravo e forte / Mas é hino de paz e amor”

A questão indígena vem à tona com o carnaval da Imperatriz. A escola falará do Xingu, parque no Mato Grosso que serve de casa para 17 etnias indígenas. O samba chama a atenção para o fato de os índios serem os primeiros habitantes do Brasil e da luta para manterem sua cultura.

INFLUÊNCIA NEGRA NAS MÚSICAS DAS AMÉRICAS

Escola: Vila Isabel
Horário do desfile:
segunda, entre 1h15 e 1h45
Trecho do samba: “Um solo de guitarra a embalar / ‘Soul’ a mais perfeita forma de expressar / Eu vou, eu vou… onde fez raiz a tradição nagô / Eu vou, eu vou, foi / O povo do samba quem me chamou”

Samba, reggae, rock, jazz, soul, blues, hip hop, funk, gospel, milonga, candombe. Vários ritmos tradicionais das Américas nasceram a partir de elementos trazidos pelos africanos. Sinal de como a cultura negra é fundamental para entender a América de hoje.

IRACEMA (o romance de José de Alencar)

Escola: Beija-Flor
Horário do desfile:
segunda, entre 3h25 e 4h15
Trecho do samba: “Bem no coração dessa nossa terra / A menina moça e o homem de guerra / Ele sente a flecha, ela acerta o alvo / Índia na floresta, branco apaixonado”

Um dos clássicos da literatura brasileira vai à avenida na madrugada de segunda. A Beija-Flor apresentará a obra de José de Alencar, um símbolo do romantismo, sobretudo pela forma como valoriza os elementos culturais e naturais do Brasil.

CORRUPÇÃO

Escola: São Clemente
Horário do desfile:
segunda, entre 23h05 e 23h15
Trecho do samba: “Daí então o ministro do tesouro / Ergueu a peso de ouro / Um palacete e convidou / O soberano que encantou-se nos jardins / Com a beleza se mirando nas águas do chafariz / Foi assim que descobriu nessa festança / Que havia comilança em sua pátria mãe gentil”

O tema parece distante de nossa realidade, mas a São Clemente conta a história de um caso de desvio de dinheiro público na França governada pelo Rei Luís 14 como alegoria para a realidade brasileira.

RIOS

Escola: Portela
Horário do desfile:
terça, entre 2h20 e 3h
Trecho do samba: “A canoa vai chegar na aldeia / Alumia meu caminho, Candeia / Onde mora o mistério, tem sedução / Mitos e lendas do ribeirão”

A Portela homenageará os rios, mostrando sua importância no desenvolvimento das primeiras civilizações e, hoje, na economia de diversas cidades. Outro ponto que será abordado são as lendas criadas em torno da água, como Iara, Boiúna e Cobra-Grande.

RELAÇÃO ENTRE SANTOS CRISTÃOS E ORIXÁS DE ORIGEM AFRICANA

Escola: Mangueira
Horário do desfile:
terça, entre 3h25 e 4h15
Trecho do samba: “O manto a proteger, mãezinha a me guiar / Valei-me meu Padim onde quer que eu vá / Levo oferendas à rainha mar / Inaê, Marabô, Janaína”

O sincretismo religioso fecha o desfile no Rio de Janeiro. A Mangueira, atual campeã do Carnaval carioca, cantará a mistura de elementos católicos com devoção a orixás de origem africana, algo tão comum na cultura brasileira. No meio disso, serão lembrados Iemanjá, Padre Cícero, Folia de Reis, Festa Junina e Dia de Cosme e Damião.

SÃO PAULO

ELBA RAMALHO

Escola: Tom Maior
Horário do desfile:
sexta, às 23h15
Trecho do samba: “Meu cordel em poesia faz a festa no arraiá / No céu de estrelas, fogueiras de São João / Tem asa branca, salve o rei do meu baião / Eta povo festeiro que faz levantar…poeira”

O enredo trata de um personagem, no caso, Elba Ramalho, mas seu alcance é muito maior. A homenagem serve de ponto de partida para a celebração da riqueza da música nordestina.

A ÁFRICA COMO BERÇO DA HUMANIDADE

Escola: Acadêmicos do Tatuapé
Horário do desfile:
sábado, às 2h30
Trecho do samba: “Bate o tambor... deixa girar / Pra exaltar meus orixás / Um canto livre de amor / Na fé... na religião / Somos todos irmãos”

A escola da Zona Leste de São Paulo falará de um tema que recebe pouca atenção nos livros de história: a África entre o momento em que vê o ser humano surgir e o Grande Zimbábue, patrimônio cultural da humanidade e que foi a capital do Reino do Zimbábue na Idade Média.

MIGRANTES EM SÃO PAULO

Escola: Gaviões da Fiel
Horário do desfile:
sábado, às 3h35
Trecho do samba: “No afã de mudar meu destino / Feito menino viajei / Com a alma repleta de saudade / A dura realidade enfrentei”

Impossível entender a história de São Paulo sem falar no papel de milhões de migrantes que deixaram outras regiões do Brasil para tentar a sorte na capital paulista. A Gaviões da Fiel canta a trajetória desses personagens, desde a decisão de sair de sua terra até a chegada a São Paulo.

ARTE DE RUA

Escola: Acadêmicos do Tucuruvi
Horário do desfile:
sábado, às 4h40
Trecho do samba: “Uma sociedade alternativa / Desabafa em calçadas marginais / Desafiei reinos e leis, / Pro desespero do burguês”

Dos grafites ao hip-hop, a Acadêmicos do Tucuruvi trata da arte de rua como forma legítima de expressão, de protesto e até de desabafo. O debate ficou bastante aquecido nas últimas semanas, sobretudo na capital paulista.

SALVADOR (a cidade)

Escola: Unidos do Peruche
Horário do desfile:
domingo, às 23h35
Trecho do samba: “A baía de todos os santos recebe o povo de além-mar / A origem brasileira, é mistura dessa gente / Baiano! Tem calor no coração! / Liberdade! Nunca mais a opressão”

A história capital baiana é apresentada como berço do Brasil (Salvador foi a primeira capital brasileira) e da mistura entre indígenas, negros e europeus. Uma união que se reflete em vários aspectos da vida soteropolitana, da música e religião à comida.

ASA BRANCA (a música)

Escola: Dragões da Real
Horário do desfile:
domingo, às 1h45
Trecho do samba: “Quanta tristeza brota desse chão rachado / Perdi meu gado, "farta" água para danar / ‘Eta’ seca que castiga meu lugar / Vou me embora... seguir meu destino”

A canção “Asa Branca”, de Luis Gonzaga, é um símbolo da música e cultura do sertão nordestino. A Dragões da Real usou alguns versos da música para criar seu samba.

MÃE MENININHA DO GANTOIS

Escola: Vai-Vai
Horário do desfile:
domingo, às 2h50
Tema: Mãe Menininha do Gantois
Trecho do samba:“A ‘Linda Estrela’ está por lá / Ilumina o terreiro de Gantois / Iaô, ô iaô... Que lindo arco-íris que Oxumarê pintou / Seguindo o caminho que a mãe sempre quis / Na força, na fé e na mesma raiz”

A iyálorixá (mãe de santo) baiana é o tema da Vai-Vai. Sua trajetória ajuda a entender o papel das religiões de origem africana no Brasil, sobretudo em Salvador.

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