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Faltam para:   

Fui dispensado de uma entrevista de emprego por defender a pluralidade de ideias

Renato Maldonado, professor de História e Sociologia, foi questionado sobre posicionamento político na sala de aula e a resposta acabou com a entrevista muito antes do que ele esperava

POR:
Renato Maldonado

“Recentemente, fui chamado para uma entrevista de emprego para o cargo de professor em uma escola da zona sul de São Paulo. A instituição possui um projeto político-pedagógico (PPP) diferenciado, que simula assembleias de órgãos como a ONU, desenvolve projeto de inovação e tecnologia, é bilíngue e ministra aulas de atualidades. Para a conversa presencial, me pediram que levasse um tema já estruturado para uma aula teste.  

A entrevista com o coordenador pedagógico e uma assistente começou descontraída. O meu currículo impressiona pela diversidade de experiências e a reputação das instituições em que trabalhei. Indo ao encontro do PPP da escola, digo que já dei aulas de mídia e política, atualidades e democracia e, inclusive, sou autor de livro didático sobre o tema. Além disso, durante o papo, descobrimos que havia muitas pessoas em comum em nossa trajetória educacional, o que favoreceu os sorrisos abertos e a simpatia deles. Senti que se não houvesse uma mesa entre nós, ganharia tapinhas nas costas.

Em determinado momento, o coordenador, ainda sorrindo, mas com certa precaução, tomou um ar de solenidade e me perguntou como eu lidava com o posicionamento político na sala de aula. Segundo ele, os alunos se interessavam pelo posicionamento político dos docentes e que nesses "tempos difíceis", isso teria gerado alguns atritos na escola.

Expliquei que, mesmo nas aulas sobre democracia, com pano de fundo da disputa em torno do impeachment e dos embates entre partidos, nunca tive problemas na condução das minhas turmas. Argumentei que o papel do professor é justamente promover esse olhar plural sobre o objeto de conhecimento e que a escola, como espaço de socialização, muitas vezes abre possibilidades de entendimento do mundo que não estão de acordo com as ideias da família e da grande mídia. Nesse sentido, na formação do jovem, esses debates contribuem para a autonomia intelectual dos estudantes.

Expus também que a ideia de conhecimento neutro é falaciosa, pois a simples seleção de temas, o enfoque, bem como o tom de voz empregado, entre outros sinais, denunciariam a escolha política do professor. Porém, independentemente da posição de cada um, alguns elementos são fundamentais e inegociáveis por estarem, inclusive, em nossa legislação, tais como o reconhecimento da identidade do outro, o respeito às diferenças e à pluralidade, o fortalecimento da democracia e o respeito aos direitos humanos.

Finalizei dizendo que o Escola Sem Partido é um projeto que nega a capacidade de discernimento dos estudantes, pois os considera incapazes de refletir acerca dos conteúdos ministrados. Equivocadamente, ele parte da premissa que os docentes são um grupo de doutrinadores de esquerda.

Após a minha breve exposição republicana, um ar mais pesado tomou a pequena sala, como se uma nuvem densa invadisse o local no momento em que finalizei minha argumentação. O entrevistador, com um semblante de frustração, encerrou sumariamente a entrevista com um agradecimento e a promessa de que me ligaria em breve. Enfiei as anotações da minha aula-teste não realizada de volta na mochila e saí caminhando um tanto confuso de volta para casa.

São tempos difíceis estes que vivemos. Há poucos meses, uma escola vista como progressista na zona oeste de São Paulo sofreu inúmeras críticas dos pais por convidar uma das sumidades nacionais da Filosofia para uma palestra, porque ela se identificaria com o pensamento de esquerda. E então, a presença dela, que deveria ser uma honra para a instituição, se tornou um problema.

Na última escola que lecionei, um pai fotografou e divulgou num grupo do WhatsApp um texto que trabalhei em sala sobre a cobertura do impeachment feita pela mídia. O texto, que cronometrou o tempo dedicado à acusação e defesa do caso em uma reportagem do Jornal Nacional, expôs matematicamente que a dedicação à acusação fora muito maior que o tempo da defesa. Dias depois, conversei 30 minutos com esse pai e ele não fez um comentário sobre o texto. Talvez aquela pessoa que ele estivesse esperando – um professor fissurado ideologicamente e sem abertura para o diálogo –, não tenha se materializado na pessoa de carne e osso que encontrou.

Muitas escolas particulares costumam exercer o controle político-ideológico via currículo, elemento central do processo educativo, sobre seus profissionais. Como disse a professora e pesquisadora Circe Bittencourt em uma entrevista, essas escolas costumam ter uma grande intervenção dos pais ou responsáveis e, por conta de posições que não compactuam com as linhas ideológicas da direção, o número de demissões de professores de História é grande. No ensino público, o controle vem sendo realizado por dispositivos diversos, como materiais apostilados que vinculam o conteúdo ensinado à avaliações externas e provas de mérito, por exemplo. Por isso, devemos estar sempre atentos para as mudanças propostas pelo governo sem diálogo e lutar por uma escola mais democrática e plural.”

Renato Maldonado, professor de História, Sociologia e Política, na rede particular de São Paulo

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