Um estudante bagunceiro cortou meu coração

No início da carreira, a professora Priscila Paes sonhava com as faltas do aluno mais bagunceiro da classe, mas não imaginava o que estava por trás daquele comportamento

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Priscila Paes
Priscila Paes, professora de Ciências, foi surpreendida pela história de um de seus alunos indisciplinados. Crédito: Lívia Pestana

"Ao longo da nossa carreira como professores, vivenciamos situações que desafiam nossas expectativas e entramos em contato com as mais diversas realidades que compõe o contexto em que se inserem as escolas e os estudantes.  Certas vezes, não sabemos muito bem como lidar com algumas situações que nos deparamos no dia a dia da sala de aula.

Em uma das instituições pelas quais passei, ainda como professora iniciante, os acontecimentos que vivenciei me marcaram para sempre. Sem dúvidas, foi o lugar em que mais aprendi sobre conhecer o outro e considerar suas necessidades.  

Nessa época, eu lecionava para sete turmas de 6° ano superlotadas. Em uma dessas classes havia um aluno considerado extremamente indisciplinado. Gritar, correr e jogar coisas nos colegas, por exemplo, fazia parte do comportamento dele e da rotina de tudo que o envolvia. Enquanto isso, do outro lado da sala, eu estava o tempo todo gritando para que se sentasse, ameaçando mandá-lo para a diretoria e trovejando outras tantas frases loucas que soltamos para tentar conseguir organização e atenção das crianças.

Quando ele faltava, a sala se tornava um sonho. Durante um mês, as aulas daquela turma estavam maravilhosas exatamente porque o tal aluno não estava comparecendo à escola. Em uma reunião de professores informei o ocorrido para a gestão e continuei o trabalho normalmente. Na verdade, estava claro no semblante de todos que era melhor o menino não vir mesmo, afinal, atrapalhava a classe.

Mas, um dia, ele reapareceu. Estava sujo, mais magro e continuava o mesmo bagunceiro de sempre. Depois de um dia movimentado pela presença dele, fui corrigir as tarefas. A classe fez fila para olharmos juntos os cadernos. Quando chegou a vez dele, ele me surpreendeu dizendo: 'professora, queria que a senhora fosse minha mãe!'. 'Mas como assim, Fulano?', eu perguntei, confusa. 'Eu vivo brigando com você! Coitado se fosse meu filho!', respondi. 'Mas é por isso mesmo', retrucou o estudante. Dei um sorriso, meio sem graça, mas não tinha entendido nada. Ele queria que eu brigasse com ele? Como assim?

Procurei a coordenação para saber o motivo daquela longa ausência e repentino retorno. E foi aí que percebi o quanto poderia ter desconsiderado completamente as circunstâncias de aprendizado além da escola, as histórias de vida e os mundos. A mãe do grande bagunceiro tinha sido presa e o pai era falecido. A avó, responsável pelo garoto naquele momento, o deixava sozinho em casa o dia inteiro. A gestão da nossa escola, percebendo o problema, havia encaminhado o caso para o Conselho Tutelar. Foi então que entendi: ele queria ser meu filho porque eu simplesmente o notava. Mesmo que meu olhar para ele fosse brigando o tempo todo... O menino só queria alguém que se importasse.

Finalizei o ano com um nó na garganta. Pensava o tempo todo se o Conselho Tutelar teria encontrado alguém para cuidar dele. No ano seguinte mudei de escola e não tive mais notícias deste aluno. Foi um grande aprendizado sobre não se prender apenas à figura do aluno e se esquecer da pessoa atrás dele: alguém que também ama, sofre, tem seus problemas e, vendo tantas crianças sendo crianças, também sente falta de ser como as outras. Creio que o tempo tenha se passado e ele tenha se esquecido daquele momento e de mim, mas eu não. E mesmo depois de quatro anos, mais três escolas e incontáveis estudantes, nunca vou esquecer."

Priscila Paes é professora de Ciências e Biologia na EE Marilsa Garbossa Francisco  

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