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Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Que tal inovar? A proposta é ler e escrever com haicais, os poemas de origem japonesa

Com poemas objetivos, que têm como tema as relações entre homem e natureza, os haicais são um ótimo gênero para a alfabetização

POR:
Mara Mansani

Gustavo, do 3º ano, escreveu um haicai sobre a chuva e ilustrou o poema com gotas azuis. (Crédito: Arquivo pessoal Mara Mansani)

Precisamos sempre renovar nossas práticas em sala de aula. Por isso, todos os anos, invisto um tempo para encontrar novos gêneros textuais apropriados para a alfabetização, estudar suas características e criar possibilidades de explorá-los com meus alunos.

Essas pesquisas e estudos já renderam bons frutos. Até ganhei o maravilhoso Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, em 2014, com uma dessas boas práticas! Foi o projeto “Escrevendo com Lengalenga”, que você pode conhecer melhor aqui.

Assim, venho ampliando o uso de diferentes gêneros textuais na alfabetização. Além das parlendas e ditados populares, que são textos que as crianças têm de memória, e das listas, utilizo também as lengalengas, os contos (de fada, de terror etc), as fábulas, as canções infantis, os poemas... E, em uma dessas últimas pesquisas, encontrei um gênero de poemas encantador e ainda pouco comum no ensino: os haicais!

Haicais são poemas de origem japonesa, lá chamados de haiku. Em sua forma original, eles têm 17 sílabas sonoras, distribuídas em apenas 3 versos (o primeiro com cinco, o segundo, com sete, e o terceiro, com cinco sílabas). São poemas simples, objetivos, sem título, sem rimas, que têm como tema a natureza e as relações do homem com ela. Retratam um momento presente vivenciado, uma impressão tirada da observação da natureza, como uma fotografia.

O haicai surgiu no século 16, tendo como grande poeta e divulgador o japonês Matsuo Bashô. O gênero chegou ao Brasil no século 20 e muitos poetas o abraçaram: Guilherme de Almeida, Paulo Leminski, Millôr Fernandes, Alice Ruiz, Paulo Franchetti, Mario Quintana e Teruko Oda, só para citar alguns. Poetas e poetisas maravilhosos, que retrabalharam o haicai à sua maneira. Guilherme de Almeida, por exemplo, introduziu rimas e deu títulos às suas composições.

Atividades com poemas de modo geral são ótimas para a aprendizagem da leitura e escrita, pois trazem brincadeiras de palavras e sons com os quais as crianças se identificam. Essa linguagem faz parte do universo infantil, amplia o repertório das crianças, serve para expressar emoções, sentimentos ou impressões, e favorece a reflexão sobre escrita e oralidade. Possibilita também a liberdade de escrita, tanto na escolha das palavras quanto na forma gráfica da apresentação do texto e na abertura para atribuir novos significados às palavras, favorecendo a escrita autoral.

Por tudo isso, resolvi trazer o gênero para as salas de 1º a 5º ano, sempre com resultados satisfatórios. No caso que vou contar hoje, a proposta foi para a turma do 3º, e tinha como objetivos que os alunos:

  • Refletissem sobre sua própria escrita e o sistema alfabético e assim consolidassem os seus conhecimentos;
  • Escrevessem alfabeticamente textos de próprio punho, de autoria, individual e coletivamente, tendo como modelo os haicais apresentados;
  • Produzissem textos buscando aproximação com as características discursivas do haicai;
  • Apreciassem textos poéticos conhecendo a obra de vários poetas e poetisas, com destaque para os brasileiros.

Que delicia, que prazer foi ensinar com haicais! E as crianças amaram! Desenvolvi as atividades em duas semanas, dedicando pelo menos uma aula por dia. A seguir, vou descrever em seis passos como foi o trabalho.

1º passo: Apresentei à turma vários haicais em nossas rodas de leitura. Aliás, prolonguei essa apresentação por vários dias ao iniciar as aulas, lendo poemas de diversos autores. Leia abaixo seis exemplos.

Guilherme de Almeida:

Consolo
A noite chorou
a bolha em que, sobre a folha,
o sol despertou.

***

Pescaria
Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha

***

Paulo Leminski:

a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

***

Hoje à noite
até as estrelas
cheiram a flor de laranjeira

***

Matsuo Bashô:

Ao sol da manhã
uma gota de orvalho
precioso diamante.

***

primeira chuva de inverno
O macaco talvez queira
Uma capinha de palha.

 

2º passo: Li para eles a Arca de Haicais, de Luís Dill. O livro é divertido, super colorido, com desenhos fantásticos de animais e seus respectivos haicais, escritos todos com rimas. Destaco dois exemplos:

A beleza do coelho
Quase não cabe
Dentro do espelho.

***

A zebra chama
Código de barras
De pijama.

3º passo: Depois de apresentar esses textos, perguntei aos alunos o que eles tinham percebido. Logo de cara, disseram que todos os poemas tinham três linhas, falavam da natureza (duas das características dos haicais) e que gostavam mais dos que tinham rimas. Só depois contei a eles a origem dos haicais e suas principais características (muitas vezes, vamos dando respostas prontas para os alunos, sem aproveitar a oportunidade de explorar essa capacidade de observação que eles têm).

4º passo: Propus à turma um momento de leitura, e os alunos recitaram os haicais para todos.

5º passo: Após conhecer e explorar esses diversos haicais, fomos para a produção de texto. Pedi que os alunos escrevessem os seus próprios poemas, seguindo os modelos que eles conheceram. Deixei livre o uso das rimas e a quantidade de sílabas sonoras, dizendo que isso era uma decisão do escritor, mas lembrei a forma original característica do gênero. Combinamos, então, que a forma do poema em três versos e o tema natureza não poderiam faltar. Alguns escreveram em duplas e outros, sozinhos. Fui auxiliando e orientando cada aluno, questionando suas escolhas, pedindo que lessem o que haviam escrito, incentivando a turma a ajudar na procura de umas palavras que rimassem para a composição final. Foi tão bom! Eles escreveram cada haicai, todos tão bonitos! Foi uma verdadeira brincadeira com as palavras, eles não queriam mais parar de escrever. Por fim, pedi que copiassem os haicais em folhas de sulfite e que ilustrassem seus textos, para expô-los em nosso painel.

Daniel, do 3º ano, fez um haicai sobre o sol. (Crédito: Arquivo pessoal Mara Mansani)

 

Matheus, do 3º ano, complementou o poema com palavras na própria ilustração. (Crédito: Arquivo pessoal Mara Mansani)

 

Maria Clara, do 3º ano, preferiu falar sobre animais. (Crédito: Arquivo pessoal Mara Mansani)

6º passo: Fizemos uma apresentação dos textos para a própria sala e resolvemos também lançar um livro da turma com todos os haicais, que será apresentado na próxima reunião de pais. Os textos escritos pelos alunos se tornaram referências para escrita de outros textos.

O haicai é realmente uma boa opção para desenvolver a leitura e escrita. Ele oferece ótimas possibilidades de escrita autoral, não só na alfabetização, mas também em outros ciclos, em turmas de adolescentes, jovens ou adultos. Além disso, o gênero é bem acessível. Atualmente há muitas publicações de haicais para crianças, e uma breve pesquisa na internet retorna uma enorme quantidade de material para trabalhar em sala de aula.

E você? Já conhecia os haicais? Quais textos anda utilizando para alfabetizar seus alunos? Quais tipos de texto você acha mais apropriados para alfabetizar? Conte aqui nos comentários!

Um grande abraço e até a próxima segunda!

Mara Mansani

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