O que o impeachment de Dilma Rousseff tem a ver com a sua aula

Como abordar o tema de maneira sensata num período marcado pela polarização de opiniões e por ânimos inflamados

POR:
Anna Rachel Ferreira

Dilma Roussef em audiência no Senado

Dilma Roussef em audiência no Senado. Crédito: Lula Marques/AGPT

 

Após um longo e polêmico processo de impeachment, Dilma Rousseff foi afastada da Presidência da República no dia 31 de agosto. Por 61 votos a 20, os senadores decidiram pela perda do mandato, sem perda dos direitos políticos. É hora, então, de relembrar quais são as propostas de Michel Temer para a área da Educação. Além disso, este é um momento marcante para o país e, independentemente da sua opinião sobre o fato, é inevitável que o assunto entre na sua sala de aula.

O que você pode fazer? Para responder às principais dúvidas, conversamos com os professores Luis Cerri, do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), e Liliam dos Santos, geógrafa e especialista da Universidade Federal do Paraná (UFP). Segundo eles, é imperativo estudar os acontecimentos recentes nas aulas de História, afinal, eles fazem parte do currículo previsto para a disciplina. Nas outras aulas, o tema precisa ser abordado quando for trazido pelos estudantes. Vamos, então, a seis perguntas e respostas para você se preparar para encarar mais essa.

Qual deve ser a postura do docente na sala de aula?
O professor deve se perceber como cidadão político e analisar o quanto sua opinião particular interfere em suas ações em aula. Com isso claro, seja honesto com os alunos, deixe clara sua posição e tenha cautela para não ignorar e nem deturpar o ponto de vista dos outros sobre esse objeto de estudo. Desse modo, você dá aos estudantes a possibilidade de relativizar sua postura e formular posições próprias.

Antes de iniciar uma aula sobre o tema, o professor precisa consultar a equipe gestora da escola?
Cada instituição de ensino tem uma identidade e cabe ao profissional identificar as características do seu local de trabalho. Se o tema surgir no meio de uma aula, o docente tem autonomia para lidar com a situação, sempre se referindo a fatos históricos, dados e estudos, evitando julgamentos ou opiniões pessoais.  É provável que se inicie um debate em sala por inciativa dos próprios estudantes. Lembre-se de que debate é diferente de embate. Garanta que a conversa seja acompanhada de fundamentação, informações objetivas e respeito.

Como encaminhar a conversa com os alunos?
Nas turmas de Ensino Fundamental 2 e Médio, em geral, os estudantes têm opiniões formadas. Para iniciar, você pode fazer um levantamento dos argumentos da classe contra e a favor do afastamento e começar uma análise desses pontos, detectando e apontando quais são embasados em dados e explicações lógicas e fundamentadas. Os que tiverem esses atributos devem ser analisados, acompanhados de documentos e fatos, como em qualquer estudo histórico. Um desses documentos é o depoimento de Dilma, que foi transmitido online e pode ser visto por todos os alunos. A cobertura realizada pelos veículos de imprensa também pode ser lida e comparada. Neste vídeo, o professor de História José Guilherme Zago comenta o movimento Escola Sem Partido e dá sugestões sobre como temas polêmicos podem ser abordados na escola.

É possível comparar o impeachment de Dilma Rousseff com o de Fernando Collor de Melo?

Sim, mas, para que sejam benéficas, as comparações precisam ser contextualizadas. O impeachment de Fernando Collor de Melo foi em 1992, e é o primeiro caso ocorrido na América Latina. Naquele período, as características do país eram outras. Para que essa discussão ganhe uma maior consistência e qualidade, pode-se realizar um trabalho interdisciplinar. Docentes de História, Geografia, Sociologia e Filosofia podem se unir, por exemplo, para que os alunos compreendam como o fato reverberou em vários aspectos da sociedade.

Como estabelecer um paralelo com situações de outros países?
É essencial entender a trajetória histórico-político de cada país, estudar os mecanismos regulatórios de poder e como eles se articulam com as condições do momento. Por exemplo: a popularidade do presidente influencia o resultado final do processo. Nos casos de Richard Nixon (1974) e Bill Clinton (1999), nos Estados Unidos, essa relação fica bastante clara. Já na Venezuela, existe o referendo revogatório, que tem participação direta da população na saída de um governante, diferente do que acontece por aqui.

Qual a abordagem mais adequada para crianças pequenas?
Os meandros de um processo de impeachment são muito complexos para serem abordados nos anos iniciais. Por essa razão, o professor deve focar no estímulo à ética e ao debate, sublinhando o respeito ao outro e favorecendo a argumentação no lugar da agressão. Para tratar o tema, é possível estabelecer paralelos com outras situações de polarização, como no futebol.

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