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Cosac Naify se despede do mercado editorial, mas deixa um lindo legado

POR:
Anna Rachel Ferreira

Na última segunda-feira, logo após a cerimônia do Prêmio Educador Nota 10, minha editora Elaine Iorio me procurou e disse: “Anna, a Cosac Naify fechou!”. Minha reação espontânea foi: “Oi?”. Eu podia jurar de pés juntos, como diz o ditado, que isso só podia ser boato. Mas, na manhã seguinte, recebi o link da entrevista que Charles Cosac, co-fundador da empresa, concedeu ao jornal O Estado de S. Paulo para comunicar o fechamento da casa editorial após quase 20 anos.

Fiquei triste. A Cosac Naify entregou nesses anos um tipo de produto muito específico: livros sempre muito bem cuidados, com um design pensado em minúcias para oferecer ao leitor uma experiência única com o objeto em si e com a leitura propriamente dita. Até o momento em que escrevo este post, não encontrei a informação de quando exatamente as atividades serão encerradas. A última notícia que tive é a de que dezembro será o último mês de funcionamento da editora.

Fiquei pensando em um modo de registrar o fim sendo justa com a beleza desses anos de boa literatura, traduções impecáveis e projetos gráficos que nos deixam maravilhados. Então, decidi compartilhar com vocês alguns dos livros do selo que me marcaram.

Começo por O Livro Amarelo do Terminal, de Vanessa Barbara (254 págs., Ed. Cosac Naify, tel.: 11/3218-1497, 49,90 reais).  Foi o primeiro livro-reportagem brasileiro que me indicaram na faculdade. Fiquei encantada logo nas primeiras folheadas. Ele é todo amarelinho, como indica o título, em referência às Paginas Amarelas – catálogos de contatos de determinada região que há tempos caíram em desuso. Quando aberta, a publicação nos apresenta uma diversidade de grafias. Em certos momentos o texto parece carimbado. Há tíquetes de viagens e recortes de jornal. Conforme você desbrava aquelas histórias tão diferentes entre si, mas tão intimamente ligadas pelo lugar, você também se sente como que descobrindo por investigação própria cada detalhe contado.

Outro livro que é um verdadeiro encanto é Mary Poppins, de P.L. Travers (192 págs., Ed. Cosac Naify, tel.: 11/3218-1497, 39,90 reais). Eu me lembro direitinho quando descobriram o título em cima da minha mesa na redação de NOVA ESCOLA.  “Que lindo!” e variações dessa expressão era o que eu mais ouvia. Todos queriam ver, folhear, apreciar mesmo. A Cosac Naify sempre teve essa característica de tornar o livro arte, não somente pelas palavras, mas enquanto objeto. Mary Poppins foi ilustrado pelo estilista Ronaldo Fraga. A lombada é aberta com linhas aparentes e as ilustrações são feitas em bordados. Tudo em preto e branco, o que contrasta com o rosa-choque da capa. Além disso, o texto foi cuidadosamente traduzido pelo escritor Joca Reiners Terron.

Então, temos Valter Hugo Mãe. Como não falar dele? Só por ter trazido para o Brasil esse monstro da literatura, a editora já teria minha eterna gratidão. Eu estava comentando há pouco tempo com a editora Ana Lígia Scachetti o quanto ele me deixa atônita. Eu fico imaginando que se ele quiser dizer “Vou a feira comprar banana”, o fará da maneira mais bela e singela nunca antes imaginada. Valter lida com as palavras como quem as conhece de maneira íntima. Ele as usa a seu bel prazer com total domínio do que faz e como somente uma alma sensível, generosa e atenta à vida poderia fazer. Minha primeira leitura desse autor foi A Máquina de Fazer Espanhóis (256 págs., Ed. Cosac Naify, tel.: 11/3218-1497, 39 reais). Mas, duvido bastante que ele seja capaz de escrever algo ruim. Então, creio que toda a obra do autor é preciosidade literária e deve ser conhecida.

Por último, quero falar de um título pelo qual me encantei assim que vi a resenha: Confissões de Um Jovem Romancista, de Umberto Eco (192 págs.,Ed. Cosac Naify, tel.: 11/3218-1497, 48 reais). Nesse livro, o escritor italiano narra suas experiências como autor de ficção, iniciadas quando já havia se tornado um cinquentão. O bacana é que ele fala de críticas e de certezas descontruídas com muito bom humor, trazendo uma discussão sobre literatura dentro de uma boa literatura. Nada daquele papo exclusivo para acadêmicos compreenderem.  “Aprendi algumas coisas enquanto escrevia meu romance de estreia [O Nome da Rosa, 1980]. Primeiro, que ‘inspiração’ é uma palavra ruim que autores manhosos usam a fim de parecerem artisticamente respeitáveis. Conforme o velho adágio, a genialidade é composta de dez por cento de inspiração e 90 por cento de transpiração”, diz.

Esses são apenas quatro títulos do extenso catálogo da editora – o último número que encontrei foi de 1.600 livros publicados. Lendo o catálogo, me recordei de algumas leituras e descobri tantas outras que desejo muito fazer. Em todo caso, fico feliz em ver que foram anos de trabalho bem feito que resultaram num lindo legado de arte, literatura e cultura.

Espero que tenham gostado das minhas indicações! J Vocês conheciam algum desses? Já leram muitos livros da Cosac Naify?  Conte-nos sua experiência aqui nos comentários.

Até o próximo post!
Anna Rachel

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