Lição dos campeões, os educadores nota 10

Após a seleção, chega a hora de conhecer os vencedores do Prêmio Victor Civita e os encaminhamentos didáticos que fizeram deles destaque em 2009

POR:
Ana Rita Martins (Ana Rita Martins

Durante quase um mês e meio, os 14 selecionadores do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10 leram 3.795 trabalhos, em jornadas diárias de até nove horas, e avaliaram projetos enviados de todas as regiões brasileiras. O resultado dessa empreitada foi a escolha criteriosa dos dez Educadores Nota 10 e do vencedor na categoria Gestão Escolar (saiba quem são eles no último quadro). Os escolhidos lecionam disciplinas variadas. Há uma característica, porém, que os une: todos seguiram os dez encaminhamentos didáticos que ajudam qualquer projeto a dar certo. Leia abaixo quais são eles.

1 Fazer uma avaliação inicial consistente e saber usá-la 

Para o trabalho se traduzir em aprendizagem, é fundamental que ele seja precedido por uma avaliação sobre o que cada aluno da turma já sabe e precisa aprender ao longo do ano. É com base nesse diagnóstico que se definem objetivos de aprendizagem, conteúdos a ser ensinados e situações didáticas adequadas. Com esses dados em mãos, também é preciso pensar em maneiras adequadas para transformar o conhecimento da classe numa ferramenta para fazer todos os alunos avançarem. De acordo com Débora Rana, selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10 na área de Alfabetização, o número de projetos na área que contavam com um diagnóstico inicial correto aumentou neste ano em relação a 2008. "O resultado prático são atividades mais bem planejadas e mais eficientes para as crianças", afirma.

2 Planejar com base numa intencionalidade educativa 

Ao refletir sobre o que e como vai ser ensinado, você deve ter clareza do propósito didático de cada ação a ser desenvolvida. Durante o planejamento, em vez de apenas elencar qual o passo a passo de uma modalidade organizativa (projeto, atividade permanente ou sequência didática), procure justificar por escrito o porquê de cada uma delas. Além disso, reflita sobre o motivo de uma ser feita antes da outra e sobre a razão da situação em questão ser a mais adequada para garantir a aprendizagem da turma. No caso do trabalho em grupo, recorrente em grande parte dos projetos recebidos, isso fica ainda mais aparente. Se o foco de formar agrupamentos é justamente juntar saberes diferentes e (ou) complementares, não faz sentido colocar determinado aluno com outro aleatoriamente sem uma intenção didática clara.

3 Definir objetivos claros e possíveis de alcançar 

Delimitando com zelo as metas de uma atividade, fica mais fácil saber quais conteúdos serão adequados para atingi-las. Objetivos abrangentes demais, como formar cidadãos e desenvolver a autoestima nos estudantes da turma, jamais podem ser o cerne de uma ação didática. "Ninguém realiza coisas tão complexas somente com um projeto. O que de fato faz os alunos se sentirem bem consigo mesmos e muito mais conscientes é o próprio aprendizado", afirma Ivone Domingues, selecionadora na área de Matemática.

4 Fazer uma avaliação final sobre o que foi ensinado 

Diagnosticar o aprendizado não é só dar um conceito às produções da turma. O objetivo é perceber o desenvolvimento de cada um em relação ao seu próprio processo de aprendizagem e aos objetivos propostos. As avaliações devem se ater ao que foi ensinado. Não vale testar habilidades referentes a algo não trabalhado.

5 Atualizar-se sobre o conhecimento didático 

Estar afinado com as melhores práticas de sua área é pré-requisito para um Educador Nota 10. "Assim como seus alunos, o educador precisa estudar e pesquisar. E, principalmente, implementar o conhecimento adquirido na sala de aula", afirma Beatriz Gouveia, selecionadora na área de Língua Portuguesa. Em 2004, primeiro ano em que a estatística foi calculada, apenas 32% dos inscritos possuíam um curso de pós-graduação. Neste ano, o número de professores com essa formação aumentou para 53%.

O prêmio em números 
Na história

169 professores premiados nas 12 edições
1,21
milhão de reais entregue em prêmios
37.076
projetos recebidos 

6 Acompanhar a aprendizagem de todos 

Uma preocupação esteve presente em todos os projetos nota 10 deste ano: os professores trabalharam com afinco para que nenhum aluno ficasse para trás. Baseados na observação feita em sala de aula e nos registros individuais e coletivos das atividades, eles foram capazes de identificar as dificuldades de cada criança e pensar nos pontos a serem trabalhados. "Os diferentes graus de desenvolvimento dentro de uma turma não podem servir de desculpa para que só alguns alunos aprendam. Acompanhar estudante por estudante é prever intervenções personalizadas e atividades diferenciadas para que cada um e todos possam avançar", afirma Karina Rizek, selecionadora na área de Educação Infantil.

7 Saber como flexibilizar a prática na inclusão 

Neste ano, em vez de ser uma categoria à parte, a Educação Inclusiva passou a ser julgada dentro dos projetos tradicionais. Os professores que se destacaram conseguiram ensinar à criança com deficiência o mesmo que estava sendo trabalhado com o resto da classe, fazendo-a participar de acordo com as suas possibilidades. "Ações específicas, como ensinar Libras, devem ser feitas no contraturno. Em sala, cabe ao professor ajustar o grau de dificuldade das atividades às especificidades do aluno. A avaliação também pode e deve ser flexibilizada. A proposta é exigir algo diferente para que a criança participe e estude da mesma forma", afirma Daniela Alonso, selecionadora na área de Educação Inclusiva.

8 Registrar o processo para balizar as intervenções 

Tudo o que o professor observa no decorrer das atividades deve ser anotado e estudado constantemente para que seu trabalho seja aperfeiçoado e readequado conforme a necessidade. É importante refletir se as ações propostas correram de acordo com as expectativas e, se não foi assim, descobrir as causas. Esse registro reflexivo do passo a passo serve para pensar sobre as escolhas didáticas e perceber onde estão os nós do próprio trabalho. Com base no diagnóstico sobre os pontos em que os alunos têm dificuldades e o que os faz avançar, pode-se pensar em modificações e intervenções necessárias. Isso, no início, pode ser feito individualmente, mas vale frisar: é fundamental partilhá-lo durante o horário de trabalho coletivo com colegas e com a coordenação pedagógica para ampliar a discussão sobre a própria prática.

9 Planejar com cuidado as sequências didáticas 

O trabalho deve ter a intencionalidade de ensino e estar focado em um conteúdo. É necessário também levar em consideração a diversidade de saberes dos estudantes. O planejamento deve ser anterior à ação e tão importante quanto o encadeamento da sequência é observar a evolução da classe e atentar para as adaptações que podem ser necessárias no meio do processo. "Todos os passos de uma sequência didática devem ser complementares e precisam propor um aumento gradual da dificuldade. Não se pode esquecer também de contemplar aqueles alunos que, por acaso, não atinjam os objetivos", afirma Priscila Monteiro, selecionadora na área de Matemática.

10 Incentivar os alunos a aprender com autonomia 

Sugerir situações-problema ou dar espaço para que os alunos as proponham e reflitam sobre elas é uma ótima maneira de envolver os estudantes no processo de construção do conhecimento dentro de sala de aula. Em vez de dar aulas diretivas, em que apenas o professor explica e costuma pedir respostas prontas sempre, mais vale levantar questões abertas e instigantes, considerar o pensamento de toda a turma sobre elas e intervir para que as crianças confrontem suas hipóteses e aprendam cada vez mais. Para isso, o educador deve acreditar na capacidade intelectual dos alunos.

O prêmio em números
Em 2009

3.795
números de projetos inscritos
 

Tipo de escola e categorias

Ilustrações: Mario Kanno
Clique para ampliar

84,4% Pública
16,6% Privada

17% Gestor Nota 10
83% Professor Nota 10

 

Estado e região

Clique para ampliar

8,9% Centro-Oeste
17,9% Nordeste
6,2% Norte
45% Sudeste
21,8% Sul

 
Disciplina

Clique para ampliar

Língua Portuguesa 27,71%
Ciências 9,69%
Matemática 7,19%
Arte 5,61%
História 3,63%
Educação Física 4,53%
Geografia 7,87%
Língua Estrangeira 2,39%
Total 68,62%

O restante dos projetos foi enviado nas categorias Educação Infantil e Prêmio Gestor Nota 10 em que não há divisão por disciplinas

Formação dos participantes

Clique para ampliar

53% Pós-graduação 
38% Superior completo 
7% Superior incompleto 
1% Ensino médio completo

 

Os Educadores Nota 10

Ademir Testa Júnior
Com base em suas próprias perguntas, adolescentes de 5ª a 8ª série de Bocaina, SP, aprenderam por meio de procedimentos investigativos a importância da Educação Física.

Andréia Betina Legatzky Klitzke
Para introduzir o conceito de ângulo aos alunos de 5ª ano em Joinville, SC, a professora se valeu de situações práticas para trabalhar a ideia de ângulo associada ao giro (rotação).

Audrea da Costa Martins
Crianças de 5ª e 6ª séries de São Leopoldo, RS, desenvolveram o pensamento musical, ampliaram seu repertório e ainda aprenderam a linguagem da música.

Claudia Tondato
A reescrita de um conto com o desafio de trocar o personagem principal por outro foi o ponto de partida para que alunos de 4ª série de São Caetano do Sul, SP, aprendessem a planejar um texto.

Daniela Mazoco
"Quantos litros de água consumiu, em média, um morador de nossa cidade em 2007?" Ao responder a essa pergunta, os alunos da 6ª série de Urupês, SP, foram a campo aprender a medir e comparar unidades de volume.

Karla Emanuella Veloso Pinto
Jovens do 8º e 9º anos de Lavras, MG, deram novo significado às tarefas de casa ao utilizar um ambiente virtual na disciplina de Geografia. Nele, debateram coletivamente sobre vários conteúdos.

Maria das Dores Raposo
Pautas de leitura e de produção de texto criadas pela professora ajudaram os alunos da 6ª série de São Luís, MA, a trabalhar contos de terror.

Maria Tereza de Almeida Lima
Por meio da leitura e análise de um jornal editado no século 19, os adolescentes do 9º ano de São João del Rey, MG, aprenderam definições de literatura e gêneros da esfera jornalística e literária.

Milca Luiza Toyneti dos Santos
Variadas situações de leitura e escrita fizeram com que as crianças do 2º ano de Itápolis, SP, se familiarizassem com o mundo dos textos e avançassem no processo de alfabetização.

Rosangela Guella Tamagnone
As turmas de 7ª e 8ª séries de Caxias do Sul, RS, aprenderam quais elementos compõem uma boa fotografia depois de apreciar a obra do consagrado fotógrafo Sebastião Salgado.

Amarildo Reino de Lima
Para resolver a distorção entre idade e série de sua escola em Samambaia, DF, o diretor investiu na reelaboração do currículo e das avaliações e no envolvimento dos professores.

Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias