Retrato - A Educação por outro foco - Estimado Lobato

Escrevo esta carta para lhe contar que descobri outro lado de seu universo literário

POR:
NOVA ESCOLA
Ilustração Eduardo Nunes
Ilustração Eduardo Nunes

Fiquei de olhos arregalados, meio parados, feito uma boba – tal qual a boneca Emília antes da pílula falante –, quando descobri que o senhor, mesmo com a atarefada vida de escritor e batalhador das causas nacionalistas, fazia questão de reservar um tempo para se corresponder com os pequenos leitores da mesma maneira que fazia com Mário de Andrade e Erico Verissimo. Meu pensamento correu solto ao imaginar o rumo que as missivas tomavam – porque hoje em dia, meu caro, o contato entre autores e leitores mirins cai quase sempre numa burocracia escolar desanimadora, numa prosa que não rende mais que dois ou três parágrafos...

Curiosa, pesquisei na internet (uma maravilha eletrônica da atualidade que o deixaria boquiaberto) e descobri um arquivo com parte dessa correspondência, à disposição de visitantes, no Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulalio (Cedae), na Universidade Estadual de Campinas. Agendei uma visita e, em uma sexta-feira, lá estava eu.

Seguindo uma frase que Marisa Lajolo, professora que participou da organização do acervo, me disse – “O leitor infantil se sente respeitado por Lobato” –, comecei buscando notícias do passado. Com as mãos devidamente enluvadas – seus escritos são tratados como obras históricas –, alcancei uma carta enviada à garota Maria Luiza, em 1936, que comprova a afirmação. “Está aqui uma menina que bem merecia morar no sítio de dona Benta e tomar parte de nossas aventuras. Sabe alemão e tem ‘personality’.”

Minha pesquisa seguiu e percebi que na sua opinião essa escrita tem de ser mesmo inteligente e sem caráter de dever de casa. “Tem valor a opinião das crianças; mas não tem valor nenhum, nenhum, a de uma criança ‘assoprada’ por um adulto”, revela um trecho da correspondência enviada em 1947 para a então menina Josette. Aposto que ficou curioso para saber notícias dela. A “patriciazinha de Piracicaba”, como costumava chamar a pequena com quem trocou cartas durante dois anos, hoje tem 75 anos, e é escritora e professora de Música.

Antes de me despedir, mais notícias do presente. Tem muita gente bisbilhotando a sua correspondência, como Raquel Afonso. A pesquisadora me contou que leu 246 cartas suas trocadas com crianças e organizou uma tese de doutorado, comprovando que seu contato com os pequenos era intenso, além de rico, pois o universo das obras era transposto para a vida real naturalmente. Pela dedicação e pelo esforço, bem que ela merecia uma visita sua a bordo de um condor, como a prometida em correspondência também para Maria Luiza. O que acha da ideia?

Com saudades, me despeço,
RITA TREVISAN, de Campinas, SP

Quer saber mais?

INTERNET 
Em www.unicamp.br/iel/monteirolobato, cartas enviadas e escritas pelo autor. Em www.lobato.com.br, informações sobre a vida e a obra de Monteiro Lobato.

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