Clarice Lispector, investigadora de intimidades

POR:
NOVA ESCOLA
Clarice Lispector em 1970: enigmática primeira-dama da ficção brasileira. Foto: Pedro Henrique
Clarice Lispector em 1970: enigmática 
primeira-dama da ficção brasileira.
Foto: Pedro Henrique

Clarice Lispector mergulha na intimidade dos seus personagens e a investiga profundamente, em busca do que seria o próprio núcleo existencial dessas criaturas. Utiliza para isso uma prosa rica em características poéticas - sonoridades, analogias, figuras de linguagem - e a exposição do fluxo psicológico dos personagens. Muitas vezes, eles adquirem a consciência do próprio existir a partir de uma iluminação repentina produzida por um fato aparentemente menor. Esse momento crucial de descoberta de si mesmo e toda a solidão e as dúvidas que essa descoberta revela ao ser humano constituem os temas recorrentes da ficcionista.

Escrever é, assim, um processo de conhecimento da realidade psicológica dos seres, essencialmente emocional e intuitivo. E por meio dele se desvendam segredos íntimos, desejos reprimidos, pensamentos constrangedores, atinge-se a intimidade mais profunda. Esse mergulho na alma humana é marca de muitos prosadores de nossos dias. Lygia Fagundes Telles, Osman Lins, Ivan Ângelo, Samuel Rawet, Nélida Piñon produzem textos que revelam alguma influência dos de Clarice, feiticeira das palavras.  

Biografia 

Em 1975, Clarice Lispector compareceu ao I Congresso Mundial de Bruxaria, em Bogotá. Sua participação, limitada à leitura de um conto, confirmou a opinião de muitos críticos: ela tecia encantamentos com as palavras.

Clarice nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920. Veio ainda bebê para o Brasil, onde seus pais levavam uma vida de comerciantes judeus pobres, primeiro no Nordeste, depois no Rio de Janeiro. A partir de 1939, já na Faculdade de Direito da Universidade do Brasil, trabalhou como tradutora e secretária. No ano seguinte, tornou-se redatora e repórter da Agência Nacional, iniciando sua carreira jornalística.

Em 1943, Clarice terminou o curso de Direito, casou-se com o colega de faculdade e futuro diplomata Maury Gurgel Valente e publicou seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem. No ano seguinte, o casal se mudou para Nápoles. Na Europa, Clarice terminou seu segundo romance, O Lustre, e trabalhou num hospital, cuidando de pracinhas feridos. Em 1946, o casal estava na Suíça, onde Maury era diplomata. Em Berna, ela teve seu primeiro filho, Pedro (1948), e terminou de escrever A Cidade Sitiada. Trabalhava com a máquina no colo, para cuidar da criança.

Na década de 1950, Clarice e a família fixaram-se nos Estados Unidos, onde nasceu seu segundo filho, Paulo, em 1953. Seis anos depois, separada do marido, voltou ao Brasil com os filhos e retomou as traduções e o jornalismo. Em 1960, com 40 anos, lançou seu primeiro livro de contos, Laços de Família. Em 1961, publicou o romance A Maçã no Escuro, considerado o melhor livro do ano. Seguiram-se os contos de A Legião Estrangeira e o romance A Paixão Segundo G. H., ambos de 1964, aclamados pela crítica e pelo público.

Em 1966, Clarice sofreu um duro golpe: adormeceu com um cigarro aceso e um incêndio no quarto provocou queimaduras por todo o seu corpo. Sua beleza foi atingida, mas não o seu status de primeira-dama das letras brasileiras. Em 1977, lançou a novela A Hora da Estrela, adaptada para o cinema. Morreu no mesmo ano, vítima de câncer.

A sedutora feiticeira das letras

Na adolescência, Clarice Lispector morou no tranqüilo bairro da Tijuca. Depois, conheceu as redações de jornais e os bares da Cinelândia, onde se reuniam jornalistas e intelectuais, muitos deles fascinados por sua beleza exótica. Antonio Callado e Lúcio Cardoso estiveram entre seus colegas na Agência Nacional. Mais tarde o círculo se alargou, abrangendo Rubem Braga - que conhecera na Europa -, Vinicius de Moraes, Raquel de Queiroz, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e outros representantes da intelectualidade boêmia do Rio de Janeiro. Nos Estados Unidos, tornou-se amiga de Erico Verissimo e de sua esposa, Mafalda. De volta ao Rio, passou a morar no Leme e a freqüentar as redações de jornais, revistas e editoras que publicavam seus textos.

Quer saber mais?

A Maçã no Escuro, Clarice Lispector, 336 págs., Ed. Rocco, tel. (21) 3525-2000, 37 reais 
Felicidade Clandestina, Clarice Lispector, 160 págs., Ed. Rocco, 21 reais
Laços de Família, Clarice Lispector, 135 págs., Ed. Rocco, 20 reais 
Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector, 202 págs., Ed. Rocco, 26 reai 

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