Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias

Vegetação nativa em situação de risco

As formações vegetais do país podem ser relacionadas às mudanças da paisagem

POR:
Anna Rachel Ferreira
A garotada observou a paisagem preservada, tomou notas e fez desenhos de observação. Rafael Araújo A garotada observou a paisagem preservada, tomou notas e fez desenhos de observação Fotos antigas foram comparadas com a paisagem atual, conhecida da turma. Rafael Araújo Fotos antigas foram comparadas com a paisagem atual, conhecida da turma

"Cadê a árvore que estava aqui?" O questionamento foi recorrente durante a sequência sobre vegetação, trabalhada pela professora Sandra Oliveira Nascimento com a turma de 5º ano da EMEIEF Camerino Cunha Neto, em Paragominas, a 314 quilômetros de Belém. Isso porque, ao estudar o tema, ela ultrapassou a fronteira das nomenclaturas e definições das páginas dos livros e discutiu o processo de formação do município - em que a Floresta Amazônica foi devastada, *alterando radicalmente a paisagem local. "Os alunos possuem uma relação com o entorno e o observam de maneira informal. Devemos dar repertório a eles para qualificar esse olhar", lembra o geógrafo Jaime Oliva, autor de livros didáticos.

Para começar, a garotada foi apresentada a dois mapas do Brasil. O primeiro mostrava a vegetação original do país e o segundo a atual. "Quais foram as formações vegetais mais devastadas? ", questionou Sandra. Os estudantes identificaram com rapidez a Mata Atlântica, que teve mais de 80% de sua área destruída, e chamaram a atenção para a Floresta Amazônica. Houve uma discussão sobre o desmatamento nas regiões. A professora seguiu com a leitura do mapa, questionando sobre outros tipos de vegetação brasileira, como o cerrado e a caatinga. Eles perguntaram sobre o significado dos nomes dos biomas e os relacionaram com o senso comum. "Xiii. Mas caatinga é de cheiro ruim, não é?", indagou um dos estudantes. A dúvida foi resolvida no livro didático, que trazia a definição e as características das diferentes formações vegetais do país.

Depois de estudar as paisagens do Brasil, a turma foi convidada a refletir sobre o município. As crianças chamaram a atenção para a falta de árvores na zona urbana. A professora apresentou, então, o livro Paragominas, A Realidade do Pioneirismo (Glaucia Lygia Rabello Leal, 488 págs., Ed. Alves, tel. 91/3011-0025, edição esgotada), que narra a construção da cidade. Após a leitura, ela fez uma breve exposição sobre o tema. À medida que via os registros, a garotada indagava: "A nossa cidade é aqui?" e "Cortaram todas essas árvores?". A docente esclareceu, então, que a criação do município foi planejada e que houve desmatamento. Além disso, muitas casas foram construídas com madeira e a exploração dessa matéria-prima era lucrativa, o que intensificou a destruição da mata nativa.

Para continuar o estudo, Sandra levou um grande mapa do estado à sala de aula. Depois de identificarem Paragominas, todos encontraram outros locais conhecidos, como a capital do estado e Ipixuna do Pará, cidade vizinha. A professora pediu que eles se lembrassem desses locais e os comparassem à cidade em que vivem. A turma também confrontou a paisagem atual com fotos antigas. "Queria que todos começassem a pensar nas consequências que esse desmatamento trouxe para a nossa vida", diz Sandra. O impacto das árvores na sensação térmica ficou mais evidente. Ela chamou a atenção também para a mata ciliar, hoje ausente no trecho urbano do rio local, o Uraim. A importância dessa vegetação como forma de evitar a erosão do solo foi abordada. "É por isso que as casas que ficam pertinho do rio enchem na chuva?", perguntou um dos garotos. O problema atinge pessoas conhecidas da turma.

Para finalizar, a professora anunciou que a sala receberia a visita de Raimundo Campos de Araújo, um dos pioneiros da cidade, que contaria com mais detalhes como tudo ocorreu. A meninada, ansiosa pela roda de conversa, ouviu atenta a tudo que Araújo, conhecido como Mundico, narrou. Alguns estudantes foram enfáticos: "O senhor cortou todas essas árvores?", perguntou um menino. O convidado respondeu que chegou à região quando a vegetação já tinha sido retirada. As crianças anotaram tudo o que consideraram importante. Elas aprenderam, por exemplo, que as plantações de pimenta, tão comuns na região, se iniciaram no período em que a cidade começou a ser construída.

Observação e descrição da paisagem

Na aula seguinte, a professora trouxe um texto sobre o Pacto do Município Verde  - Paragominas recebeu esse selo graças a projetos de reflorestamento realizados nos últimos três anos pelo poder público. Durante a leitura, os alunos expuseram algumas dúvidas sobre o decreto e sua fiscalização. Sandra explicou que as medidas visavam combater o desmatamento desenfreado que ocorria na região. "Queria levar todos a perceber que isso ocorreu em razão da construção da cidade, mas continuou, depois, ao longo dos anos", ressalta.

Dando sequência às atividades, os estudantes foram levados ao Parque Ambiental de Paragominas para realizar uma pesquisa. O local, que era uma propriedade privada, foi municipalizado e tem a vegetação nativa preservada. Lá, há vários exemplares de espécies da região Amazônica, como a samaúma, árvore alta e de tronco largo (que aparece na foto que abre a reportagem). As crianças fizeram desenhos de observação e registraram o nome científico de cada planta, bem como os termos pelos quais são chamadas pelos moradores da região. Também observaram um trecho em que a margem do Rio Uraim tem a mata ciliar preservada. "É importante os alunos saberem que há vegetação nativa em outros pontos do município, mesmo que ela não esteja muito presente na cidade", explica Sueli Furlan, docente da Universidade de São Paulo (USP).

Na volta, a garotada escreveu textos sobre a vegetação. "Eu queria que fossem preservadas árvores como a maçaranduba e o ipê, além das que ficam nas margens dos rios", escreveu o aluno Marcos Vinícius Barbosa Sodré, 10 anos.

1 Tipos de vegetação Mostre mapas da vegetação original e atual do país. Peça que a turma identifique as principais alterações e proponha um debate. Apresente as formações vegetais do Brasil.

2 Paisagem do entorno Converse sobre a vegetação presente no município ou região em que vive a garotada. Proponha uma análise das causas de eventuais mudanças.

3 Observação in loco Leve os alunos para conhecer a vegetação que ainda se conserva nas redondezas. Instrua todos a anotar informações relevantes, como nomes científicos. Ao fim, peça uma produção escrita do que foi trabalhado.

Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias

Tags

Guias