Retratos da América recém-descoberta

Os alunos analisaram documentos, quadros, mapas e filmes para comparar a paisagem do Brasil e da América Central e pensar como seriam esses locais no século 16

POR:
Wellington Soares, Beatriz Santomauro, NOVA ESCOLA
Diversos recursos foram usados para estimular discussões. Veja alguns deles a seguir Observar para aprender Diversos recursos foram usados para estimular discussões. Veja alguns deles a seguir A turma observou a postura de domínio do colonizador sobre os nativos da América Central. Sandro Castelli Primeiros encontros A turma observou a postura de domínio do colonizador sobre os nativos da América Central A turma identificou o choque de culturas entre os portugueses e os índios do Brasil, que viviam nus. Sandro Castelli Primeiros encontros A turma identificou o choque de culturas entre os portugueses e os índios do Brasil, que viviam nus. Enquanto na América Central havia cidades e muitas pessoas, no Brasil <i>(próximo slide)</i>, viam-se ocas em torno de um pátio. Sandro Castelli Organização social Enquanto na América Central havia cidades e muitas pessoas, no Brasil (próximo slide), viam-se ocas em torno de um pátio. Diante disso, os alunos acharam que nosso povo era mais atrasado do que os vizinhos ao norte. Sandro Castelli Organização social Diante disso, os alunos acharam que nosso povo era mais atrasado do que os vizinhos ao norte. Os rituais dos moradores da América Central <i>(à esq.)</i> indicavam uma cultura mais sofisticada que a dos brasileiros <i>(à dir.)</i>, que caçavam animais silvestres com arco e flecha, conforme a análise dos estudantes. Sandro Castelli Modo de vida dos nativos Os rituais dos moradores da América Central (à esq.) indicavam uma cultura mais sofisticada que a dos brasileiros (à dir.), que caçavam animais silvestres com arco e flecha, conforme a análise dos estudantes.

"Quais países da América Central vocês conhecem? E da América do Sul?" Essas perguntas foram feitas pelo professor Bruno Souza Santos para o 7º ano da EE Dorivaldo Damm, na zona rural de Limeira, a 150 quilômetros de São Paulo, diante de mapas políticos. Em seguida, ele mostrou aos alunos representações cartográficas elaboradas no século 16 e usadas pelos colonizadores europeus. "Minha intenção era que vissem detalhes interessantes nesses materiais, como a diferença entre os contornos dos continentes e até os monstros desenhados no oceano dos mapas antigos", explica. Alguns comentários dos estudantes, como "Eles não sabiam fazer mapa!" e "Não é assim! Aquela distância é menor!" foram pontos de partida para Santos falar do período em que tinham sido produzidos e do contexto.

Com essas atividades, o professor pôde notar os conhecimentos prévios dos alunos sobre essas duas Américas. Sua intenção era iniciar um estudo sobre a paisagem, conceito que se refere a tudo aquilo que se vê. Ou, de acordo com o geógrafo Milton Santos (1926-2001) no livro A Natureza do Espaço (392 págs., Ed. Edusp, tel. 11/3091-4008, 66 reais): "É o conjunto de formas que, num dado momento, exprimem as heranças que representam sucessivas relações entre homens e natureza". Para enfocar esse conteúdo, o professor elegeu os recursos didáticos que acompanhariam as discussões em sala. "Sabendo que analisaríamos a paisagem, precisávamos de materiais que nos ajudassem a visualizar terras, matas, animais, povos nativos e colonizadores", explica Santos (veja algumas imagens usadas na galeria).

Ele então apresentou os relatos dos viajantes: a carta de Pero Vaz de Caminha (1450-1500) para o rei de Portugal em que conta como era o Brasil recém-descoberto e os textos de Hernán Cortés (1485-1547) para o governante da Espanha que falam da relação com os habitantes da América Central. Em seguida, dividiu a turma em pequenos grupos, que deveriam ler e compreender a linguagem rebuscada de diferentes trechos e depois apresentar o conteúdo a seus colegas. "Essa maneira de organizar os alunos foi muito produtiva. Inicialmente eu tinha considerado separar a classe toda em apenas dois grupos, mas achei que as discussões perderiam o foco e prejudicariam a aprendizagem."

O parágrafo da carta de Caminha que mais chamou a atenção dos estudantes foi o que destacou os aspectos físicos brasileiros: "Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios por essas árvores, deles verdes e outros pardos, grandes e pequenos, de maneira que me parece que haverá muitos nesta terra (...) Alguns diziam que viram rolas; eu não as vi. Mas, segundo os arvoredos são mui muitos e grandes, e de infindas maneiras, não duvido que por esse sertão haja muitas aves!"

Já entre as diversas cartas enviadas por Cortéz ao rei espanhol, os alunos observaram a violência diante dos nativos, como as frases que dizem: "Queimei seis povoados e prendi e levei para o acampamento quatrocentas pessoas, entre homens e mulheres, sem que me fizessem qualquer dano. (...) Antes do amanhecer do dia seguinte tornei a sair com cavalos, peões e índios e queimei dez povoados, onde havia mais de três mil casas".

Diante da nova situação, a mudança de rumo

Na aula seguinte, quando Santos procurou recuperar o que havia sido discutido, se deparou com um fato inesperado: as crianças não se lembravam de detalhes importantes do conteúdo. Diante disso, pediu que passassem a registrar, no fim de todos os seus encontros, o que foi aprendido naquele momento - tanto o que ele destacava quanto o que os próprios alunos consideravam essencial. "O resultado positivo foi imediato. Quando os estudantes retomam as anotações, relembram o que foi falado. Se ainda assim noto a necessidade de reforçar algum ponto não aprendido por todos, peço que alguns leiam em voz alta seus registros para os demais", conta.

A próxima etapa foi a análise de diversos desenhos e pinturas feitos no período das descobertas da América Central e do Brasil, sempre comparando com as informações dos relatos dos viajantes e dos mapas agora já conhecidos pela turma. Durante a observação das imagens, Santos notou novos e interessantes comentários dos alunos: "Parece que colonizadores e colonizados viviam em outro mundo, com tantas roupas e meios de transporte diferentes!" e "Na América Central tinha tantas construções!", disse outro. O professor concordou que a urbanização era mesmo maior, mas que isso não era "melhor" ou "pior" do que o Brasil. E fez uma nova proposta: assistiriam a filmes sobre o descobrimento da América Central, como Apocalypto (Mel Gibson, 139 min, Fox, tel. 11/2505-1732) e 1492: A Conquista do Paraíso (Ridley Scott, 154 min, Spectra Nova, tel. 11/3103-9900), além de documentários sobre o Brasil. "Escolhi trechos que mostravam a paisagem e os costumes", explica. Para finalizar, elaboraram um relatório sobre o que aprenderam.

Para Regina Araujo, do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), essa variedade de recursos é essencial: "A análise de documentos de diferentes naturezas amplia a visão dos alunos sobre aquela paisagem estudada". Ao trabalhar com relatos e imagens, porém, é essencial deixar claro que são uma versão dos fatos. "Artistas e descobridores enxergavam a paisagem de maneiras diferentes. O aluno pode construir sua própria interpretação do local, já que aquela paisagem mudou com o tempo."

Essa sequência didática é resultado de muito estudo. Santos fez uma especialização a distância, e um dos módulos foi sobre a América Latina. Com base no material que conheceu, desenvolveu essa e outras maneiras de trabalhar.

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