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Para mudar o olhar e encantar a alma

Fotografias, feitas pelos alunos de Vera Cristina Terrabuio Lucato, fizeram parte do projeto que sensibilizou a turma sobre o trabalho rural

POR:
Beatriz Vichessi
A professora Vera Cristina Terrabuio Lucato, da EMEFEI Oscar Novakoski, em Dois Córregos, a 255 quilômetros de São Paulo, queria sensibilizar o olhar da turma para a linguagem fotográfica e fazer com que todos produzissem fotos. Para isso, ela escolheu um tema familiar para os alunos: o trabalho do campo, alvo de um preconceito inconsciente de vários estudantes. Na primeira etapa, a turma estudou pintores e fotógrafos que retrataram o assunto. Foto: Marina Piedade Estudar Portinari e outros mestres A professora Vera Cristina Terrabuio Lucato, da EMEFEI Oscar Novakoski, em Dois Córregos, a 255 quilômetros de São Paulo, queria sensibilizar o olhar da turma para a linguagem fotográfica. Para isso, ela propôs que a turma estudasse pintores e fotógrafos consagrados. A moçada também visitou o laboratório de informática da escola para pesquisar mais sobre os artistas selecionados pela educadora e os trabalhos realizados por eles. Vera acompanhou a busca e conversou com a turma sobre as obras, ajudando a turma a apreciar as imagens. Foto: Marina Piedade De olho dos detalhes A moçada também visitou o laboratório de informática da escola para pesquisar mais sobre os artistas selecionados pela educadora e os trabalhos realizados por eles. Vera acompanhou a busca e conversou com a turma sobre as obras, ajudando a turma a apreciar as imagens. Reunidos em grupos, os alunos foram desafiados a preparar apresentações sobre um dos artistas que haviam estudado. Durante as análises das imagens, os grupos abriam espaço para a participação dos colegas. Todos tinham sua vez para comentar as obras, concordar ou discordar das opiniões. Foto: Marina Piedade Seminários para socializar o saber Reunidos em grupos, os alunos foram desafiados a preparar apresentações sobre um dos artistas que haviam estudado. Durante as análises das imagens, os grupos abriam espaço para a participação dos colegas. Todos tinham sua vez para comentar as obras, concordar ou discordar das opiniões. Já mais familiarizada com o modo que o trabalho no campo foi retratado em pinturas e fotografias, a moçada assistiu à uma aula expositiva organizada por Vera sobre a história da linguagem e seus elementos básicos, como foco, enquadramento e luz. Com isso, Vera tinha como meta preparar a turma para fotografar o trabalho realizado na zona rural de Dois Córregos. Foto: Marina Piedade Um pouco de teoria sobre a fotografia Já mais familiarizada com o modo que o trabalho no campo foi retratado em pinturas e fotografias, a moçada assistiu à uma aula expositiva organizada por Vera sobre a história da linguagem e seus elementos básicos, como foco, enquadramento e luz. Com isso, Vera tinha como meta preparar a turma para fotografar o trabalho realizado na zona rural de Dois Córregos. Antes de liberar a turma para clicar, Vera organizou uma saída fotográfica para os alunos colocarem em ação o que tinham aprendido e poderem tirar dúvidas. Todos foram à feirinha do agricultor, realizada no centro da cidade, e com a ajuda de Vera, tiraram algumas fotos. Na escola, as produções foram discutidas coletivamente e avaliadas por Vera. Foto: Marina Piedade Hora de experimentar a fotografia Antes de liberar a turma para clicar, Vera organizou uma saída fotográfica para os alunos colocarem em ação o que tinham aprendido e poderem tirar dúvidas. Todos foram à feirinha do agricultor, realizada no centro da cidade, e com a ajuda de Vera, tiraram algumas fotos. Na escola, as produções foram discutidas coletivamente e avaliadas por Vera. Em duplas, trios ou individualmente - e desta vez sem a companhia da professora - os jovens saíram em busca de imagens para a exposição. Alguns escolheram como cenário a propriedade em que viviam e fotografaram cenas do cotidiano familiar. Outros, buscaram plantações de cana e estufas. De volta à escola, a turma selecionou as melhores fotos para montar a exposição e escolheu título para cada uma delas. Foto: Marina Piedade No campo, em busca das melhores imagens Em duplas, trios ou individualmente, os jovens saíram em busca de imagens para a exposição. Alguns escolheram como cenário a propriedade em que viviam e fotografaram cenas do cotidiano familiar. Outros, buscaram plantações de cana e estufas. De volta à escola, a turma selecionou as melhores fotos para montar a exposição e escolheu título para cada uma delas. Para avaliar as aprendizagens, além da apresentação coletiva, da participação na aula expositiva e das fotos tiradas por cada aluno, Vera pediu que todos escrevessem um relato sobre o projeto, contando de que tinham gostado e o que tinham aprendido. Foto: Marina Piedade O que cada um aprendeu Para avaliar as aprendizagens, além da apresentação coletiva, da participação na aula expositiva e das fotos tiradas por cada aluno, Vera pediu que todos escrevessem um relato sobre o projeto, contando de que tinham gostado e o que tinham aprendido. Ampliadas as fotos, a exposição foi montada em um supermercado de Dois Córregos e foi aberta à população. Algumas produções você confere a seguir. Foto: Marina Piedade Exposição aberta ao público Ampliadas as fotos, a exposição foi montada em um supermercado de Dois Córregos e foi aberta à população. Algumas produções você confere a seguir. Fotos dos alunos 'A Lida', de Miguel Marcelino Fotos dos alunos 'Escolhas', de Marina Camargo Fotos dos alunos 'Terra gentil', de Beatriz Sterzk Fotos dos alunos 'Segredos da terra', de Marina Almeida Fotos dos alunos 'O tratar da vida', de Debora Depicoli Fotos dos alunos 'Semeando', de Laura Paiva Fotos dos alunos 'Início', de Leonardo Miguel

Certa vez, o fotógrafo francês Henri Cartier Bresson (1908-2004) disse: "Temos de ver, olhar. É tão difícil fazer isso. Estamos acostumados a pensar, todo o tempo. É um processo muito lento e demorado, aprender a olhar. Um olhar que tenha certo peso, um olhar que questione". A ideia expressa pelo artista está refletida no trabalho da professora Vera Cristina Terrabuio Lucato, da EMEFEI Oscar Novakoski, em Dois Córregos, a 255 quilômetros de São Paulo. Seu objetivo era levar os estudantes do 9º ano a fotografar o trabalhador rural de modo que, por meio da arte, eles fossem tocados pela realidade e refletissem sobre ela. "Os alunos, ainda que inconscientemente, tinham preconceito contra o homem que trabalha no campo."

O primeiro passo foi convidar a moçada para organizar uma exposição fotográfica sobre o assunto. Até então, fotografar era uma prática mecânica para os jovens. Eles clicavam freneticamente a si mesmos e aos colegas e as fotos eram publicadas nas redes sociais. "Ninguém pensava no motivo de fazer essa ou aquela foto", diz Vera. A turma adorou a ideia. A etapa seguinte foi de apreciação de imagens que tinham o trabalho camponês em foco. A seleção reuniu três pintores: o francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e os brasileiros José Ferraz de Almeida Júnior (1850-1899) e Candido Portinari (1903-1962) (leia o quadro na página seguinte), além do fotógrafo contemporâneo Sebastião Salgado. Eles retrataram o assunto em diferentes épocas. Wladimir Fontes, fotógrafo e professor de Fotografia do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), diz que a importância de apreciar pinturas para trabalhar com foto se dá pelo fato de as primeiras serem precursoras do registro fotográfico e de ambas se valerem da relação entre luz e sombra.

Em grupos, os estudantes foram orientados a pesquisar a vida e a obra de um dos artistas e preparar uma apresentação com destaque para uma pintura ou fotografia. Na biblioteca da escola, consultaram os livros da coleção Mestres do Brasil (Ed. Moderna, tel. 0800-7707-653) para conhecer mais sobre a bibliografia dos pintores, além de livros de Salgado. O laboratório de informática também foi visitado: Vera orientou os alunos a acessar sites para que conhecessem em detalhes as obras dos artistas. Questionadora, ela fez intervenções durante a pesquisa e as apresentações. "Ela instigou a turma sobre coisas que iam para além do que os olhos podem ver", fala Marisa Szpigel, coordenadora de Arte da Escola da Vila, em São Paulo. Assim, surgiram interpretações sofisticadas sobre o trabalho escravo, por exemplo.

Curti

Débora Depicoli, 14 anos. Foto: Marina Piedade

"Na escola, é raro fazer alguma coisa diferente, como fotografar. Também aprendi a ver beleza nas coisas simples do campo, que fazem parte do meu dia a dia."

Débora Depicoli, 14 anos

Na feirinha do agricultor, os estudantes testaram o que aprenderam em sala e tiraram dúvidas com a professora. Foto: Marina Piedade
Oficina para experimentar Na feirinha do agricultor, os estudantes testaram o que aprenderam em sala e tiraram dúvidas com a professora

Os pintores e o campo

Debret Retrata o trabalho escravo, incluindo o que é feito no campo e vendido na cidade. Sobre a mão de obra escrava, admite que é fundamental para a riqueza brasileira da época. Para apreciar: O Vendedor de Cestos e Pequena Moenda Portátil.

Almeida Júnior Apresenta os hábitos e o ambiente do caipira e o valoriza moralmente. Destaca seu corpo, no modo com que o enquadra na tela, ao mesmo tempo que o confunde com o chão de terra batida. Para apreciar: Caipira Picando Fumo, Cozinha Caipira e Derrubador Brasileiro.

Portinari Filho de camponeses, evidencia a força física do homem do campo e o retrata de modo agigantado. Com isso, também aproveita para reforçar sua força simbólica. Para apreciar: O Mestiço e O Lavrador de Café.

Consultoria Annateresa Fabris, professora aposentada da Universidade de São Paulo (USP), Daniela Perutti, antropóloga, e Valéria Lima, docente da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep).

Na sequência, a professora deu aulas expositivas sobre a história da fotografia e aspectos técnicos. Era preciso explorá-los para que os jovens alcançassem bons resultados na hora de fotografar. Fontes ressalta a importância de, nesse momento, destacar que a escolha do foco, do enquadramento e dos outros elementos deve ser feita de acordo com a intenção do fotógrafo. Ou seja, não existe certo ou errado - tudo depende da imagem que se quer obter.

Depois disso, a ideia era liberar os estudantes para clicar. Mas Vera notou que eles tinham dúvidas. Então, reorganizou o planejamento e propôs uma saída fotográfica. Todos foram até a feirinha do agricultor, um espaço onde os produtores locais vendem frutas, verduras e outros alimentos à população. O grupo fotografou à vontade, praticando o que foi visto em sala, e a professora ficou à disposição para orientações. Segundo Fontes, essa é uma chance para a turma perceber, por meio de discussões, que o mesmo assunto pode ser tratado de muitos jeitos. Na escola, as imagens foram analisadas coletivamente no que diz respeito à técnica e ao valor do trabalho camponês. Uma nova visão despontava! Na feira, os alunos conheceram e conversaram com quem cuidava dos legumes e queijos saboreados na casa deles. Falaram sobre a rotina e as dificuldades do campo.

Na hora de produzir as imagens que iriam compor a exposição, os alunos foram liberados para, em grupos ou individualmente, visitar hortas, cafezais, canaviais, galinheiros e outros ambientes. As imagens foram mostradas para Vera, que as expôs na lousa digital para uma segunda análise, dessa vez coletiva. A turma elegeu as que seriam expostas e deu um título a cada uma delas. Para a educadora, já estava claro que a consciência dos estudantes sobre as dificuldades, a pouca valorização e a importância do trabalho no campo tinha sido despertada. "Não só as fotos revelavam isso. Eles ficaram encantados com as conversas que tiveram com os trabalhadores durante as visitas e repensaram seus conceitos e suas atitudes."

Embora a fotografia seja um tema trabalhado todos os anos, Vera não é especialista e enfrentou um problema: as imagens não tinham resolução suficiente para impressão. A dificuldade se transformou numa oportunidade. Ela reorganizou o planejamento para explorar o conceito e aprendeu com a turma. Por fim, algumas fotos foram manipuladas e outras refeitas. Questão resolvida, os jovens montaram a exposição em um supermercado da cidade e as obras ficaram ao alcance dos olhos do público. Vera observou e avaliou tudo durante o processo. Com imagens delicadas e intensas, os alunos mostraram o que aprenderam com Debret, Almeida Júnior, Portinari e Salgado e também com quem, de sol a sol, faz da terra seu ganha-pão.

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