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01 de Março de 2013 Imprimir
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A moçada vai radicalizar com o skate na escola

O esporte é uma boa pedida para explorar questões como equilíbrio e a agilidade corporal

Por: Fernanda Salla
Mariana de Barros ensinou skate na EMEF Maria Aparecida Santos Ranconi. Patrícia Stavis Mariana de Barros ensinou skate na EMEF Maria Aparecida Santos Ranconi O aluno deve testar qual perna, na parte da frente do skate, dá mais equilíbrio ao corpo. Patrícia Stavis O aluno deve testar qual perna, na parte da frente do skate, dá mais equilíbrio ao corpo Na remada, a garota pisa na parte frontal e com o outro pé dá um impulso para trás. Patrícia Stavis Na remada, a garota pisa na parte frontal e com o outro pé dá um impulso para trás Para mudar a direção, ela pisa na parte traseira, elevando a da frente, e vira. Patrícia Stavis Para mudar a direção, ela pisa na parte traseira, elevando a da frente, e vira Com as rodas do skate para cima, ela pisa no shape e pula, virando-o para cair sobre ele. Patrícia Stavis Com as rodas do skate para cima, ela pisa no shape e pula, virando-o para cair sobre ele Para o <i>ollie</i>, o menino pisa no <i>tail</i>, salta com o skate e volta ao chão com as rodas para baixo. Patrícia Stavis Para o ollie, o menino pisa no tail, salta com o skate e volta ao chão com as rodas para baixo

Para ir à escola, a professora Mariana de Barros usa como meio de transporte o skate. "Ao me verem chegar, alguns alunos sempre pediam para andar", conta. João Ricardo de Souza Júnior, 13 anos, do 7º ano, era um deles. "Alguma coisa eu já sabia, mas queria aprender mais."

Notando o interesse da moçada, a educadora da EMEF Maria Aparecida Santos Ronconi, em São José dos Campos, a 94 quilômetros da capital paulista, inseriu o esporte no planejamento. "Eu já tinha pensando em usar o tema para explorar aspectos relacionados à motricidade e à consciência corporal", diz. A turma pegou carona no skate de Mariana. "É importante se valer dos interesses da sala, como fez a professora. Não se trata de ficar à mercê dos alunos, e de aproveitar um tema que atrai a atenção deles", diz Sheila dos Santos Silva, coordenadora do Espaço de Conhecimento do Lazer e do Esporte (Ecole), da Secretaria Municipal de Esportes de São Paulo.

O skate é um esporte radical (ou de aventura), como o surfe, o bungee jump e a patinação. Todos propiciam um vasto campo de conhecimento. É possível abordar, para além das questões físicas (como o equilíbrio), experiências que têm a ver com ousadia e limites. Talvez por considerar o esporte perigoso, muitos educadores ainda resistam a trabalhar com ele. Porém Sheila diz que riscos fazem parte de qualquer atividade física e que uma sequência didática organizada, que preveja o uso de mecanismos de proteção e atividades que envolvam o controle do corpo, prepara os alunos para a prática segura.

Para ensinar o esporte aos jovens, o professor não precisa ser skatista

Antes de liberar as manobras, Mariana exibiu fotos e vídeos de esportes radicais, como o surfe, o paraquedismo, o bungee jump e o hardcore sitting (praticado por pessoas com deficiência que usam a cadeira de rodas para realizar os movimentos do skate). É importante conversar sobre as particularidades de cada um e fazer perguntas para os alunos refletirem sobre os movimentos e o corpo: "São práticas individuais?", "Elas têm a ver com velocidade e força?", "Onde são praticadas?", "Quais os equipamentos necessários?", "Há risco de lesões?" e "Quais os itens de segurança?".

Depois, hora de focar o skate. "Preparei uma aula expositiva. Parte dos estudantes não tinha computador e o laboratório de informática da escola não estava pronto, o que impossibilitou a pesquisa individual", diz a professora. Ela contou um pouco da história do esporte e apresentou algumas modalidades: street (as manobras são realizadas em obstáculos de rua ou em pistas que imitam a via), down hill (praticada em ladeiras), freestyle (com movimentos complexos de equilíbrio em solo) e megarrampa (com manobras no ar após a descida de uma rampa alta). Vale lembrar que, se possível, é valioso envolver os alunos na investigação para que eles desenvolvam habilidades como selecionar, sintetizar, relacionar e socializar as descobertas.

Usar os saberes da turma, aliás, é um importante recurso, principalmente para os professores que não dominam o tema, como Jorge Luiz de Oliveira Júnior, que explorou o skate com o grupo do 6º ano da EMEF Raimundo Correia, na capital paulista. "Eu mal ficava em pé. Fiz pesquisas em casa e nos horários de atividades extraclasse e planejei momentos para que os estudantes dividissem comigo e com os colegas o que sabiam", conta. Em casa, eles buscavam informações que compartilhavam com a mediação do educador. Carlos da Cunha, 11 anos, por exemplo, apresentou as partes do skate: um shape (tábua de madeira sobre as rodas), dois trucks (eixos), quatro rodas e oito rolamentos (dois no interior de cada roda). A frente recebe o nome de nose, e a traseira, tail. Para ajudar os iniciantes, um aluno do 8º ano, Jean Rios, 13 anos, foi convidado a mostrar algumas manobras, como o ollie, a base de vários movimentos, e a dar uma entrevista. Dentre as perguntas respondidas, uma tinha a ver com preconceito. "O tênis às vezes rasga na lixa que é colocada na prancha para não escorregar. Muita gente acha que somos maloqueiros por isso", contou.

Alguns aprendem as primeiras manobras, outros encaram circuitos

Encerrado o trabalho em sala, Mariana foi para a quadra e dividiu a classe em cinco grupos, cada um com um skate - ela levou para a escola os que tinha em casa. Outra boa pedida é solicitar que os alunos façam o mesmo. Não se pode esquecer a importância dos equipamentos de segurança: capacete, cotoveleiras e joelheiras. Se não houver acessórios suficientes, organize um rodízio. Como a maioria não sabia andar, a professora priorizou os movimentos básicos. Inicialmente, pediu que os estudantes subissem no shape e se equilibrassem. Na ausência de equipamentos, é possível trabalhar o equilíbrio do corpo com materiais que criem uma base instável, por exemplo, uma tábua de madeira sobre objetos cilíndricos, como canos plásticos. Mariana deu uma dica: o melhor é posicionar os pés entre os parafusos do eixo. Outras atividades se seguiram: ir de uma extremidade à outra da quadra, controlar a velocidade do skate, fazer curvas etc.

A cada nova proposta, a educadora intervinha e a turma refletia sobre os movimentos (veja as fotos na galeria). Ela questionou a relação entre a força da remada (o impulso dado no chão com o pé) e a velocidade do deslizamento do skate. Os estudantes com mais experiência não ficaram sem desafios. Eles enfrentaram circuitos criados por Mariana. Note que o objetivo não era transformar os alunos em esportistas profissionais. As aulas focavam a experimentação de manobras, a troca de experiência e as observações sobre o corpo.

Depois de algumas aulas, a turma da EMEF Maria Aparecida Santos Ronconi já inventava manobras e brincadeiras. Uma delas é o o carrinho - um aluno senta na prancha e outro fica em pé atrás e empurra o skate com a remada. "Isso faz parte do aprendizado. É prova de que o grupo se apropriou do assunto", avalia.

1 O esporte na teoria Apresente para a turma, por meio de fotos e vídeos, vários esportes radicais, como o surfe e o bungee jump. Incentive o debate sobre o tema. Depois, trate especificamente do skate em uma aula expositiva ou peça uma pesquisa. Os temas podem ser a história do esporte, os movimentos ou o equipamento usado para sua prática.

2 Primeiras manobras Divida a garotada e distribua um skate para cada grupo ou dupla. Proponha, inicialmente, desafios simples, como se equilibrar e ir de uma ponta a outra da quadra. Durante todo o tempo, intervenha para que os jovens se aprimorem e reflitam sobre os movimentos realizados.

3 Desafios em circuitos Após algumas aulas, convide os alunos que já tiverem ganho habilidade a realizar movimentos planejados em série. Deixe todos livres para criar manobras.

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