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Investigações sobre a Lua na EJA

Sequência didática sobre a Lua aproveitou causos trazidos pela turma da EJA para a construção de um saber científico

POR:
Camila Camilo
Essa é a turma do segmento da EJA que corresponde ao 8º ano do Colégio Santa Cruz, na capital paulista. Com as aulas de Ciências do professor Felipe Bandoni de Oliveira eles ampliaram seus conhecimentos sobre a Lua. Professor e alunos Essa é a turma do segmento da EJA que corresponde ao 8º ano do Colégio Santa Cruz, na capital paulista. Com as aulas de Ciências do professor Felipe Bandoni de Oliveira eles ampliaram seus conhecimentos sobre a Lua. Após assistirem o vídeo de um contador de Histórias e lendas Após assistirem o vídeo de um contador de 'causos' sobre o lobisomem, os alunos contaram narrativas que conheciam desde a infância sobre a influência lunar nos seres humanos. Em seguida, os adultos redigiram as lendas que haviam contado para os colegas. Este foi o momento preparado por Felipe para, além de ensinar Ciências, estimular o comportamento escritor dos alunos da EJA. Escrita e reescrita de histórias Em seguida, os adultos redigiram as lendas que haviam contado para os colegas. Este foi o momento preparado por Felipe para, além de ensinar Ciências, estimular o comportamento escritor dos alunos da EJA. Muitos estudantes acreditavam que havia quatro luas diferentes e que o céu girava ao redor da Terra. Para explicar as fases do nosso satélite e a posição dos corpos celestes, o professor apresentou esquemas e fotos tiradas do espaço. Aula expositiva sobre a Lua Muitos estudantes acreditavam que havia quatro luas diferentes e que o céu girava ao redor da Terra. Para explicar as fases do nosso satélite e a posição dos corpos celestes, o professor apresentou esquemas e fotos tiradas do espaço. Para testar se a Lua influencia nos nascimentos, os alunos analisaram um estudo que cruzou 104.616 datas de nascimento e o calendário. Ao observar os dados, a turma concluiu que não há mais partos com a mudança de fase do satélite. Influência nos nascimentos Para testar se a Lua influencia nos nascimentos, os alunos analisaram um estudo que cruzou 104.616 datas de nascimento e o calendário. Ao observar os dados, a turma concluiu que não há mais partos com a mudança de fase do satélite. Para esclarecer que ver figuras na Lua (como São Jorge) é subjetivo, Felipe mostrou o impacto de sólidos e líquidos nas superfícies. Com isso, os estudantes concluíram que as manchas que vemos da Terra são, na verdade, variações no relevo lunar. Manchas na Lua: o que são elas? Para esclarecer que ver figuras na Lua (como São Jorge) é subjetivo, Felipe mostrou o impacto de sólidos e líquidos nas superfícies. Com isso, os estudantes concluíram que as manchas que vemos da Terra são, na verdade, variações no relevo lunar. Para ver as crateras mais de perto e também o deslocamento da Lua, o professor promoveu uma observação com o telescópio no campo de futebol da escola. Observação com o telescópio Para ver as crateras mais de perto e também o deslocamento da Lua, o professor promoveu uma observação com o telescópio no campo de futebol da escola.

"Lá na roça, falavam de um homem vestido de branco que aparecia no cemitério nas noites de Lua cheia e ninguém saía de casa com medo dele." Causos como esse foram narrados pelos alunos do 7º e do 8º ano da Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, e serviram de subsídio para que o professor de Ciências Felipe Bandoni de Oliveira realizasse um projeto de Astronomia com a turma.

Boa parte dos estudantes veio de áreas rurais e possui uma relação afetiva com contos e crenças sobre a natureza, transmitidos oralmente de pai para filho. O objetivo da sequência didática foi aproveitar esse patrimônio e o fascínio pelo tema para mostrar que a ciência é uma maneira de conhecer o mundo com métodos específicos, ligados ao questionamento, à pesquisa e à investigação.

Luciana Hubner, gerente de formação da Sangari Brasil, considera que o projeto aproximou a ciência escolar daquela do cotidiano. A última está presente em nossa rotina quando, por exemplo, cortamos cebola perto da água para evitar o choro. É algo que fazemos quase instintivamente, mais pela experiência do efeito do que por conhecimento da teoria que explica o fenômeno.

Com o objetivo de despertar as recordações dos estudantes a respeito da Lua, Oliveira exibiu um vídeo com causos sobre o lobisomem. Depois, pediu que os alunos descrevessem oralmente e por escrito as histórias que conheciam. O incentivo à prática de redigir em todas as disciplinas é importante na EJA e colabora para que os estudantes incluam a escrita em suas ações cotidianas e reflitam sobre a diferença entre a fala e o que está no papel. "Isso é bastante simbólico, pois o aluno passa a escrever sobre temas que já domina", explica Fernando Frochtengarten, autor de livros sobre a modalidade.

Ao relatar suas lembranças, a turma mostrou considerar que há mais partos nas mudanças de fase da Lua. O docente apresentou, então, um estudo do físico Fernando Lang da Silveira, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ao tabular 104.616 registros de nascimentos, ele provou que as quantidades se mantêm no mesmo nível com o passar dos dias. Conhecendo os dados científicos, o grupo concluiu que a relação não existe (leia sobre outros mitos na página seguinte).

Outra ideia presente na classe era a de que é possível ver são Jorge na Lua. Oliveira projetou a imagem do satélite na sala e pediu que cada um dissesse o que via. "Se o santo realmente está ali, por que cada um o vê de um jeito?", perguntou. Depois, explicou que um saber científico deve ser coletivo e não pode depender da subjetividade.

Para que a turma compreendesse o que via, numa aula expositiva, ele contou que meteoritos e estrelas caem no solo lunar e criam enormes buracos. Em seguida, descreveu aos estudantes a observação feita pelo italiano Galileu Galilei (1564- 1642). Ao olhar a Lua, ele notou que havia partes claras dentro da área de sombra e as interpretou como indicações de alteração no relevo. Os alunos ainda assistiram a vídeos que mostram marcas feitas por elementos sólidos e líquidos em algumas superfícies e observaram a semelhança com o que visualizavam no satélite.

Curti

José Adnílson Maciel. Foto: Marina Piedade

"Durante o dia, avisto só um pedaço da Lua. Hoje sei que isso acontece porque a gente só vê a parte iluminada pelo Sol."

José Adnílson Maciel, 36 anos

Olhar o céu de um jeito novo

Registro por escrito. Foto: Marina Piedade
Registro por escrito As crenças e os causos que os alunos conheciam sobre o satélite foram compartilhados oralmente e, depois, redigidos

O saber que vinha sendo construído com aulas expositivas e debates ganhou uma dose de encantamento quando a turma utilizou um telescópio. "Reservo esse momento para que o céu seja observado de um jeito novo. Todos ficam fascinados com a experiência de ver a Lua tão de perto", comenta o professor.

A atividade foi realizada no campo de futebol da escola, um local com pouca luz artificial, numa fase de Lua crescente. Oliveira deixou a classe livre para manusear o instrumento e checar as hipóteses que vinham sendo discutidas. Como poucas escolas possuem um telescópio, uma alternativa é usar um binóculo ou uma máquina fotográfica com a função de zoom. Outra possibilidade é emprestar equipamentos de clubes de astronomia ou ir a locais desse tipo.

Na aula seguinte, o docente utilizou o software livre Stellarium e fez a projeção de um planetário no auditório da escola. Os estudantes puderam comparar o céu de hoje com o de outras épocas e conferir o movimento dos planetas.

Na avaliação final, os alunos leram um conto em que uma avó dizia à neta que a Lua envia mensagens para quem está na Terra e um artigo científico sobre a formação das crateras lunares. O professor pediu, então, que eles descrevessem os aspectos que diferenciam os dois exemplos, como a força da opinião no primeiro e o uso da observação no segundo.

No fim da sequência, o educador comemorou o objetivo alcançado: a turma comprovou o saber científico sobre o tema estudado sem que as histórias em que acreditavam fossem desvalorizadas. Todos entenderam como se dá a investigação de hipóteses e agora sabem que a mente humana pode comportar diferentes saberes sobre um mesmo assunto. Assim, muitos vão continuar vendo são Jorge na Lua cheia.

Outros mitos e verdades
Como a ciência explica as crenças populares sobre os efeitos da Lua

Mito

A Lua interfere no temperamento. Os povos antigos achavam que o satélite era uma divindade e causava alterações psíquicas. Há também quem associe crises de epilepsia e possessão a certas fases lunares. Essas crenças influenciam concepções equivocadas ainda hoje e geram o uso de expressões como fulano é lunático, aluado ou de lua.

Verdade

As fases influenciam as marés. Embora seja pequena, a Lua está bem próxima da Terra e é, assim como outros astros, capaz de alterar os movimentos do oceano. Isso acontece pela ação do campo gravitacional do satélite em grandes porções de água no planeta. O desnível pode ser verificado entre a Lua cheia e a nova e varia conforme a latitude.

Mito

O cabelo cresce se cortado na fase cheia. Essa ideia tem origem na concepção difundida pela astrologia de que os corpos celestes alteram nossa vida e nas antigas práticas agrícolas organizadas pelo calendário lunar. As pessoas intuíram que isso também servia para os cabelos, mas nunca houve comprovação científica.

Consultoria Felipe Bandoni de Oliveira.

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