Investigações sobre a água

O caos gerado por enchentes, secas e outros fenômenos motiva uma pesquisa sobre esse líquido e reforça o valor de sua conservação

POR:
Anna Rachel Ferreira
Em Manaus, os alunos coletaram e analisaram água da região alagada pela cheia do Rio Negro. Arquivo pessoal/Eunice Carvalho Gomes Em Manaus, os alunos coletaram e analisaram água da região alagada pela cheia do Rio Negro Com máquinas e cadernos em mãos, a turma registrou suas descobertas. Arquivo pessoal/Andreia Soares Com máquinas e cadernos em mãos, a turma registrou suas descobertas

Todos os anos, muitas cidades sofrem com problemas relacionados à água. Em alguns lugares, enchentes assolam bairros inteiros. Em outros, a seca destrói as lavouras. Por isso, esse líquido essencial à vida está no centro do debate ambiental e as catástrofes ligadas a ele podem ser objeto de investigação nas aulas. Assim, todos se tornam conscientes do impacto de suas atitudes no local em que vivem e entendem os fenômenos naturais que interferem no cotidiano.

Para a professora Eunice Carvalho Gomes, do Instituto de Educação do Amazonas, em Manaus, o mote para aprofundar o estudo sobre a água foi a cheia do Rio Negro, que, em 2012, registrou o maior nível em mais de 100 anos. "A inundação atingiu vizinhos e parentes de meus alunos. Então, achei que era preciso analisar essa questão agregando o olhar científico", comenta. Para começar, a docente expôs o tema aos estudantes do 7º ano e perguntou o que sugeriam que fosse averiguado. Eles listaram quatro aspectos: causas e consequências, poluição e contaminação, transmissão de doenças e conservação e preservação do meio ambiente. A classe foi dividida em grupos, cada um responsável por pesquisar um tema. Nesse momento, é interessante levantar o que a turma já pensa sobre o assunto para que as hipóteses sejam averiguadas depois.

Múltiplas fontes para uma conclusão

As três aulas seguintes foram no laboratório de informática. Eunice indicou alguns sites confiáveis. A turma navegou por eles e anotou o que achava pertinente. A consulta incluiu textos jornalísticos, didáticos e científicos. Estes últimos foram encontrados na plataforma Scielo (scielo.org), que permite a busca por palavras em artigos e periódicos. "Diante da diversidade de fontes, os alunos desenvolvem a análise e a interpretação textual, mas com o foco no assunto estudado, o que colabora com a apropriação do conteúdo", comenta Mário Domingos, gerente de desenvolvimento de produtos da Abramundo.

Com a pesquisa, os estudantes começaram a entender por que estavam vivendo aquele alagamento. "Descobri que o fenômeno La Niña resfria as águas do Oceano Pacífico e que por causa disso chove mais aqui em Manaus", explica o aluno Felipe de Azevedo Tavares, 13 anos. Ele está certo. La Niña e El Niño modificam o índice de precipitação na Amazônia. Além disso, devido ao aumento da temperatura na Terra, o degelo nos Andes peruanos - onde nasce o Rio Amazonas - tem sido maior, o que influencia o nível do Rio Negro. Após a pesquisa, os grupos resumiram os aprendizados em um texto manuscrito de uma página e começaram a preparação para a etapa seguinte: o trabalho de campo.

Eunice contou às equipes que no fim elas deveriam produzir um relatório e explicou a estrutura do documento. O texto deveria ter cinco páginas e conter: uma introdução, incluindo o tema e a justificativa de sua importância; o desenvolvimento, com os processos que foram adotados, a descrição dos dados coletados em todas as frentes e a análise desses resultados em comparação com a pesquisa prévia; a conclusão do grupo; e as referências bibliográficas. "Conversamos em sala de aula sobre todos os detalhes, desde como se apresentar para as pessoas até as perguntas que seriam feitas para atingir nossos objetivos", lembra a professora. A turma também foi orientada sobre como coletar a água, utilizando material esterilizado e luvas.

Saída de campo e sistematização

Preparados para o que estava por vir, no dia da saída de campo, todos incorporaram a postura de pesquisador com o desejo de entender o que aconteceu na cidade. "A enchente prejudicou muito a moradia das pessoas", lembra a aluna Anna Luiza Coloia, 13 anos. Ela foi responsável por entrevistar Valderino Silva, técnico de monitoramento do Porto Hidroviário de Manaus, acompanhada de perto pelos colegas, que registraram o momento com suas câmeras fotográficas. "Ele mostrou a régua usada para medir o nível do Rio Negro e contou que tem muito lixo jogado pela população que foi para as ruas por causa da enchente", explica. A manhã foi tomada por conversas com moradores, comerciantes e trabalhadores que usam o rio para chegar à cidade. A eles, a turma perguntou, por exemplo, onde a família costuma jogar o lixo que produz e, assim, descobriu que muitos têm o hábito de se desfazer dos resíduos em qualquer lugar. No trajeto, a docente alertou para as interferências urbanas que agravaram a situação da cidade com a cheia. Bueiros transbordaram e o lixo acumulado ficou boiando nas ruas do centro. Além disso, algumas casas que ocupavam as margens do rio foram muito prejudicadas.

Os alunos também coletaram a água no rio e nas regiões centrais alagadas. De volta à escola, eles foram ao laboratório de Ciências para analisar o líquido. Utilizando o Manual de Procedimentos de Amostragem e Análise Físico-Química de Água, desenvolvido pela Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa), eles puderam notar a presença de coliformes fecais e verificar que o pH estava bem acima do nível aceito, entre outros aspectos. Felipe ficou encantado com as descobertas. "Vi que a água do rio é mais limpa do que a que a gente encontrou nas ruas", comenta.

Para fazer a análise da água, são necessários dois procedimentos: coletar material físico e levar em conta a situação do entorno, como a turma de Eunice fez. "O processo de o aluno ir até lá e ver com os próprios olhos que existe um problema é essencial para que se sensibilize e se torne um agente de mudança", afirma Glauco Kimura de Freitas, coordenador do programa Água para a Vida, da ONG WWF-Brasil.

Na aula que se seguiu à pesquisa de campo, os grupos compartilharam suas descobertas de maneira informal com o restante da sala. Depois disso, a professora retomou os principais aspectos levantados em aulas expositivas realizadas com o apoio de textos, como um documento sobre os efeitos do clima na saúde pública de Manaus e apresentações em PowerPoint.

Nesse momento, os grupos passaram a preparar o relatório final e uma exposição para toda a escola sobre o que aprenderam. Com a responsabilidade de transmitir uma informação tão relevante aos colegas, criaram maquetes, painéis e outros materiais para o grande dia.

O percurso feito por Eunice e sua turma pode ser aplicado em outras regiões, independentemente da enchente. A água é vital, ou seja, sempre é possível fazer um trabalho sobre ela relacionando a ciência com a realidade social. "Você pode analisar material do rio, da chuva e da torneira e ainda estudar por que a região tem pouca água", exemplifica Ana Rosa Abreu, diretora educacional do Instituto Vladimir Herzog. O importante é que a ciência vá além da sala de aula e seja usada para a compreensão dos fatos.

1 Demanda real e ambiental Apresente aos alunos um tema relacionado à água e à realidade da região em que a escola está inserida. Levante os possíveis desdobramentos desse assunto com a turma. Divida a sala em grupos e oriente uma pesquisa na internet.

2 Pesquisa in loco Instrua os estudantes e os leve para fazer uma investigação de campo. É importante que eles coletem material físico para análise, entrevistem pessoas afetadas pelo fenômeno e conversem com especialistas.

3 Sistematizar e compartilhar Formalize os conteúdos estudados e oriente os alunos a compilar as informações coletadas em um relatório escrito e a desenvolver uma apresentação para socializar as descobertas com os demais.

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