Investigação científica sobre um vizinho perigoso

Proliferação de escorpiões na cidade motivou estudo sobre animais peçonhentos

POR:
Paula Peres, NOVA ESCOLA, Ana Ligia Scachetti
Escorpiões coletados pelos alunos em casa e na rua foram analisados na classe. Marina Piedade Escorpiões coletados pelos alunos em casa e na rua foram analisados na classe Karina se valeu de um problema real para ensinar procedimentos científicos à turma. Marina Piedade Karina se valeu de um problema real para ensinar procedimentos científicos à turma Várias estratégias de pesquisa e estudo foram utilizadas para conhecer o animal. Marina Piedade Várias estratégias de pesquisa e estudo foram utilizadas para conhecer o animal Várias estratégias de pesquisa e estudo foram utilizadas para conhecer o animal. Marina Piedade Várias estratégias de pesquisa e estudo foram utilizadas para conhecer o animal Várias estratégias de pesquisa e estudo foram utilizadas para conhecer o animal. Marina Piedade Várias estratégias de pesquisa e estudo foram utilizadas para conhecer o animal Várias estratégias de pesquisa e estudo foram utilizadas para conhecer o animal. Marina Piedade Várias estratégias de pesquisa e estudo foram utilizadas para conhecer o animal Várias estratégias de pesquisa e estudo foram utilizadas para conhecer o animal. Marina Piedade Várias estratégias de pesquisa e estudo foram utilizadas para conhecer o animal Várias estratégias de pesquisa e estudo foram utilizadas para conhecer o animal. Marina Piedade Várias estratégias de pesquisa e estudo foram utilizadas para conhecer o animal
Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10

"Ontem mesmo, uma aluna veio para a escola com um escorpião na mochila. Foi picada e precisou ir para o hospital." O relato é da professora Karina Drude Puga Rui, da EE Maria Falconi de Felício, em Pitangueiras, a 369 quilômetros de São Paulo. Acidentes desse tipo são comuns na cidade. Apesar disso, o 7º ano conhecia pouco a respeito das medidas preventivas e dos cuidados com quem é picado. "Eu tinha medo e sabia que era perigoso, mais nada", diz Maria Fernanda da Silva, 12 anos.

Quando a docente explicou que esses animais seriam o foco de várias aulas, primeiro os adolescentes acharam chato estudar algo que temiam. Mas Karina aproveitou o tema em pauta para envolvê-los em um intenso esforço de pesquisa e mudar a percepção geral sobre o bicho. "Achei muito interessante o trabalho", admite o estudante Jeférsson Iago Souza de Menezes, 13 anos.

Álvaro Lorencini Júnior, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), destaca que a proximidade com a realidade local tornou o trabalho significativo. "Dessa maneira, os alunos ficam envolvidos cognitivamente e emocionalmente com o problema, e essa motivação gera a necessidade de conhecer aspectos como a anatomia e o comportamento dos animais", opina.

Mesmo sabendo que o tema era comum a todos, Karina pediu que a garotada entrevistasse os familiares, pesquisasse na internet e trouxesse histórias sobre acidentes para contar aos colegas. As famílias também falaram sobre lendas envolvendo cobras, e a docente aproveitou para diferenciá- las do conhecimento científico. Depois dessa introdução, muitos começaram a coletar escorpiões e levá-los para a sala.

Karina indagou, então, o que é um animal peçonhento. Alguns achavam que era um bicho sujo ou que dava medo. Ela fez no quadro uma lista com os nomes citados pela turma, incluindo muitos que não são peçonhentos, como leão e lagartixa. Depois, pediu que pesquisassem o significado no dicionário ou na internet e distribuiu um texto com a explicação de que animais peçonhentos são os que possuem uma glândula inoculadora que injeta o veneno na presa. Os alunos voltaram a olhar para a lista e descartaram os que não se encaixavam. Então, analisaram desenhos anatômicos de cobra, escorpião, aranha e abelha e localizaram o aparelho inoculador de peçonha em cada um.

Um equívoco comum desfeito pela professora foi o de que o escorpião é um inseto. Para isso, ela mostrou imagens do bicho e de gafanhoto, abelha, vespa, aranha, carrapato e barbeiro e pediu que buscassem diferenças e semelhanças entre eles. A turma notou as asas e ela chamou a atenção para a quantidade de pernas. As fotos foram divididas em dois grupos: as que mostravam bichos com quatro e com três pares de pernas. Os jovens leram um texto da revista Ciência Hoje das Crianças sobre a diferença entre insetos e aracnídeos. Aprenderam, assim, que o escorpião tem quatro pares de patas e cefalotórax (cabeça e tórax unidos); portanto, é um aracnídeo.

Na rua, em casa, na fazenda

Com os termos científicos apresentados, Karina enfocou os motivos de aquele animal estar tão presente em Pitangueiras. Ela exibiu imagens de terrenos com entulho, e alguns alunos disseram que conheciam lugares semelhantes. Então, a professora perguntou que bicho há nesses locais, e eles citaram rato e barata. A docente contou que esse inseto é o principal alimento dos escorpiões, e a garotada percebeu por que vê tantos deles. "O escorpião se alimenta da barata e ele é comido pelo rato, que traz a cobra", resumiu Jeférsson. Por essa relação, o estudo das cobras também permeou alguns momentos do projeto.

A investigação seguiu com informações sobre os acidentes com escorpiões. A turma assistiu a uma reportagem do Hoje em Dia, da TV Record, sobre a presença do aracnídeo em um condomínio paulistano, leu três reportagens e estudou dados sobre os acidentes no Brasil de 2000 a 2012. Comprovaram que o estado de São Paulo ficou em segundo lugar no último levantamento. Um grupo de alunos foi buscar informações sobre a situação da cidade na Secretaria de Saúde. O órgão não possuía números precisos, mas passou informações sobre como prevenir a proliferação de escorpiões e como capturá-los vivos (o Instituto Butantan também dá essa explicação). Autores do artigo Aracnídeos Peçonhentos: Análise das Informações nos Livros Didáticos de Ciências, os professores Adriano de Melo Ferreira e Cynthia Aparecida Arossa Alves Soares ressaltam que o estudo desse tema não deve ser antropocêntrico. "Quando se enxerga o animal pela ótica humana, se esquece da importância que ele tem no ecossistema", advertem. "O animal não é bom nem mau. É preciso desmistificar crendices que levam a maltratar o ambiente e os seres que nele vivem."

Há escorpiões e escorpiões

Na internet, os estudantes tinham lido que há cerca de 1,6 mil espécies de escorpião no mundo, e Karina abordou essa diversidade. Exibiu um vídeo sobre o acasalamento do Tityus bahiensis e analisou características dele e das outras três espécies mais vistas no Brasil: Tityus serrulatus (o amarelo, encontrado na cidade), Tityus stigmurus e Tityus cambridgei. Os alunos viram, também, os estados em que elas ocorrem e, num mapa do país, fizeram o registro disso usando uma cor para cada espécie. Tuyani Cristina Luz, 16 anos, com necessidades educacionais especiais (NEE), fez a atividade com duas colegas. Karina adapta as tarefas para que ela possa participar, realizando a avaliação oralmente, no mesmo dia. "Os colegas aprendem muito na socialização com ela, e ela aprende com eles", comenta a docente.

No encontro seguinte, a professora ainda voltou a mostrar imagens das espécies, e a turma conseguiu identificar cada uma usando os nomes científicos. Luciana Hubner, selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10 e consultora pedagógica da Abramundo, destaca que é importante utilizar os termos científicos. "Karina conseguiu fazer uma boa articulação entre leitura e observação, oferecendo espaço para os alunos perguntarem e procurarem explicações para o mundo em que vivem", diz.

Os escorpiões coletados desde o início foram levados para a sala e todos puderam observá- -los usando pinças. A professora construiu com a classe uma lista com os principais sintomas da picada (divididos em leves, moderados e graves) e reforçou que se deve sempre procurar o médico. "Com a pesquisa, eles aprenderam que a picada do escorpião amarelo pode ser fatal ou nem exigir a aplicação de soro, e que o acidente costuma ser mais grave em crianças com menos de 12 anos e idosos", lembra a docente.

Para explicar como o soro antiescorpiônico é produzido, ela desenhou um cavalo no quadro e foi acrescentando cada passo do processo. Tudo era anotado pelos alunos. Karina pediu, também, que pesquisassem sobre Vital Brazil (1865-1950) e o Instituto Butantan. Na aula seguinte, todos compartilharam as informações, e a professora complementou com um texto sobre o cientista e um vídeo (os primeiros cinco minutos). "Esse pluralismo metodológico colabora com o aprendizado", comenta Lorencini.

Inspirados por toda a pesquisa, os alunos fizeram cartazes para a comunidade sintetizando o que aprenderam e as medidas preventivas. Alguns meses depois, apresentaram na feira de projetos da escola. "Hoje, falo para as pessoas que têm terreno baldio não deixar telhas e tijolos espalhados. A gente ficou mais experiente, tudo mudou", diz Lucas Gabriel Ribeiro, 12 anos.

1 A peçonha do peçonhento Apresente imagens de animais peçonhentos e não peçonhentos e peça que a turma os separe. Distribua textos que expliquem o conceito de peçonha e solicite que os alunos identifiquem a glândula do veneno em desenhos dos bichos, revendo a classificação anterior.

2 Os escorpiões brasileiros Descreva as quatro espécies do animal que mais ocorrem no Brasil. Distribua um mapa do país e peça que a classe marque as ocorrências usando uma legenda com cores. Compartilhe informações sobre os sintomas da picada.

3 O tamanho do problema Leia com a classe reportagens e dados sobre os acidentes causados por escorpiões no Brasil e no estado em que fica sua escola.

4 As medidas preventivas Organize uma visita à Secretaria de Saúde para buscar informações sobre como prevenir a proliferação de escorpiões. Oriente a confecção de cartazes para compartilhar as orientações obtidas com a comunidade.

Características dos escorpiões mais comuns no Brasil:

É a espécie que mais causa acidentes graves no país. Com até 7 centímetros de comprimento, possui o tronco escuro e as pernas e a cauda amarelo-claras. Por isso é conhecido como escorpião amarelo. As fêmeas se reproduzem por partenogênese, o que facilita bastante a dispersão da espécie. Tityus serrulatus É a espécie que mais causa acidentes graves no país. Com até 7 centímetros de comprimento, possui o tronco escuro e as pernas e a cauda amarelo-claras. Por isso é conhecido como escorpião amarelo. As fêmeas se reproduzem por partenogênese, o que facilita bastante a dispersão da espécie. Chamado de escorpião amarelo do Nordeste, tem uma faixa escura longitudinal no dorso e uma mancha triangular perto da cabeça. É a espécie mais comum na região que lhe dá o nome e também se reproduz por partenogênese. Tityus stigmurus Chamado de escorpião amarelo do Nordeste, tem uma faixa escura longitudinal no dorso e uma mancha triangular perto da cabeça. É a espécie mais comum na região que lhe dá o nome e também se reproduz por partenogênese. Conhecido como escorpião marrom ou preto, tem o tronco escuro, as pernas com manchas escuras e a cauda marrom-avermelhada. O adulto mede cerca de 7 centímetros. É a espécie que causa mais acidentes no estado de São Paulo. Tityus bahiensis Conhecido como escorpião marrom ou preto, tem o tronco escuro, as pernas com manchas escuras e a cauda marrom-avermelhada. O adulto mede cerca de 7 centímetros. É a espécie que causa mais acidentes no estado de São Paulo. Quando adulto, possui uma coloração negra e pode chegar a 9 centímetros de comprimento, mas quando jovem tem o corpo castanho, com manchas escuras. Embora possa ser encontrado no Mato Grosso, é mais comum na região Norte. Por isso recebe o nome de escorpião preto da Amazônia. Tityus paraensis ou Tityus obscurus Quando adulto, possui uma coloração negra e pode chegar a 9 centímetros de comprimento, mas quando jovem tem o corpo castanho, com manchas escuras. Embora possa ser encontrado no Mato Grosso, é mais comum na região Norte. Por isso recebe o nome de escorpião preto da Amazônia.

Fontes: 
Manual de Controle de Escorpiões, Ministério da Saúde. 
Livro Os Escorpiões, de Tania Kobler Brazil e Tiago Jordão Porto, Edufba, 84 págs.

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