Homens e tintas de Giotto e Michelangelo

Mestres da pintura inspiram a preparar a paleta de cores com elementos da natureza

POR:
André Bernardo
As figuras com semblantes parecidos foram observadas na obra de Giotto... Superstock As figuras com semblantes parecidos foram observadas na obra de Giotto... ...e os nus com músculos fortes chamaram a atenção na de Michelangelo. Michele Falzone ...e os nus com músculos fortes chamaram a atenção na de Michelangelo Café, curry, colorau e carvão geram tons de marrom, amarelo, vermelho e preto. Ricardo Toscani Misturas feitas com vários pós Café, curry, colorau e carvão geram tons de marrom, amarelo, vermelho e preto Para obter rosa, amarelo e creme, use beterraba, urucum e cebola. Ricardo Toscani Cores à base de água Para obter rosa, amarelo e creme, use beterraba, urucum e cebola

A estudante Graziela Zárate, 14 anos, já tinha ouvido falar de Michelangelo Buonarroti (1475-1564), mas não imaginava que o artista italiano produzia as tintas que usava. Isso ela só descobriu na aula da professora Andréa Sulzer Rossi, da Escola Verde Que Te Quero Verde, em São Vicente, a 72 quilômetros de São Paulo. Para mostrar à turma do 8º ano por que e como a arte se transforma, a docente recorreu a Giotto di Bondone (1267-1337) e Michelangelo. O primeiro produziu no final da Idade Média e é considerado um dos precursores do Renascimento (período em que o segundo brilhou). Além das obras, a garotada analisou a produção artística e descobriu como fazer tintas como as que você vê nos quadros à direita e na página seguinte.

A viagem no tempo começou com uma apreciação de Joaquim Expulso do Templo e Procissão de Casamento, de Giotto, e A Criação do Homem e Cristo Juiz, de Michelangelo. Divididos em grupos, os alunos viram reproduções dos quadros e anotaram tudo o que puderam observar, comparando as características das pinturas. Alguns notaram que Michelangelo exagerava na representação dos músculos. "De tão fortes, até parece que as mulheres tomavam anabolizantes", disseram. "Os temas eram religiosos, mas eles pintavam nu artístico até nos tetos das igrejas", comentaram outros. Bárbara Dias, 13 anos, ficou impressionada com o grau de realismo das obras. "A reprodução do corpo humano era tão perfeita que algumas imagens mais pareciam fotografias."

Para transformar as impressões pessoais em aprendizado, Andréa apresentou novamente os quadros, agora com o uso do datashow, e mostrou como os artistas representavam a figura humana. Em Joaquim Expulso do Templo, chamou a atenção para os rostos, que parecem iguais, e para as auréolas, que representam o divino. Já em Procissão de Casamento, a turma pôde notar uma iniciativa de representar o homem terreno e não mais só os ligados a Deus e à Igreja. "Nas pinturas de Michelangelo, destaco como o estudo da anatomia contribuiu para a representação do corpo humano", diz a docente.

O teto da Capela Sistina, obra-prima de Michelangelo, recebeu bastante atenção no início deste ano durante a eleição do papa Francisco e isso reforçou o recorte feito por Andréa. Os alunos viram imagens do afresco na TV e comentaram na aula. Ainda sobre a importância e o contexto de criação dessa obra, a arte-educadora Jurema Sampaio, mestre em Artes Visuais pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp), sugere a exibição de Agonia e Êxtase (Carol Reed, 138 min, Fox). A produção narra a encomenda que o artista recebeu do papa Júlio II (1443-1513) para pintar o teto da capela no Vaticano e revela que ela tem esse nome em homenagem a outro pontífice, Sisto IV (1414- 1484). Mas como o filme foi produzido nos anos 1960, é importante contextualizar as características dessa época para que os alunos não confundam com algo típico do Renascimento.

Depois de analisar como cada pintor retratava a figura humana, a turma refletiu sobre de que forma a profundidade era representada. Para isso, todos apreciaram Exorcismo de Demônios em Arezzo, de Giotto, e Projeto da Praça do Capitólio, de Michelangelo. "Alguns alunos observaram que a obra de Giotto é uma sobreposição de planos e outros notaram que Michelangelo trabalhou melhor a noção de profundidade", relata.

A ciência encontra a arte

Como ocorreu no Renascimento, a arte e a ciência se aproximaram nas aulas de Andréa. A docente apresentou um roteiro com temas ligados à produção artística da época, que foram pesquisados pela classe em grupos. Entre as perguntas, estava "Que tinta os pintores usavam?", o assunto que mais despertou a curiosidade da turma. Poucos sabiam que, naquela época, os pigmentos eram extraídos de plantas, minerais e até de insetos. E mais: que algumas cores eram tão difíceis de ser obtidas que encareciam a obra. Para complementar esse tema, ela traduziu um texto do livro Aprendiendo a Mirar un Cuadro - Una Introduccion a La Pintura, de Joy Richardson (80 págs., Celeste Ediciones, sem tradução para o português) e promoveu uma leitura compartilhada.

Na aula seguinte, em parceria com a professora de Ciências, Andréa propôs que todos experimentassem a realidade vivida pelos artistas estudados, produzindo uma paleta de cores com pigmentos naturais. Para isso, pediu que trouxessem matérias-primas, como cenoura, cebola, beterraba, café, colorau e carvão. Michelangelo usava outros materiais, como argila, pedras e insetos, mas as técnicas empregadas pela turma são semelhantes às dele. Quando começou a desenvolver o projeto, Andréa colocou gema de ovo para aglutinar os pigmentos e alho para não deixá-los criar fungo. Mas sem geladeira o cheiro ficava insuportável. Por isso, passou a usar cola.

O trabalho foi feito no laboratório da escola, mas pode ser realizado em outro espaço, desde que as mesas sejam protegidas para não ficarem manchadas. A paleta de cores completa foi conseguida por meio de diversos procedimentos, como a maceração e a extração por solvente. A aluna Bárbara lembra que às vezes a cor ficava muito fraca, às vezes forte demais. Além disso, demorava até chegar à tonalidade desejada. Graziela também recorda que o processo é demorado. "Muitas vezes você tem de ralar, moer, assar e esperar secar para fazer a pigmentação. Mesmo assim, o resultado compensa. É legal ver a tinta que você produziu dar vida a um desenho", diz.

Denise Grinspum, assessora técnica dos Museus Castro Maya, elogia a abordagem da docente. "Uma coisa é você comprar o material pronto na papelaria da esquina. Outra completamente diferente é você mostrar como as pessoas daquela época faziam para produzir suas próprias tintas, que dificuldades elas encontravam para conseguir as cores. É uma maneira muito interessante de ensinar Arte", comenta.

Depois da produção, chegou a hora de criar. O suporte usado foi o tecido de algodão cru, numa alusão à tela utilizada pelos pintores do Renascimento. E o foco foi a natureza. Cada um escolheu três folhas e as usou de modelo para elaborar uma pintura. Os desenhos das folhas podiam ser ampliados ou reduzidos na busca por uma composição harmoniosa. Com a paleta em mãos e a tela em frente, todos puderam se sentir como Michelangelo por alguns instantes.

1 Apreciação comparativa Apresente obras de Giotto e Michelangelo e peça que a classe aponte as diferenças. Problematize e complemente os achados. 

2 Um olhar profundo Proponha questões sobre a arte no Renascimento para que os alunos pesquisem. Inclua a comparação com outras épocas e os materiais usados. 

3 Produção cadeira Providencie os ingredientes necessários para preparar tintas suficientes para uma boa diversidade de cores. Prepare os materiais em conjunto com a turma. Quando estiverem prontos, proponha a criação de uma pintura em tecido.

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