Estudantes contadores e escritores de causos

Com a tradição oral, eles souberam diferenças entre fala e escrita e produziram textos

POR:
Karina Padial

Consciente de que os contos populares faziam parte do universo dos seus alunos, Ana Cláudia Santos planejou trabalhar uma sequência sobre esse gênero com a garotada do 6º ano na EE Padre Paulo, em Santo Antônio do Monte, a 185 quilômetros de Belo Horizonte. "Assim, ela criou uma conexão entre o repertório dos estudantes e o conteúdo discutido em sala de aula, validando os saberes que eles trazem de casa e aprofundando esse conhecimento com novos modelos", afirma Manuela Prado, professora do Colégio Santa Cruz, em São Paulo.

A leitura do cordel Vaca Estrela e Boi Fubá, de Patativa do Assaré (1909-2002), foi o ponto de partida para uma conversa sobre a maneira como falamos e como registramos a palavra. Os estudantes, então, receberam uma tarefa. Teriam de pedir que algum familiar contasse um causo e anotá-lo para depois recontar aos colegas.

Na etapa seguinte, a classe ouviu outras obras de Assaré e de Luiz Gonzaga (1912-1989) e, depois, discutiu as diferenças entre a fala e a escrita. Houve a leitura de uma entrevista cujo original estava gravado em fita. Depois disso, a professora propôs que os alunos buscassem novas produções dos autores apresentados e sinalizassem as marcas de oralidade. Muitos levaram a letra de Asa Branca, uma canção já conhecida por eles. A classe observou a falta de concordância e o emprego de expressões coloquiais, entre outros pontos. A professora aproveitou esse momento para sistematizar o uso das variações da língua falada e escrita de acordo com a situação comunicativa.

As leituras seguintes foram do livro Malasaventuras - Safadezas do Malasartes (Pedro Bandeira, 48 págs., Ed. Moderna, tel. 11/2790-1300, 37 reais): A Panela do Diabo e Pedro Malasartes e o Pássaro Lapão. Com base nelas, a garotada estudou o caráter narrativo dos textos em verso. Todos identificaram, entre outros, as etapas de organização do enredo e a distinção entre o enunciado (história) e a enunciação (narrador).

Utilizando um tablet e o DataShow, Ana Cláudia realizou a leitura compartilhada de O Olho Torto de Alexandre, do e-book Alexandre e Outros Heróis (Graciliano Ramos, 206 págs., Ed. Record, tel. 11/3286-0802, 35 reais). Também trabalhou com um texto do livro didático: O Bisavô e a Dentadura, de Sylvia Orthof (1932-1997). Os estudantes foram estimulados a levantar hipóteses sobre as características deles. Em seguida, eles tiveram de reconhecer os recursos usados para manter a curiosidade do leitor, como o fato de o narrador afirmar e reafirmar que a história é verdadeira, chamar a atenção do leitor e prepará-lo para um desfecho inusitado.


  • Vídeo de causo contado pelo avô de um aluno:

A tradição oral se transforma em texto

A meninada já estava pronta para o próximo desafio: a retextualização. A etapa previa a passagem da língua falada para a escrita, mas não é uma revisão ou uma correção, apenas uma mudança de ordem, já que o oral e o escrito têm condições de produção diferentes. "Essa atividade é complexa porque corre-se o risco de haver a perda de sentido do texto. Também evidencia que não são todas as características de um registro que podem estar presentes no outro", afirma Elvira Lopes Nascimento, professora do Programa de Estudos de Linguagem, da Universidade Estadual de Londrina (UEL). É importante destacar, como a professora fez e Luiz Antônio Marcuschi defende no livro Da Fala para a Escrita - Processos de Retextualização (136 págs., Ed. Cortez, tel. 11/3611-6916, 28 reais), que a fala não é o lugar do erro. "Trata-se de não confundir seus papéis e seus contextos de uso, e de não discriminar seus usuários", defende o autor.

A professora distribuiu a transcrição do conto popular oral A Língua do Povo. Cada estudante deveria fazer uma retextualização. Isso possibilitou que eles refletissem individualmente sobre como realizar essa transformação mantendo as características do gênero. Em seguida, ela propôs uma reescrita coletiva com o DataShow. A turma comparou o resultado com suas produções e identificou aspectos que poderiam ser melhorados (leia na próxima página as três etapas do processo).

Ana Cláudia Santos. Manuela Novais
  • Ana Cláudia ofereceu bons modelos que inspiraram os textos dos alunos-escritores

Na sequência, cada aluno teve de elaborar um novo fim para a obra O Caboclo, o Padre e o Estudante, do livro Facécias - Contos Populares Divertidos (Luis da Câmara Cascudo, 24 págs., Ed. Global, tel. 11/3277-7999, 35 reais). Como lição de casa, todos deveriam redigir um conto de autoria, seguindo as características trabalhadas durante a leitura das obras. "Eles tiveram autonomia para preservar a ideia original do causo ouvido na primeira etapa ou para modificá-lo", explica Ana Cláudia, que preparou uma devolutiva individual para cada um. Com base nas observações, foram produzidas mais duas versões dos contos - a segunda reescrita ocorreu em dupla. "É possível notar que foram eliminadas repetições típicas da fala, mas mantidas expressões da oralidade que marcam os contos e ganham expressividade no texto escrito", diz Manuela.

A garotada ficou tão animada com o resultado que surgiu a ideia de publicar as produções em e-book. Para isso, Ana Cláudia apresentou à turma a tecnologia flippage, que transforma arquivos PDF em publicações digitais. Como não havia computadores para todos, foram formados grupos e cada um deles escolheu apenas uma história. Com tudo pronto, faltava fazer o lançamento da obra. Os alunos, então, tiveram a oportunidade de ler algumas de suas próprias histórias às famílias.

Ao fim do trabalho, os estudantes aprenderam a valorizar o processo de produção textual, não apenas o resultado, e se sentiram, de fato, parte de uma comunidade de leitores e escritores.

Entrevista

Heloisa Prieto. divulgação

Heloisa Prieto, escritora de diversos livros infantojuvenis e autora de um trabalho de doutorado sobre cultura oral

Qual é o valor literário da tradição oral? A primeira forma de transmissão de conhecimento e experiência do mundo foi a fala. Narrar é uma forma de pensar o mundo. Ouvir histórias e transmiti-las, seja qual for o suporte, é alimentar a inteligência poética e nossa capacidade inata de fruição da vida em suas expressões mais fortes e primordiais. A voz modula a narrativa, liberta-a para várias versões diferentes. Já a letra a canoniza.

Por que ouvir e recolher causos é importante? A escuta, nesse caso, precisa ser participativa. Ela exige um esforço para entender uma fala com expressões e referências datadas. Diferentemente do que ocorre na contação de histórias realizada por profissionais, quando a criança escuta pessoas mais velhas de uma comunidade, ela sai de um lugar passivo e é inserida na coautoria.

Processo de retextualização desenvolvido pelos alunos

1ª etapa - Transcrição do conto popular oral
A Língua do Povo

"- Eu vim dá u’a parte aqui pó sinhô, aqui, que eu passei ali numa região, então, eu encontrei uma cabeça que cupim tinha ruído. Eu bati o pé nela treis veiz perguntano quem tinha matado ela, ela num falô e eu segui. Quando segui assim uns dez metro, ela deu um pulo pa riba e deu u’a risada e explicô pa mim quem tinha matado ela foi a língua do povo e ia me matá também. Aí, o delegado falô: - Ocê tá intimado. Num pode saí. Chamô treis praça e soltô com ês: Ocês vai lá cum ele. Se a cabeça consegui conversá, ele tá liberado, tá solto. Agora se a cabeça num conversá, cês tão pudeno fazê fogo nele."

2ª etapa - Retextualização individual

"- Eu vim fazer uma queixa, passei numa região e encontrei uma cabeça que os cupins tinham ruído tudo. Bati o pé nela e ela não respondeu, então segui em frente. Quando segui uns dez metros, ela pulou bem alto e me disse que quem tinha lhe matado foi a língua do povo e ia me matar também.
O guarda disse:
- Você está intimado! Não pode sair!
Chamou três guardas e disse para eles:
- Vocês vão lá com ele, se a cabeça falar ele está liberado se não, bota fogo nele."

3ª etapa - Reescrita coletiva

"- Eu vim fazer um boletim de ocorrência. Passei por uma região e encontrei uma cabeça que cupim já tinha ruído. Eu bati o pé nela três vezes, perguntei quem a tinha matado, mas ela não falou nada. Quando eu segui uns dez metros, ela saltou por cima de mim e deu uma risada e explicou que quem a matou foi a língua do povo e iria me matar também.
O delegado falou:
- Você está intimado, não pode sair.
Chamou três guardas e falou com eles:
- Vocês vão lá com ele. Se a cabeça conseguir conversar, ele está liberado. Se a cabeça não conversar, vocês podem matá-lo."

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