Diferentes visões sobre a ditadura

O contato com várias versões permite que os jovens tirem suas próprias conclusões

POR:
Wellington Soares
A canção caiu nas graças dos estudantes de classe média com grande engajamento ideológico ao se afinar com seus princípios. A esquerda da época, do PC do B aos movimentos radicais, considerava inadiável partir para uma ação revolucionária. Alice Vasconcellos Pra Não Dizer que Não Falei Das Flores (1968) A canção caiu nas graças dos estudantes de classe média com grande engajamento ideológico ao se afinar com seus princípios. A esquerda da época, do PC do B aos movimentos radicais, considerava inadiável partir para uma ação revolucionária. Esta estrofe permite uma crítica aos militares que estavam no poder. Os próprios comandantes responderam a ela com textos na imprensa, defendendo sua ideologia. Alice Vasconcellos Pra Não Dizer que Não Falei Das Flores (1968) Esta estrofe permite uma crítica aos militares que estavam no poder. Os próprios comandantes responderam a ela com textos na imprensa, defendendo sua ideologia. A canção ultrapassa a crítica política ao assumir um caráter de combate às convenções. Na época, havia não apenas um conflito político mas também um embate de gerações. Alice Vasconcellos É Proibido Proibir (1968) A canção ultrapassa a crítica política ao assumir um caráter de combate às convenções. Na época, havia não apenas um conflito político mas também um embate de gerações. A canção testemunha uma revolução comportamental do período: o uso da pílula anticoncepcional, que levou à maior liberdade sexual. O trecho mostra que a época foi rica em transformações na esfera individual, sem se restringir aos embates políticos. Alice Vasconcellos Uma Vida Só (1973) A canção testemunha uma revolução comportamental do período: o uso da pílula anticoncepcional, que levou à maior liberdade sexual. O trecho mostra que a época foi rica em transformações na esfera individual, sem se restringir aos embates políticos.

Os acontecimentos históricos afetam de maneira variada cada um dos setores da sociedade. Dar à turma a chance de observar a maior quantidade possível de posicionamentos é um dos objetivos do ensino de História. "Os alunos devem ter contato com diversas interpretações e fontes históricas e confrontar suas diferenças e semelhanças. Assim, são incentivados a tomar uma posição", afirma Aléxia de Pádua Franco, docente da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Dois professores da cidade, a 549 quilômetros de Belo Horizonte, usaram esse viés para estudar a ditadura militar (1964-1985) com suas classes de 9º ano.

Renato Jales, da EM Professora Estela Saraiva Peano, começou o trabalho apresentando à turma o contexto histórico que debateria. "Relembrei os conceitos de democracia e ditadura. Perguntei do que eles se lembravam e reforcei que ditadura é uma forma de governo em que os canais de participação popular são interrompidos, em oposição à democracia", explica Jales. 

Em seguida, ele apresentou à classe três canções da época (saiba mais sobre cada uma na galeria acima). Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré, foi a primeira. Antes de tocá-la, o professor distribuiu cópias da letra e pediu que todos prestassem atenção ao título, ao nome do artista e à data de lançamento. "Por esses elementos, é possível extrair alguns dados preliminares, como o posicionamento social e político que ela expressa", diz o docente.

Depois da audição, a turma discutiu os sentidos encontrados no texto. "Nesse momento, é importante destacar, por exemplo, que as músicas de protesto foram, de maneira geral, compostas por membros da classe média, que estavam acostumados a ter meios de participação política e que, com a ditadura, deixaram de tê-los", ressalta Luis Fernando Cerri, docente da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).

Em seguida, novas músicas foram analisadas. Outra canção de protesto, É Proibido Proibir, de Caetano Veloso, serviu como mote para discutir as revoluções de costumes que ganharam espaço na época. "Nela, a preocupação está mais relacionada à liberdade sexual", comenta Jales. Para ele, a letra chama a atenção dos jovens, que buscam a liberdade de agir e fazer o que querem. "Digo que ela mostra a proposta do movimento tropicalista, que busca a liberdade de expressão."

A última música foi o clássico brega Uma Vida Só, conhecida pelo refrão "Pare de tomar a pílula". Nenhum dos versos cita o regime em vigência. Diferentemente das duas primeiras, que fizeram sucesso entre a classe média, ela caiu nas graças das camadas populares. "Após eu contar que ela foi censurada, a turma ficou intrigada. Explico que os militares eram contra o controle da natalidade." Assim, o professor mostra que a repressão perseguiu ideias que pudessem ser interpretadas como contrárias ao governo, mesmo sem um conteúdo diretamente político. Ao comparar as três canções e o posicionamento expresso por cada uma delas é possível observar como as classes média e baixa se colocaram frente ao regime. "A oposição foi muito mais intensa na primeira", diz Cerri.

A exibição do filme O Que É Isso, Companheiro? (Bruno Barreto, 110 min, Columbia, 11/5504- 7000) encerrou o trabalho. O docente ressaltou as escolhas feitas pelo diretor, como o fato de a película ser pró-Estados Unidos. O longa levantou algumas dúvidas da turma, discutidas posteriormente em classe. Ao fim do trabalho, a garotada tinha entendido o posicionamento de diferentes classes sociais durante o período.

Confira no vídeo abaixo a visita ao Memorial da Resistência, em São Paulo:

Da memória ao saber histórico

A visão que os setores mais populares tiveram da ditadura também foi debatida no trabalho desenvolvido pela docente Leila Floresta com suas classes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) na Escola de Educação Básica da UFU. Ela iniciou pedindo que a turma trouxesse para a sala um relato sobre o período. Os mais velhos, que o vivenciaram, escreveram sobre a própria experiência. Os mais novos conversaram com pais ou avós. "O resultado foi muito curioso porque a impressão que eles tinham, em geral, era desconectada do clima político tenso. Muitos até escreveram que o tempo da ditadura era bom", conta a professora.

O desafio foi desconstruir a visão dos estudantes, diferenciando relatos de memória e conhecimento histórico. Para isso, Leila planejou uma série de entrevistas da turma com professores da própria universidade. "Ao conversar com um especialista em rádio, por exemplo, pudemos entender tanto os mecanismos de censura da época quanto a repressão política, já que ele foi perseguido", conta. Os materiais do projeto Resistir é Preciso, do Instituto Vladimir Herzog, dão subsídios para quem não conta com uma estrutura semelhante. No site, há vídeos, depoimentos de perseguidos políticos, materiais gráficos, um formulário para quem quer contar sua história e uma sequência didática com base na análise de cartazes da época.

À medida que avançavam, os alunos passaram a rever até mesmo as suas memórias. "Eles podem contribuir como fonte viva do estudo, não só por meio de suas lembranças mas também pelos episódios de esquecimento", diz Leila. Para exemplificar isso, ela cita o comentário de um dos estudantes. "Ah, agora eu me lembro que a fazenda onde trabalhava na época serviu de esconderijo para algumas pessoas. Talvez eles fossem perseguidos", concluiu ele.

1 Estudo de canções Peça que os alunos compartilhem sua visão sobre a ditadura. Proponha a análise de canções, explorando dados como o autor e o título. Depois debata os sentidos de cada texto.

2 Memória viva e discussão Sugira a realização de entrevistas com pessoas que viveram a ditadura ou peça que a turma escreva sobre sua própria experiência no período. Se não for possível, exiba vídeos. Numa discussão, leve a turma a rever as memórias coletadas, diferenciando os relatos do saber histórico sobre a ditadura.

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