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01 de Junho de 2013 Imprimir
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Entre na roda para aprender capoeira

Ao som do berimbau, as crianças conheceram os movimentos dessa luta típica brasileira

Por: Wellington Soares, NOVA ESCOLA, Beatriz Vichessi
Lindinalvo Natividade <i>(no centro)</i> realizou rodas de capoeira na EM Aureliano Portugal. Fernando Frazão Lindinalvo Natividade (no centro) realizou rodas de capoeira na EM Aureliano Portugal Com um jogo no estilo pega-pega, a turma se divertiu e conheceu o contexto da capoeira. Fernando Frazão Com um jogo no estilo pega-pega, a turma se divertiu e conheceu o contexto da capoeira

Os alunos do 3º ano da EM Aureliano Portugal, em Rio Claro, a 128 quilômetros do Rio de Janeiro, têm ginga e fazem bonito nas rodas de capoeira. Eles aprenderam bastante sobre essa manifestação cultural com a sequência de trabalho organizada por Lindinalvo Natividade. Ele não só ensinou a turma a jogar mas também tratou do contexto que envolve a prática e desmistificou conceitos equivocados e preconceitos que habitam o imaginário popular.

No início do trabalho, o professor organizou uma conversa para que as crianças contassem o que sabiam sobre a prática e tirassem dúvidas. Um estudante quis saber se os capoeiristas se machucam quando jogam. Natividade contou que os golpes não são dados de verdade. As pessoas só simulam o combate. Outro perguntou: "Capoeira é macumba?". O professor explicou que macumba é o nome de um instrumento musical tocado durante a luta.

No diálogo com os alunos, Natividade também identificou os que já sabiam jogar: no contraturno, alguns deles participavam de aulas do programa Mais Educação, do Ministério da Educação (MEC). "Eles me ajudaram a demonstrar os golpes", conta o professor.

As aulas seguintes começaram com jogos que têm a ver com o histórico da capoeira. Em um deles, um aluno representa o capitão do mato e tem de perseguir o colega que representa o escravo fugido. Distribuído pela quadra, o restante da turma se divide em trios: frente a frente, duas crianças dão as mãos e erguem os braços (formando uma casa) e a terceira permanece entre elas (dentro da casa). Ao correr para fugir do capitão, o escravo tem de buscar uma casa para se proteger. Ao entrar, ele expulsa quem está nela. Esse estudante, então, passa a ser o fugitivo. Se o capitão consegue pegá-lo, eles trocam de papel. "O objetivo é brincar e fazer o aquecimento para as etapas seguintes, considerando o contexto histórico: os escravos em fuga, o capitão do mato, que sempre tentava levá-los de volta à senzala, os quilombos...", explica Natividade.

De acordo com José Francisco Chicon, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), destacar a prática do ponto de vista histórico e social é uma função importante do professor. No livro Capoeira: Do Engenho à Universidade (Gladson de Oliveira Silva, 263 págs., Ed. Cepeusp, tel. 11/3091-3554, edição esgotada), há outros jogos que têm a capoeira como pano de fundo.

Ginga e golpes de ataque e de defesa

Para aprender a atacar e se defender, os alunos experimentaram os golpes em duplas. Fotos: Fernando Frazão
Para aprender a atacar e se defender, os alunos experimentaram os golpes em duplas

Natividade trabalhou alguns movimentos básicos da capoeira, como a ginga. Para executá-la, o capoeirista deve se movimentar de um lado para o outro, colocando para trás, na diagonal, ora a perna esquerda, ora a direita, com os joelhos flexionados. O professor desenhou triângulos com giz, no chão da quadra, e deu as instruções para a garotada: "Cada pé deve ficar em cima de uma das pontas da figura e, alternadamente, pisar na terceira. Assim, as pernas jamais se cruzam, o que tiraria o equilíbrio do corpo e tornaria a pessoa um alvo fácil para o adversário".



De acordo com Thiago de Souza, professor da Universidade Gama Filho (UGF), da Escola da Vila, do Colégio Santa Cruz e da Escola Internacional Saint Francis, todos em São Paulo, vale fazer um trabalho cuidadoso com a ginga. "Ela é a assinatura do capoeirista. Segundo a tradição, ao observar o gingado é possível analisar o temperamento do oponente, seu estilo de jogar", conta Souza. A inclinação do corpo e a velocidade do movimento são pontos que podem variar.

Durante a vivência, Natividade tocou pandeiro no ritmo da capoeira. As rodas sempre são acompanhadas de música e é importante que a prática escolar também tenha esse elemento. Se não for possível recorrer a instrumentos musicais e tocá- los ao vivo, nada de deixar as aulas em silêncio. Recorra a CDs e gravações no YouTube. Duas sugestões: O Menino É Bom, do Mestre Toni Vargas, e Mata Fechada, do Mestre Boa Voz.

Na etapa seguinte, o professor reuniu a meninada para assistir ao filme Besouro - Nasce um Herói (João Daniel Tikhomiroff, 120 min, Buena Vista International), que conta a história de um dos mais célebres capoeiristas brasileiros. Natividade propôs um debate sobre alguns aspectos sociais da capoeira. É interessante também recomendar que as crianças observem com atenção as cenas de luta e o jeito de gingar dos personagens.

Em seguida, a garotada voltou a se mexer. O educador trabalhou movimentos de defesa e de ataque com o grupo. Ele apresentou os golpes e depois pediu que os estudantes tentassem reproduzi-los. Enquanto isso, circulou entre eles tocando pandeiro, observando a execução dos movimentos, sugerindo ajustes para aperfeiçoá-los e dando suporte para quem ainda não se sentia seguro a fazer os golpes sozinho.

Quando a turma já estava mais familiarizada com a ginga e com os golpes, Natividade organizou duplas para que os alunos vivenciassem a luta, atacando e defendendo. Antes de a criançada iniciar o combate, o educador e um estudante que já praticava a atividade no contraturno serviram de modelo para os colegas.

Para finalizar, capoeiristas do Centro Esportivo de Capoeira Quarto Crescente, do qual Natividade participa, foram até a escola. Eles levaram instrumentos musicais típicos e os alunos puderam vê-los de perto, ouvir o som que produziam e, é claro, tocá-los. Três rodas foram organizadas: uma só para as crianças, outra só para os convidados e, por fim, mais uma para todos jogarem juntos. Foi uma oportunidade valiosa para o grupo da Aureliano Portugal: além de assistir ao vivo a performance de pessoas que já dominam a técnica, a turma teve a chance de interagir com elas. A capoeira, tal como outras lutas - o judô, por exemplo -, tem regras. Uma delas é sempre cumprimentar o oponente com um aperto de mão antes e depois de lutar. Outras são nunca dar as costas ao adversário, em sinal de respeito a ele, e bater palmas para marcar o ritmo.

"A criançada teve a oportunidade de colocar em cena o que sabia, aprendeu coisas novas e se divertiu ao som do berimbau e do atabaque", conta Natividade.

1 Apresentando a capoeira Pergunte aos alunos o que eles conhecem sobre a prática. Quem já sabe jogar? Apresente o histórico relacionado aos negros escravizados e responda às dúvidas que surgirem.

2 Hora de gingar Apresente os principais movimentos, como a ginga e golpes de ataque e defesa. Peça que os alunos experimentem fazê-los individualmente e em duplas. Garanta que a vivência tenha música. Se necessário, recorra a gravações em áudio.

3 Todos de olho na tela Apresente o filme Besouro - Nasce um Herói e converse com as crianças sobre o surgimento da prática, o preconceito contra os negros e as tradições africanas.

4 O momento final, a roda Organize uma roda para a criançada jogar. Se possível, convide capoeiristas para visitar a escola e peça que eles levem os instrumentos musicais típicos e joguem com os alunos.