Paixão nacional, o futebol precisa ter espaço na escola

A garotada sempre joga bola no recreio? Isso não é pretexto para deixar o esporte fora das aulas. Na EE Alcides da Costa Vidigal, os alunos aprenderam diversos fundamentos e estratégias de jogo

POR:
Anna Rachel Ferreira
Na EE Alcides da Costa Vidigal, a turma bate muita bola, mas também aprende os fundamentos do futebol e reflete sobre o jogo. Marcos Rosa Na EE Alcides da Costa Vidigal, a turma bate muita bola, mas também aprende os fundamentos do futebol e reflete sobre o jogo A pedalada é quando o atacante passa os pés sobre a bola repetidas vezes a fim de distrair o adversário e conseguir driblar a marcação Pedalada A pedalada é quando o atacante passa os pés sobre a bola repetidas vezes, a fim de distrair o adversário e conseguir driblar a marcação Para dar um corte, o jogador chuta a bola com o pé esquerdo para direita e segue correndo com ela Corte Para dar um corte, o jogador chuta a bola com o pé esquerdo para direita e segue correndo com ela No drible da vaca, o jogador engana o adversário dando um toque leve na bola pela direita e depois corre pela esquerda Drible da Vaca ou Meia Lua No drible da vaca o jogador engana o adversário dando um toque leve na bola pela direita e, depois, ele corre pela esquerda É quando o goleiro salta para um dos ângulos superiores da trave e bate na bola com as mãos abertas, defendendo o gol Ponte Espalmada É quando o goleiro salta para um dos ângulos superiores da trave e bate na bola com as mãos abertas, defendendo o gol Com as mãos fechadas e unidas, o goleiro dá um soco na bola que vem do ataque Soco Com as mãos fechadas e unidas, o goleiro dá um soco na bola que vem do ataque O goleiro se prepara para defender a cobrança da penalidade máxima se posicionando no meio do gol, com os joelhos semiflexionados e os braços abertos Posição de pênalti O goleiro se prepara para defender a cobrança da penalidade máxima se posicionando no meio do gol, com os joelhos semiflexionados e os braços abertos Defesa em que a bola se encaixa nas mãos do goleiro que a recolhe junto a seu corpo Encaixada Defesa em que a bola se encaixa nas mãos do goleiro que a recolhe junto a seu corpo Quando um jogador chuta a bola para outro atleta do mesmo time Passe Quando um jogador chuta a bola para outro atleta do mesmo time No chapéu, o jogador levanta bola com o dorso do pé e corre para recuperá-la enquanto ela passa por cima do adversário Chapéu ou lençol No chapéu, o jogador levanta bola com o dorso do pé e corre para recuperá-la enquanto ela passa por cima do adversário Caneta é o nome do drible em que o jogador passa a bola entre as pernas do adversário e corre para buscá-la novamente Caneta ou Rolinho Caneta é o nome do drible em que o jogador passa a bola entre as pernas do adversário e corre para buscá-la novamente

"Em campo, as equipes estão prontas. A juíza apita. Bola correndo. Movimenta Júlio, passa para Giulia. Giulia recebe, Edson vai pra cima. Giulia recua, passa para Beatriz, que domina e entrega para Ricardo no ataque. Ele corre, dribla Pietra, dá uma caneta em Edson, ajeita a bola. Chuta. A goleira Luana defeeeeende, espalmando a bola que sai à esquerda do gol."

Essa poderia ter sido a narração de um dos jogos que aconteceram nas aulas de Educação Física do 5º ano na EE Alcides da Costa Vidigal, em São Paulo. A proposta de trabalhar com o esporte, tão praticado durante o recreio, foi organizada pela professora Jacqueline Martins. Além de observar que boa parte dos estudantes frequentava escolinhas de treinamento e ia às aulas vestindo camisas de time, ela fez uma enquete para saber qual esporte o grupo queria estudar.

Estava decidido: o futebol entrou no planejamento. Como meta, a professora queria ir além do bate-bola. Para isso, orientou diversas atividades. Dentre elas, discussões e vivências sobre os fundamentos, as regras e as estratégias, além de momentos em que meninos e meninas jogavam juntos. Jacqueline também propôs que eles apitassem as partidas e conhecessem mais sobre as gírias e os termos usuais do esporte.

Mário Luiz Ferrari Nunes, líder do Grupo de Pesquisa em Educação Física Escolar da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), endossa a decisão da educadora. "É importante que a escola aborde as práticas corporais presentes no universo dos estudantes, ampliando os saberes deles."

No gol, na linha ou como árbitro: os alunos devem experimentar

Antes de propor qualquer bate-bola, Jacqueline identificou o que as crianças conheciam sobre o esporte. Primeiro, pediu que elas listassem os momentos em que entravam em contato com a modalidade. As respostas surpreenderam. "Elas citaram muitos programas de TV que eu não conhecia. Resolvi assisti-los para saber a que material a turma tinha acesso. Assim, poderia enriquecer as minhas ideias", conta.

Depois, ela orientou a classe a montar dois times mistos com 11 integrantes e jogar. Foi uma confusão só: todo mundo corria ao mesmo tempo para onde a gorduchinha ia. "É o futebol abelha", disse João Vitor Andrade Bezerra, 10 anos, utilizando uma das expressões típicas dos gramados. Encerrada a atividade, as crianças reclamaram da bagunça e de outras coisas que atrapalharam o jogo. As meninas, por exemplo, reivindicavam que os garotos passassem a bola a elas mais vezes. Alguns deles diziam que tinha gente demais no jogo. Jacqueline pediu sugestões para resolver os problemas. "Eles propuseram, por exemplo, times com menos atletas. Fechei em sete", ela diz. Evidentemente, isso não resolveu todas as questões, mas o cenário ficou organizado para as próximas etapas.

Como já haviam experimentado atuar em times mistos, os alunos puderam testar outras possibilidades: meninos contra meninas, meninos contra meninos e meninas contra meninas. Durante esse tempo, muitas questões foram levantadas pelos estudantes - e não só relacionadas à questão de gênero. "Tem gente que não sabe jogar", reclamavam. Como educadora, ela sabia que nem todos os integrantes de um grupo têm os mesmos conhecimentos e habilidades e que isso nem de longe deve ser encarado como um mal. Em vez de incorrer em um erro comum, separar a classe em melhores e piores ou em meninas e meninos, Jacqueline decidiu se valer da experiência daqueles que frequentavam escolinhas de futebol. Com isso, ela não solucionaria sozinha os problemas. Assim, desafiou os mais experientes a enfrentá-los junto com ela, trocando ideias com os colegas.

Nas aulas seguintes, Jacqueline organizou as crianças em um semicírculo. Acompanhada por vários dos meninos a quem pediu ajuda, a educadora demonstrou alguns lances. Foi um show de bola! Além de passes tradicionais, a turma conheceu muitos outros, como o estratégico drible da vaca, também chamado meia-lua. A observação, as perguntas e os comentários foram aliados à prática. Em cada um dos quatro cantos da quadra, todos tiveram a chance de jogar em grupos que contavam com a presença de um colega mais experiente. Foi a oportunidade de vivenciar o que já tinham visto (veja galeria).

Nessa etapa, Jacqueline não só observou a garotada em ação: percorreu os grupos, questionando as dificuldades de cada um, falando sobre o nome dos movimentos, incluindo aí os realizados pelo goleiro. E aproveitou o momento para trabalhar com os movimentos feitos pelo árbitro. "Nas partidas oficiais, ele não fala: demonstra com gestos o que ocorreu. Era importante que os estudantes aprendessem a fazer o mesmo durante as partidas", ela explica.

Fábio D'Angelo, coordenador pedagógico do Instituto Esporte e Educação, destaca a validade de trabalhar com todos de forma abrangente, em vez de determinar funções para cada um. "Na escola, não faz sentido ficar treinando um estudante para atuar só como goleiro, por exemplo. A criançada deve ser educada de modo diversificado, experimentando jogar em todas as posições."

Fora da escola, se conhece o esporte tal qual ele acontece

É óbvio que a prática corporal é um dos centros da disciplina, mas a turma precisa pensar a respeito dos movimentos, inclusive para jogar melhor. Jacqueline apresentou trechos de um jogo profissional para que todos identificassem na tela o que haviam feito em quadra e comentassem os lances. O momento também foi dedicado à discussão da postura das torcidas. Para isso, a educadora exibiu trechos de Pelé Eterno (Anaibal Massaini Neto, 121 min, Europa Filmes, tel. 11/2165-9000) e Fifa Fever (Oralando Duarte, 194 min, Focus Filmes).

Os vídeos antecederam uma visita ao Museu do Futebol, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo. As crianças puderam entrar em campo e pisar em um gramado de verdade! Além disso, conheceram o lugar ocupado pelas torcidas e pela imprensa - sempre com explicações de Jacqueline - e observaram placas que apresentavam gírias e outros verbetes comuns no futebol. "Quando voltamos à escola, orientei a realização de uma pesquisa para levantar mais expressões e termos técnicos a fim de orgarnizar um glossário", explica.

A experiência fora dos muros da escola leva os alunos a entrar em contato com o objeto de estudo como ele é de verdade. Se na região não existe um museu, por exemplo, há alternativas. "É possível agendar uma visita ao centro de treinamento do time do município ou ao estádio da cidade para que as crianças possam conhecer o ambiente. Também vale entrar em contato com um árbitro ou com os jogadores e o técnico do time do bairro", sugere Nunes. Ao programar esses encontros, é interessante preparar os alunos para interagir. "É um momento de aprendizagem, ainda que seja somente um bate-bola", explica Nunes.

Antes do campeonato, a garotada precisa montar a tabela de jogos

O trabalho realizado por Jacqueline durou quase um semestre e o encerramento foi marcado por um campeonato entre times do 5º ano.

Pouco antes de os alunos começarem a trabalhar na organização, ela explicou os diversos tipos de regra possíveis. "Alguns dominavam os esquemas de funcionamento. Um deles até brincou comigo, dizendo que meu time seria rebaixado no campeonato brasileiro. No entanto, outros não faziam ideia da estrutura, do que um time dependia para ser vencedor." Questão discutida, as crianças decidiram adotar o modelo de pontos corridos, para que pudessem jogar diversas vezes, e optaram por dividir os times em masculinos e femininos.

"Uma atividade interessante é propor que os estudantes elaborem a tabela dos jogos. Consultando modelos e tendo que tomar decisões, eles compreendem o funcionamento de um campeonato com mais clareza", sugere Nunes.

Tabela montada, Ninjas do Terror, Anjos do Futebol e outros times ocuparam a quadra e balançaram a rede da EE Alcides da Costa Vidigal diversas vezes. Lances, passes e dribles à parte, depois de encerrar o trabalho, Jacqueline refletiu sobre o processo. "Faltou trabalhar mais as noções de ataque, defesa e meio de campo. Vou atentar a isso quando ensinar outras classes."

Dentre os saberes adquiridos, não só a professora atesta que as crianças aprenderam muito. Quem passa pelo pátio da escola também pode conferir. É só dar uma espiada nos grupos jogando com mais habilidade, espírito de equipe e domínio de bola. Jacqueline marcou um verdeiro gol de placa.

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