Olhar crítico sobre os impactos da Copa

O campeonato é uma boa oportunidade para refletir sobre as transformações da paisagem

POR:
Fernanda Salla
O campeonato é uma boa oportunidade para refletir sobre as transformações da paisagem. Bruno Algarve

A Copa do Mundo vai mudar a cara das cidades brasileiras. Por isso, o tema é um valioso campo de estudo. Ao analisá-lo, a garotada passa a enxergar criticamente o lugar em que vive e percebe que a organização espacial não é fruto do acaso, mas está atrelada a agentes e interesses diversos, segundo Adriana Queiroz do Nascimento, professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Para tanto, o primeiro passo da sequência sugerida por ela é apresentar o tema e levantar o que os estudantes já sabem sobre ele. Pergunte se o país tem feito obras de infraestrutura para a ocasião. Caso esteja em uma das cidades-sede, questione se eles costumam passar por construções no trajeto que fazem normalmente, se sabem para que elas servirão e se alguma está relacionada à competição. Anote todas as colocações em um cartaz. Cláudia Dantas, psicopedagoga clínica e escolar, sugere fazer essa sistematização como forma de ajudar as crianças com deficiência auditiva, – caso não seja possível contar com um intérprete de libras ao longo da sequência didática.

A próxima etapa é explorar o site da Fifa e indicar os municípios que sediarão os jogos. Mostre as fotos dos estádios disponíveis na página e leia a descrição sobre o órgão à classe. "É importante que as crianças percebam se tratar de uma organização internacional. Assim, começam a compreender o poder de ação de uma entidade global na paisagem local", afirma Adriana. Peça que os estudantes anotem os dados que considerem mais relevantes. Caso julgue necessário, é possível ler coletivamente uma reportagem sobre a escolha dos destinos do torneio.

Em seguida, exiba fotos da construção dos estádios e outras obras que demonstrem a transformação na paisagem. É possível encontrá-las no Observatório das Metrópoles e nos sites das Secretarias da Copa (Secopa) dos estados que receberão as partidas. "Deve-se fazer uma seleção criteriosa dos materiais, buscando fontes confiáveis e adequadas à faixa etária com que se está trabalhando", explica Jorge Luiz Barcellos da Silva, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Diga que o torneio traz mudanças que podem ser boas para a população, mas também pode acarretar problemas. Explique que vocês vão refletir sobre ele. Organize a sala em grupos de quatro alunos e distribua reportagens sobre os impactos das obras. Cada agrupamento deve receber as matérias relacionadas a um tema, como moradia (desapropriação de áreas e remoção de pessoas), empregos e transporte. O ideal é escolher artigos com tom positivo e negativo. Também vale eleger um dos temas para discutir a cada aula e selecionar uma ou duas reportagens sobre ele. É possível, ainda, escolher uma das cidades-sede para trabalhar. Os estudantes com deficiência auditiva devem ter contato com os textos antecipadamente no Atendimento Educacional Especializado (AEE). "Para a meninada se familiarizar com o procedimento, é preciso fazer uma leitura coletiva de uma das reportagens. Todos devem ter uma cópia e marcar as palavras que não conhecem. Depois, é recomendado fazer uma discussão para sanar as dúvidas e trocar impressões", ressalta Francisca Janice Silva, pedagoga da Secretaria Municipal de Educação de Paragominas, a 300 quilômetros de Belém.

Peça que os alunos vejam qual é o tema central, se a transformação realizada atende a toda a população ou só parte dela, se o texto trata de aspectos positivos ou negativos, qual é a conclusão e se há uma visão unilateral do tema. "O professor precisa passar pelos grupos e intervir para ajudar a fazer essas inferências, ampliando a visão da garotada para detalhes que talvez passassem despercebidos", completa Francisca. Proponha que elenquem os prós e contras da alteração sobre a qual leram. Na sequência, sugira que todos compartilhem suas colocações.

As obras da Copa 2014

Confira imagens dos estádios e das construções de infraestrutura urbana que estão sendo implementadas nas cidades-sede do torneio:

Belo Horizonte. O Bus Rapid Transit (BRT), modelo de transporte com faixas de circulação exclusiva, estações e ônibus, é uma das sete obras de mobilidade urbana em andamento na cidade. O projeto ainda inclui duas novas avenidas e uma central de monitoramento de trânsito. Transporte rápido Belo Horizonte. O Bus Rapid Transit (BRT), modelo de transporte com faixas de circulação exclusiva, estações e ônibus, é uma das sete obras de mobilidade urbana em andamento na cidade. O projeto ainda inclui duas novas avenidas e uma central de monitoramento de trânsito. Na área interna, o estádio é outro: ganhou 62.160 assentos e uma ampla praça de alimentação. O gramado foi rebaixado. A nova construção conta também com uma esplanada com capacidade para 65 mil pessoas, planejada para ser um espaço de convívio e abrigar atividades de lazer. Mineirão renovado Na área interna, o estádio é outro: ganhou 62.160 assentos e uma ampla praça de alimentação. O gramado foi rebaixado. A nova construção conta também com uma esplanada com capacidade para 65 mil pessoas, planejada para ser um espaço de convívio e abrigar atividades de lazer. Fortaleza. O projeto previu o aumento da capacidade do estádio, a retirada do alambrado, a criação de restaurantes e de um estacionamento subterrâneo, entre outras melhorias. Foi o primeiro dos 12 em obras no Brasil a ser entregue. Ele receberá shows e eventos de grande porte. Um outro Castelão Fortaleza. O projeto previu o aumento da capacidade do estádio, a retirada do alambrado, a criação de restaurantes e de um estacionamento subterrâneo, entre outras melhorias. Foi o primeiro dos 12 em obras no Brasil a ser entregue. Ele receberá shows e eventos de grande porte. Fortaleza planejou seis obras de mobilidade urbana, entre elas duas estações de metrô e vias expressas. Nas redondezas do Castelão, foram construídos estacionamentos para ônibus, novas avenidas e rotatórias para desobstruir o trânsito do local durante as partidas da Copa. Obras no entorno Fortaleza planejou seis obras de mobilidade urbana, entre elas duas estações de metrô e vias expressas. Nas redondezas do Castelão, foram construídos estacionamentos para ônibus, novas avenidas e rotatórias para desobstruir o trânsito do local durante as partidas da Copa. Cuiabá. As obras da Arena Pantanal estão sendo finalizadas. O investimento previsto é de 570 milhões de reais. Com capacidade para 44,3 mil espectadores, o projeto prevê a construção de um complexo que contará com restaurantes, hotéis, estacionamentos, lagos, bosque e pista para caminhada. Espaço multiúso Cuiabá. As obras da Arena Pantanal estão sendo finalizadas. O investimento previsto é de 570 milhões de reais. Com capacidade para 44,3 mil espectadores, o projeto prevê a construção de um complexo que contará com restaurantes, hotéis, estacionamentos, lagos, bosque e pista para caminhada. Três obras de mobilidade urbana estão previstas em Cuiabá. As intervenções incluem a edificação da Ponte Eucaliptos e de viadutos. Também está programada a construção de vias de acesso à Arena Pantanal e do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). Pontes, viadutos e VLT Três obras de mobilidade urbana estão previstas em Cuiabá. As intervenções incluem a edificação da Ponte Eucaliptos e de viadutos. Também está programada a construção de vias de acesso à Arena Pantanal e do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). Manaus. Além da construção do estádio, o pacote de obras da Copa em Manaus prevê a reforma e a modernização do Aeroporto Internacional de Manaus/Eduardo Gomes. O projeto, orçado em 444,46 milhões de reais, vai ampliar a área atual e o número de passageiros, entre outras melhorias. Reforma no aeroporto Manaus. Além da construção do estádio, o pacote de obras da Copa em Manaus prevê a reforma e a modernização do Aeroporto Internacional de Manaus/Eduardo Gomes. O projeto, orçado em 444,46 milhões de reais, vai ampliar a área atual e o número de passageiros, entre outras melhorias. Porto Alegre. As intervenções urbanas em Porto Alegre incluem, ainda, a construção de pontes e viadutos e o alargamento de vias próximas ao estádio, como a Avenida Edvaldo Pereira Paiva, a Beira-Rio, que vai ser duplicada. O objetivo é aliviar o fluxo intenso de automóveis durante os jogos. Foto: Anselmo Cunha. Ampliação de ruas Porto Alegre. As intervenções urbanas em Porto Alegre incluem, ainda, a construção de pontes e viadutos e o alargamento de vias próximas ao estádio, como a Avenida Edvaldo Pereira Paiva, a Beira-Rio, que vai ser duplicada. O objetivo é aliviar o fluxo intenso de automóveis durante os jogos. (Foto: Anselmo Cunha) Recife. Um terreno em São Lourenço da Mata, na região metropolitana da cidade, foi escolhido para abrigar a Arena Pernambuco. Trata-se de um novo núcleo urbano que reunirá áreas residenciais e comerciais, criando uma alternativa para a expansão urbana da capital e arredores. Foto: Rafael Bandeira Bairro recém-criado Recife. Um terreno em São Lourenço da Mata, na região metropolitana da cidade, foi escolhido para abrigar a Arena Pernambuco. Trata-se de um novo núcleo urbano que reunirá áreas residenciais e comerciais, criando uma alternativa para a expansão urbana da capital e arredores. (Foto: Rafael Bandeira) Localizado no centro da capital pernambucana, o novo Terminal Marítimo de Passageiros do porto de Recife vai revitalizar a região portuária e receber navios de turistas. Tem lojas, balcões de check in, esteiras para retirada de bagagem, salas de embarque e desembarque. Foto: Rafael Bandeira Investimento no turismo Localizado no centro da capital pernambucana, o novo Terminal Marítimo de Passageiros do porto de Recife vai revitalizar a região portuária e receber navios de turistas. Tem lojas, balcões de check in, esteiras para retirada de bagagem, salas de embarque e desembarque. (Foto: Rafael Bandeira) A Via Mangue é um dos projetos de mobilidade da capital pernambucana. Será a primeira avenida expressa da cidade e terá faixas para veículos, calçadas para pedestres e ciclovia. A obra engloba a construção de elevados, pontes e o alargamento de ruas. Foto: Rafael Bandeira Mais pontes e avenidas A Via Mangue é um dos projetos de mobilidade da capital pernambucana. Será a primeira avenida expressa da cidade e terá faixas para veículos, calçadas para pedestres e ciclovia. A obra engloba a construção de elevados, pontes e o alargamento de ruas. (Foto: Rafael Bandeira) Rio de Janeiro. O palco da final da Copa de 2014 ficou mais tecnológico: ganhou escadas rolantes, elevadores panorâmicos e camarotes climatizados. Também está prevista a colocação de telões e de uma câmera, operada por controle remoto, para captar imagens de qualquer parte do campo. Estádio hightech Rio de Janeiro. O palco da final da Copa de 2014 ficou mais tecnológico: ganhou escadas rolantes, elevadores panorâmicos e camarotes climatizados. Também está prevista a colocação de telões e de uma câmera, operada por controle remoto, para captar imagens de qualquer parte do campo.

Análise da paisagem das cidades-sede

O campeonato é uma boa oportunidade para refletir sobre as transformações da paisagem. Bruno Algarve

Agora é hora de explorar as mudanças de paisagem das cidades que não sediam o evento. Leve para a sala propagandas de revista e embalagens de produtos com o tema Copa. Pergunte se os estudantes já viram ou consumiram algo relacionado ao torneio, como álbuns de figurinhas ou camisas da seleção brasileira. Eles devem identificar que existe um consumo movimentado pelo evento internacional e que eles fazem parte disso. Diga que irão a campo para colher dados sobre a transformação no comércio da cidade.

Prepare um questionário com a turma que oriente o que deve ser observado. O objetivo é identificar a interferência da Copa nas trocas comerciais (com a alteração de produtos oferecidos e a organização do espaço), a variação do preço e do volume vendido por causa da competição e a origem dos produtos (alguns podem ser fabricados em outros países, indício da relação entre o global e o local). É interessante analisar também os tipos de produtos vendidos e sua disposição nas prateleiras. Cada estudante terá de ir a um estabelecimento entrevistar um comerciante e anotar suas respostas e conclusões. Para executar a tarefa, as crianças com deficiência auditiva podem ser ajudadas por um responsável.

De volta à sala, peça que todos socializem os registros. Você pode construir uma tabela para quantificar as respostas dadas e gerar um gráfico com dados como aumento de preços, produtos mais vendidos e volume de vendas. Chame a atenção para o fato de o aumento nas vendas representar também um acréscimo na arrecadação de impostos, que pode ser revertida em benefícios à população, mas que nem sempre isso ocorre. Pergunte quem sai ganhando com o aumento do consumo e se há fatores negativos. Anote os destaques da classe no quadro. "Mesmo sendo uma atividade legitimada pela maioria, como é o futebol, isso não significa que ela deva ser priorizada em detrimento de outras mais urgentes", afirma Lana de Souza Cavalcanti, professora da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Para avaliar a meninada, analise as anotações produzidas ao longo da sequência. Procure identificar se todos conseguiram relacionar a organização global às mudanças na paisagem, as transformações ocorridas, se vinculam o aumento da oferta de produtos aos jogos e compreendem a implicação disso. Depois desse estudo, a reflexão sobre o campeonato deixará um legado para a garotada, assim como ocorre com as cidades-sede da Copa: a capacidade de enxergar o entorno com outros olhos, mais críticos e conscientes.

1 O que sabemos sobre a Copa Apresente o tema e levante o que a turma sabe sobre o torneio, quem o organiza, o que é necessário para sediá-lo e o que o Brasil tem feito em termos de infraestrutura para isso.

2 Relação global e local Faça uma pesquisa coletiva com a garotada no site da Fifa para obter mais informações sobre o evento. Explore as páginas, sempre relacionando o órgão global ao que está sendo feito localmente no Brasil. Peça que a classe tome nota.

3 Análise das mudanças Exiba vídeos e fotos sobre as obras na Copa. Divida a sala em grupos e distribua reportagens sobre os impactos dessas construções. Peça que as crianças façam uma tabela com os prós e contras.

4 Debate e ida a campo Leve propagandas e produtos com o tema Copa. Pergunte se a turma já viu ou consumiu algo relacionado ao torneio. Sugira entrevistas com os lojistas locais e depois convide a classe a socializar os registros.

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