Meninos no engenho: trabalho de campo e história local

Conhecer locais históricos aproxima os alunos do passado

POR:
Paula Valentim, Paula Peres
A conversa dos alunos com dona Luiza, do engenho Cangaçá, gerou ricas descobertas. Leo Caldas A conversa dos alunos com dona Luiza, do engenho Cangaçá, gerou ricas descobertas Móveis e objetos antigos da casa grande chamaram a atenção dos alunos. Leo Caldas Móveis e objetos antigos da casa grande chamaram a atenção dos alunos Na senzala, o senhor Antonio falou sobre a nova atividade do engenho: a carpintaria. Leo Caldas Na senzala, o senhor Antonio falou sobre a nova atividade do engenho: a carpintaria

São Lourenço da Mata é uma cidade situada a 30 quilômetros de Recife. No século 17, desenvolveu-se economicamente devido à produção de açúcar, principal mercadoria comercializada no Brasil à época. O sucesso do produto daquela região era tão grande que rendeu a ela a alcunha de "terra do açúcar". Vaneza Nascimento de Oliveira Melo, professora do 3º ano da EMEF Amaro Alves de Souza, descobriu tudo isso quando decidiu estudar com seus alunos a história do lugar onde moravam.

Para começar, a docente pesquisou no livro História de São Lourenço da Mata, editado pela prefeitura da cidade, e explicou aos pequenos a relação entre a economia açucareira do Brasil e o município. "Foi um processo muito rico também para mim, pois, junto com eles, tive contato com informações importantes e pouco divulgadas", relembra Vaneza. A professora Sandra Regina Ferreira de Oliveira, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), fala da relevância de trabalhar a história local nos anos iniciais: "Levar as crianças para conhecer os espaços e entendê-los como fontes de conteúdo acaba sendo uma experiência que enriquece a aprendizagem".

A fim de despertar a curiosidade dos alunos, Vaneza os provocou: "Vocês sabiam que a nossa cidade foi muito rica de açúcar?". A partir daí, eles encheram a professora de perguntas. Antes de responder, ela questionou se os pequenos conheciam a palavra "engenho", seu significado e a origem do município. A réplica surpreendeu: ninguém sabia a história ou tinha ouvido falar sobre os engenhos de cana-de-açúcar.

Para iniciar a contextualização sobre o assunto, Vaneza pediu que a classe pesquisasse nos dicionários da escola o significado de palavras relacionadas ao conteúdo, como escravidão, moinho e fornalha. Cada aluno procurou um vocábulo e leu sua definição em voz alta. Em seguida, todos anotaram no caderno os novos conceitos aprendidos. A turma também viu um mapa do Brasil, que mostrava quantos engenhos havia no país, e outro de São Lourenço, indicando os bairros onde essas instalações podem ser encontradas.

Depois, as crianças investigaram mais sobre a cidade na biblioteca municipal. Lá, elas entraram em contato com o livro que serviu de base para a exploração da professora, documentos de propriedade dos engenhos e informações gerais sobre o local onde moram: localização, dados geográficos, número de moradores e nomes dos rios que banham a região. Todos anotaram as informações que consideraram importantes.

Em seguida, eles foram até uma lan house (pois a escola não dispunha de computadores com acesso à internet) para investigar, em duplas, aspectos mais amplos da economia colonial brasileira. Nesse momento, a educadora aproveitou para conversar com a turma sobre a relação de trabalho da época: a escravidão.

A garotada viu que se tratava de um regime forçado, em que os escravos viviam em condições inadequadas, nas senzalas, algumas vezes recebendo castigos físicos por erros cometidos. "Fizemos paralelos com as formas de emprego que existem hoje. Comparamos, por exemplo, o que diferencia o trabalho escravo do livre", relembra Vaneza. Para Maria Auxiliadora Schmidt, professora de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), "é fundamental, no processo de aprendizado, criar situações em que os alunos estabeleçam relações entre presente e passado, pois isso traz significado à história a partir da maneira pela qual ela aparece no presente delas".

Ainda durante a pesquisa, a classe viu imagens de moedas que circulavam na época e dos títulos de capitalização - e, assim, a educadora pôde introduzir o conceito de sistema monetário, da Matemática. Maria Auxiliadora chama a atenção para o fato de Vaneza conseguir manter a especificidade do conteúdo de História trabalhando elementos multidisciplinares. "Não é necessário indicar à classe qual matéria está sendo trabalhada naquele momento, pois o essencial é que os estudantes entrem em contato com assuntos de várias áreas, e, assim, aprendam a ‘ler’ o mundo de uma forma interdisciplinar", explica.

Uma visita a espaços do passado

De volta à sala de aula, a professora contou aos alunos que eles visitariam o engenho Cangaçá, localizado no centro da cidade e que se mantém preservado até hoje. O local pertence a Luiza Corrêa de Araújo, uma senhora de 84 anos, que seria entrevistada pelos estudantes junto com seu filho, Antonio Corrêa de Araújo. Em roda, coletivamente, eles pensaram nas perguntas que gostariam de fazer aos dois. "A origem do nome Cangaçá foi a primeira questão levantada", lembra Vaneza. Na visita, eles aprenderam que se trata de uma palavra indígena que significa "o barulho das águas sobre as pedras", pois havia um riacho na propriedade onde os índios costumavam se banhar.

Dona Luiza também falou para as crianças sobre aspectos passados da sociedade brasileira. Ela é filha do antigo dono do engenho, mas não podia tomar conta do local (depois da morte de seu pai) por ser mulher. Para que a administração continuasse com a família, casou-se com seu primo, Aluysio Corrêa de Araújo, um carpinteiro que mudou o caráter do engenho: da produção de açúcar eles passaram a fabricar móveis. De acordo com Vaneza, o casamento arranjado despertou a curiosidade. "Os meninos e as meninas ficaram muito surpresos ao descobrirem que, antigamente, havia casamentos motivados por negócios, e não por amor."

Em seguida, eles passearam pelos principais espaços que compunham o engenho: a senzala, que foi transformada em oficina de carpintaria; a vegetação ao redor, ainda preservada; o pasto, onde são criados cavalos e gado para exportação; e a casa grande, onde atualmente ficam os móveis e objetos antigos da família.

Para sistematizar o que aprenderam, a professora pediu que os pequenos elaborassem cartazes com as informações obtidas nas pesquisas e uma maquete de um engenho, reproduzindo os espaços que conheceram. De acordo com Sandra, esse trabalho é fundamental para que eles organizem os conteúdos que receberam em forma de aprendizado. "Em História, nós comunicamos ao outro o conhecimento que produzimos por meio de narrativas, que podem ser escritas ou visuais, como as maquetes." As produções ficaram expostas em sala durante um evento aberto à comunidade, quando a meninada teve a oportunidade de contar aos amigos e familiares tudo o que aprendeu sobre São Lourenço da Mata.

1 Estudo sobre a cidade Promova um trabalho de resgate histórico do município onde vivem os estudantes, fazendo-os conhecer o passado, compreender o presente e refletir sobre o futuro.

2 Pequenos pesquisadores Convide a turminha a realizar uma ampla atividade de pesquisa em museus, bibliotecas e na internet, a fim de identificar documentos e fotos relevantes para a compreensão da história do município.

3 Exploração in loco Organize uma visita ao principal espaço histórico do município, onde os alunos poderão entrevistar personagens diretamente ligados ao passado e ouvir informações muitas vezes não presentes nos livros.

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