Leitura e escrita de lenga-lenga na alfabetização

A turma aprendeu a escrever com esses textos, que permitem exercitar a autoria

POR:
Sophia Winkel, Bruna Nicolielo
Os livros produzidos pela turma têm rimas divertidas e servem como suporte à leitura. Manuela Novais Os livros produzidos pela turma têm rimas divertidas e servem como suporte à leitura As intervenções de Mara permitiram discussões ricas sobre o sistema de escrita. Manuela Novais As intervenções de Mara permitiram discussões ricas sobre o sistema de escrita Também levaram à reflexão sobre aspectos de produção textual, como a coerência. Manuela Novais Também levaram à reflexão sobre aspectos de produção textual, como a coerência Durante a revisão, a garotada recorreu ao dicionário para saber a escrita das palavras. Manuela Novais Durante a revisão, a garotada recorreu ao dicionário para saber a escrita das palavras

No ano passsado, Mara Elizabeth Mansani, da EE Professora Laila Galep Sacker, em Sorocaba, a 101 quilômetros de São Paulo, decidiu inovar: substituiu as consagradas parlendas e outros textos de memória pelas lenga- lengas para alfabetizar a classe do 1º ano. Esse tipo de construção tem repetições, frases curtas, rimas e enumerações crescentes ou decrescentes. Permite criar textos de autoria mais complexos que os de memória, já que é preciso pensar sobre o que escrever, em vez de reproduzir o que já se sabe de cor. "Há alguns anos, eu mesma diria que era impossível propor a alunos de 6 e 7 anos em alfabetização que elaborassem suas próprias produções, mas essa foi minha ideia", explica a docente. O objetivo dela era fazer com que a classe avançasse na compreensão do sistema e se aproximasse do processo de composição de um texto, levando em conta as características das lenga-lengas.

Depois de identificar os conhecimentos dos estudantes (Mara encontrou duas crianças com escrita pré-silábica, duas com escrita silábica sem letras pertinentes, dez com escrita silábica com letras pertinentes, nove com escrita silábico-alfabética e duas com escrita alfabética), ela compartilhou sua proposta com a sala. Em seguida, apresentou o livro Dez Sacizinhos (Tatiana Belinky, 16 págs., Ed. Paulinas, tel. 11/2125-3500, 28,80 reais), dizendo que a turma não só aprenderia a ler e escrever como produziria suas próprias lenga-lengas. "Só se aprende a escrever escrevendo e para isso precisamos de bons modelos de texto", diz. Numa roda de leitura, ela leu a obra em voz alta e explorou as repetições de sons e palavras, as rimas e a contagem crescente e decrescente. Nas aulas seguintes, levou outros modelos de lenga- lenga, como Tangolomango e Tumbalacatumba, canções que fazem parte de brincadeiras orais e são conhecidas por crianças em muitas partes do Brasil. A docente também explorou as semelhanças entre o livro Dez Sacizinhos e esses outros textos, discutindo, por exemplo, que rimas apareciam, como começava cada parte, quais personagens havia e o que acontecia com eles. Assim, os alunos entenderam as principais características da lenga-lenga, preparando-se para a etapa que viria na sequência.

Em seguida, a professora convidou os estudantes a redigir as próprias produções. Ela dividiu a sala em grupos de cinco crianças, separando-as por hipóteses próximas e deixando pelo menos uma com hipótese alfabética ou silábico-alfabética em cada quinteto. Cada agrupamento deveria escolher um personagem e um lugar onde se passaria a história. Todos teriam de combinar esses elementos com rimas dos números de 1 a 10. A garotada explorou o humor e a criatividade, escolhendo protagonistas e situações tão variadas quanto águias em cima de uma montanha, gatos em uma casa, menininhos bonitinhos passando por uma série de desastres, cachorrinhos passeando pelo bosque e borboletas voando pelo céu.


  • Vídeo com leitura de lenga-lenga feita pela classe:

Circuito de intervenções

A turma aprendeu a escrever com esses textos, que permitem exercitar a autoria. reprodução

Enquanto os alunos produziam, Mara circulava pelos grupos para acompanhar o desenvolvimento da proposta e fazer as intervenções necessárias. Dessa forma, ela pôde sentar com cada quinteto por volta de dez a 15 minutos, pelo menos por quatro vezes, alternadamente, e mediar o trabalho de todos eles. A docente apresentava às crianças questões como "Onde está escrita essa palavra?", "Não está faltando alguma coisa nessa palavra?", "Quais outras palavras têm o som parecido com a que você está tentando escrever?". "É importante elaborar boas perguntas para que os alunos reflitam e avancem em seus conhecimentos sobre a escrita. O professor tem de estar sempre atento ao aprendizado da turma e também ter um acompanhamento regular das produções", diz Marisa Garcia, supervisora acadêmica do programa Ler e Escrever e professora do Instituto Superior de Educação Vera Cruz (ISE-Vera Cruz). Ela sugere o livro Chapeuzinho Vermelho Aprende a Escrever (Clotilde Pontecorvo, Emilia Ferreiro, Isabel García Hidalgo e Nadja Ribeiro Moreira, 232 págs., Ed. Ática, tel. 11/3990-2100, edição esgotada), que faz uma pesquisa aprofundada sobre as dificuldades linguísticas, ortográficas e fonológicas de crianças em séries iniciais com base no conto que dá nome à obra.

Além das questões relacionadas à reflexão sobre o sistema, a professora também problematizava aspectos ligados ao tipo de texto proposto, perguntando sobre o que os estudantes tinham de inserir na produção para que ela ficasse parecida com as que conheceram antes de começar a escrever. Nessa etapa, muitas discussões interessantes ocorreram, como a necessidade de encontrar uma rima para zero (veja um exemplo na galeria da primeira página). "Todos estavam comprometidos em respeitar a ordem decrescente que haviam escolhido e manter a coerência da história, pois algo deveria acontecer para que o personagem desaparecesse, ou seja, não poderiam colocar qualquer tipo de acontecimento", explica Mara. Durante o circuito de intervenções, a dinâmica de reflexões proposta por ela foi incorporada pelos alunos naturalmente. Eles davam ideias, sugeriam rimas e corrigiam a produção dos outros. Também era comum ouvir: "É assim que escreve!", "Acho que está faltando alguma coisa! Vamos ler de novo?", "Nossa, que difícil! O que rima com o número 1?".

Conforme a garotada ia escrevendo o texto, a professora lia em voz alta para estimular os outros grupos a continuar o trabalho. As crianças se surpreendiam com a criatividade dos colegas e se divertiam com as rimas engraçadas. Foram quatro semanas de produção divididas em dois dias de aula por semana. Em todos esses encontros, a professora repetiu o circuito de intervenções pedagógicas. "Ele foi muito importante para problematizar questões, oferecer informações sobre a escrita para que os estudantes avançassem em suas hipóteses e acompanhar as aprendizagens de todos", destaca Beatriz Gouveia, coordenadora de projetos do Instituto Avisa Lá (leia no quadro abaixo as intervenções mais adequadas).

Intervenções que não podem faltar

  • Pedir que os alunos leiam o que escreveram. Assim, eles interpretam a escrita. Nesse momento, estão diante de um problema e se esforçam para buscar uma solução, acionando tudo o que sabem.

  • Propor uma discussão coletiva. A ideia é potencializar a reflexão e fazer circular o maior número de informações. É possível debater escritas da mesma palavra produzidas por diferentes alunos, pedir para que a turma explique suas escolhas, questionar quais outras palavras são semelhantes a que está gerando dúvidas e quais são as fontes de informação disponíveis que podem ajudar a pensar nas escritas.

  • Agrupar os alunos com saberes próximos. O intercâmbio contribui para criar zonas de desenvolvimento proximal, isto é, oportunidades em que um aluno potencializa o conhecimento do outro. Também permite que um colega justifique as escolhas feitas para os demais.

Consultoria Beatriz Gouveia

Na próxima etapa, a docente selecionou algumas escritas para discussão. Ela exibiu os textos no retroprojetor e pediu a ajuda dos alunos para revisá-los. Eles foram fazendo tentativas, o que levou a mais reflexão e à socialização de novos conhecimentos. Mara também entregou um dicionário para cada grupo, pedindo que eles verificassem a grafia de algumas palavras. Além disso, a turma discutiu se as informações estavam claras, se as lenga-lengas eram coerentes ou se poderiam ser redigidas de outra maneira.

Quando os textos ficaram prontos, Mara os digitou e os revisou em casa. Na aula seguinte, a garotada se reuniu para ler as produções. Com a ajuda de um computador e um projetor, ela foi mostrando a versão final e explicando que as editoras também fazem a revisão dos materiais enviados por seus escritores antes da publicação. Esse também foi um momento de discutir escritas convencionais. "Isso é importante, pois se os alunos só precisarem refletir sobre os erros, a impressão é que os acertos são incontestáveis, quando na verdade há uma variedade de maneiras de escrever algo", diz Érica de Faria, especialista em alfabetização. Nesse momento, Mara deixou claro que o original, a escrita de próprio punho deles, não seria alterado, apesar dos erros ortográficos. Ela avaliou que não caberia uma revisão nesse material, afinal a classe ainda estava em processo de alfabetização. Depois que tudo estava revisado, a docente pediu que cada grupo fizesse as ilustrações e as dedicatórias.

Os desenhos ficaram caprichados. Mara digitalizou o material, fez a edição gráfica com sugestões das crianças - que discutiram, por exemplo, a posição dos elementos em cada página -, montou os livros e imprimiu um exemplar para cada estudante. Quando eles ficaram prontos, toda a comunidade escolar foi convidada para o lançamento das obras. Pais, professores, alunos e a equipe escolar ficaram encantados com as produções e com a beleza das ilustrações. Os próprios livros se transformaram num bom suporte para leitura, pois as crianças leram muitas vezes e puderam descobrir as escritas dos outros grupos. "Fiquei muito feliz com o resultado: todos no 1º semestre do 1º ano revisando suas produções e conhecendo os procedimentos para escrever um bom texto", explica a professora. Ao fim do projeto, a turma também ficou satisfeita. "Aprendemos a ler, a trabalhar em grupo e a escrever bons textos", comemora Vitória Cristina Antunes de Almeida, 7 anos.

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