Já brincou de passa-anel com os colegas?

Essa e outras brincadeiras de antigamente são patrimônio cultural e tema relevante

POR:
Anna Rachel Ferreira
A turma entrevistou pessoas mais velhas para conhecer as brincadeiras do passado. Roberto Chacur A turma entrevistou pessoas mais velhas para conhecer as brincadeiras do passado Para brincar de pega ou salva-bandeirinha é preciso roubar a bandeira do adversário. Roberto Chacur Para brincar de pega ou salva-bandeirinha é preciso roubar a bandeira do adversário Na carimbada ameba, quem é atingido tem de ficar agachado até conseguir pegar a bola. Roberto Chacur Na carimbada ameba, quem é atingido tem de ficar agachado até conseguir pegar a bola Na cabra-cega, a criança vendada tem de pegar as outras, que ficam correndo ao seu redor. Roberto Chacur Na cabra-cega, a criança vendada tem de pegar as outras, que ficam correndo ao seu redor

Lembra-se das diversões que eram parte da sua infância? Daquelas que reuniam os amigos na rua e faziam todos perder a noção do tempo? A meninada de hoje, você sabe, também tem as suas preferidas, e tanto essas como as do passado são tema de interesse para as aulas de Educação Física. "Elas devem ser exploradas porque são patrimônio cultural da humanidade", explica Marcos Neira, docente da Universidade de São Paulo (USP). Além disso, brincar é a principal forma de expressão na infância e o primeiro modo como as crianças se organizam socialmente. Sendo assim, é essencial que as brincadeiras sejam estudadas e também vivenciadas, principalmente no início da escolaridade.

Para que a turma do 2º ano da EEB da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) pudesse ter essa experiência e ampliasse seu repertório, o professor de Educação Física Leandro Rezende preparou algumas aulas com foco no tema.

Inicialmente, ele perguntou aos estudantes do que eles não costumavam brincar na escola, mas gostariam de fazê-lo. "Isso valoriza e amplia o saber deles porque há troca de ideias", explica Elina Macedo, docente da Escola de Aplicação da USP. A criançada mencionou morto-vivo, queimada, variações de pega-pega (como pique-fruta, pique-novela e pique-correndo), além de diversos esportes, como futebol, basquete e lutas.

Repare que ninguém citou jogos eletrônicos e de videogame. Mas, se algum aluno levanta essa possibilidade, é importante não ignorá-lo e conversar a respeito com a turma. Afinal, são modos de brincar da atualidade e revelam muito da sociedade contemporânea.

Na sequência, Rezende elaborou uma lista com as brincadeiras de rua citadas e questionou: "O que as caracteriza e no que elas diferem dos esportes apontados?". Duas conclusões da garotada: as primeiras não são oficiais e não existem profissionais que as praticam, como acontece no cado dos esportes.

Depois, hora de dar voz às crianças para que escolhessem o que queriam vivenciar na escola. "As campeãs foram pique-fruta, morto-vivo e queimada", conta o educador. Depois que elas brincaram a valer, Rezende perguntou se alguém gostaria de sugerir alterações nas regras. Ficou decidido, por exemplo, que quem errasse durante o morto-vivo não seria eliminado. No pique-fruta, além de gritar o nome de uma ainda não mencionada (que é a conduta usada tradicionalmente), a pessoa teria de se abaixar para não ser pega. Se fosse, ela também passaria a desempenhar a função de pegador.

Como nossos avós se divertiam?

Para ampliar o repertório dos estudantes, Rezende perguntou se eles achavam que os mais velhos, na infância, se divertiam da mesma forma. A maioria disse não saber ou que os familiares brincavam de coisas diferentes.

"Vamos perguntar a eles?", propôs o professor, que tinha planejado um momento de pesquisa durante esse trabalho. Os alunos levaram para casa fichas com os seguintes itens: nome do entrevistado, idade, cidade onde passou a infância, nome da brincadeira de que mais gostava, número de participantes, material necessário, regras e descrição da prática.

Todos tiveram uma semana para conversar com os adultos. Depois, socializaram as respostas com os colegas. Algumas propostas já conhecidas pela turma foram citadas nas entrevistas, mas elas não eram vivenciadas da mesma maneira: havia outras regras e materiais. Na queimada, por exemplo, os adultos usavam bolas feitas de meias. E eles contaram que seguiam outras regras, como na variante carimbada ameba.

Nesse jogo, quem iniciava não podia andar e devia arremessar a bola de onde estava. Os que eram atingidos estavam carimbados e tinham de agachar, se transformando em uma ameba. O arremessador, então, pegava novamente a bola e seguia tentando carimbar os demais. Se um adversário conseguia pegar a bola, quem tinha arremessado virava ameba. Qualquer pessoa que andava com a bola ou encostava em uma ameba se transformava em uma também. Caso uma ameba conseguisse roubar a bola de alguém, voltava para o jogo e o perdedor se tornava ameba. "Não há uma forma correta de brincar e sim, múltiplas possibilidades adequadas pelo grupo social que vivencia a experiência", explica Luciano Coelho, professor de Ensino e Jogos, Brinquedos e Brincadeiras da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG).

As entrevistas também renderam descobertas, como a amarelinha. Embora na quadra da escola houvesse um esquema pintado no chão, as crianças não sabiam as regras e pulavam nos quadrados aleatoriamente. Conversando com os familiares, descobriram como era. "Tem de jogar um caco de telha num dos quadrados e pular em todos, ora com os dois pés, ora com um só, respeitando o desenho. Quando chegar ao quadrado em que está o caco, é preciso pular direto para o seguinte e ir até o fim. Vence quem fizer tudo sem pisar nas linhas do esquema", contou a aluna Lavínia Mota, 7 anos, que apresentou outra curiosidade: a amarelinha também pode ser chamada de maré. Isso tudo a menina descobriu ao entrevistar a avó, Osvanilde Mota, 54 anos. Outra novidade apresentada por Gustavo de Melo, 7 anos, foi passa-anel, brincadeira conhecida da mãe dele, Janaina de Melo, 39 anos.

Depois de conversar sobre as pesquisas e comentar cada brincadeira descoberta, os estudantes votaram nas que gostariam de vivenciar na escola. Foram escolhidas amarelinha, garrafão, pega ou salva-bandeirinha, cabra-cega, mamãe da rua, passa-anel e três variações de queimada. "Eles ficaram animados em experimentar como os pais e outros parentes se divertiam", diz Rezende. Coelho explica que quando as crianças experimentam uma nova brincadeira aprendem o conteúdo e, ao ter a chance de repensar a prática e propor alterações, se apropriam dela.

Rezende organizou debates após as atividades com o grupo. Alguns alunos compararam o que já conheciam com as novidades. Outros sugeriram mudanças, sendo que a maioria priorizava a participação de todos, mesmo se alguém quebrasse uma regra ou outra.

"Para aprofundar o trabalho, é possível direcionar outra pesquisa ou apresentar textos e vídeos sobre a origem dessas diversões", sugere Neira. Outra ideia interessante é explorar brincadeiras que fazem sucesso em outras regiões do país. Confira algumas no Especial Brincadeiras Regionais, de NOVA ESCOLA.

1 Eu gosto de brincar de... Pergunte aos alunos qual é a atividade recreativa preferida de cada um, mas que não é praticada na escola, e planeje que brinquem.

2 Do fundo do baú Pergunte se as crianças sabem de que os parentes mais velhos brincavam. Peça que os entrevistem para colher detalhes e socializem as descobertas. Depois, deixe todos experimentarem.

3 Como se brinca lá longe Proponha uma pesquisa ou apresente vídeos ou textos que falem sobre as origens de algumas das práticas discutidas e vivenciadas e converse com a turma sobre suas particularidades. Outra possibilidade é fazer o mesmo com brincadeiras típicas de outras regiões do país.

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