Como são medidas as quantidades na feira?

Os comerciantes usam balanças, mas também instrumentos não convencionais, como bacias

POR:
Beatriz Santomauro
Em caixas, o aipim e outras raízes são colocados na mesma quantidade e disposição. Fernando Vivas Em caixas, o aipim e outras raízes são colocados na mesma quantidade e disposição Para medir a porção de grãos nos sacos, os feirantes usam latas de 1 litro de capacidade. Fernando Vivas Para medir a porção de grãos nos sacos, os feirantes usam latas de 1 litro de capacidade Vagens são reunidas em amarradinhos. Em cada um há mais ou menos o mesmo peso. Fernando Vivas Vagens são reunidas em amarradinhos. Em cada um há mais ou menos o mesmo peso Em sala, a turma comparou o jeito de vender usado na feira e no supermercado. Fernando Vivas Em sala, a turma comparou o jeito de vender usado na feira e no supermercado

Na sala de aula, os conteúdos relacionados a grandezas e medidas nem sempre ganham a atenção que realmente merecem. Quando não são deixados de lado por causa de outros (principalmente os relacionados ao bloco de números e às operações), acabam restritos a atividades com foco na conversão de medidas - por exemplo, 1 quilo é o mesmo que mil gramas e meio litro é igual a 500 mililitros e por aí vai. O assunto não pode ficar restrito a isso.

Aprende-se a medir medindo. "Ler o resultado não é suficiente para entender o que é fazer isso. Mais importante que ler convencionalmente o resultado é experimentar situações de medição e refletir sobre elas. Isso implica testar, comparar e observar as unidades", diz Ana Virgínia Luna, coordenadora do Núcleo de Estudos em Educação Matemática de Feira de Santana (NEEMFS) e diretora pedagógica da Escola Despertar, em Feira de Santana, a 119 quilômetros de Salvador.

A meninada ainda precisa ser desafiada a estimar valores, fazer comparações e pesquisar as unidades adequadas. Isso quer dizer que, na escola, é necessário trabalhar com medidas convencionais e não convencionais (como bacia, copinho, saquinho, amarradinho e maço, entre outras medidas usadas em mercados informais, como as feiras comuns em todo o país). A necessidade de uma unidade padronizada deverá surgir entre as crianças como uma resposta à importância de esclarecer que todos estão falando da mesma coisa. Isso porque quando utilizamos diferentes unidades obtemos resultados diferentes.

Tem redinha, tem bacia, tem saquinho...

Quando a professora Andréa Nunes planejou levar a turma do 2º ano para visitar o centro de abastecimento de Feira de Santana, ela tinha um objetivo claro. Queria que os alunos da Escola Despertar conhecessem o modo com que os comerciantes expõem e comercializam grãos, legumes, verduras e temperos. Com lápis e prancheta em mãos, os estudantes foram orientados a tomar nota do que observassem e conversassem com os vendedores sobre as unidades de medida usadas no centro de abastecimento.

Rapidamente, a garotada reparou que lá nem tudo era levado à balança para ser vendido de acordo com o peso, como nos supermercados. "Por que as seriguelas estão em redinhas e os chuchus em bacias? ", um garoto questionou. A educadora colocou o tema em debate e as crianças concluíram que na feira há diferentes formas de acondicionar os alimentos para vendê-los. Os comerciantes escolhem entre priorizar a quantidade de unidades (nesse caso, usam bacias) ou o peso marcado na balança (optam por colocar a mercadoria nas redinhas e pesá-las), entre outras formas de organização. Mas, independentemente do que escolher, a intenção é que todas as bacias de chuchu (ou as redinhas de seriguelas) tenham aproximadamente o mesmo peso.

Para falar mais com a classe a respeito, Andréa questionou o grupo: "Dentro de cada bacia há a mesma quantidade de goiaba?". Alguns disseram que sim, outros afirmaram categoricamente que não. O feirante tirou a prova usando uma balança. Havia cerca de 1 quilo em cada uma, sendo que o número de goiabas variava ligeiramente de uma para outra. Nas que tinham mais, as frutas eram menores e vice-versa. Essa foi a deixa para a professora conversar com a turma sobre a relação entre vendedor e comprador. "Em casos como esse, é sabido por ambos que o número de unidades e o peso é aproximado. Nos supermercados, é diferente: o peso é a unidade de medida estabelecida e o valor a ser cobrado é determinado com exatidão por ele", ela explica.

"As crianças podem pensar que na feira há uma organização aleatória, mas não. A intenção do feirante e do comprador é que a variação de quantidade do produto seja mínima. Para isso, a mesma mercadoria é colocada em recipientes de tamanho igual e o vendedor põe as unidades de modo semelhante para estimar a quantidade", diz Elaine Coviello, coordenadora pedagógica da EMEF Joaquim de Abreu Sampaio Vidal, em Pirangi, a 390 quilômetros de São Paulo.

Alguns passos adiante, os alunos expressaram um ar de interrogação. Um feirante anunciava em voz alta: "1 litro de feijão!", "1 litro de farinha!" e "1 litro de arroz!", apresentando essas mercadorias em latas. Até então, a garotada pensava que litro era uma medida exclusiva para trabalhar com líquidos. Na verdade, oficialmente, é mesmo uma medida de capacidade e não de massa. Mas é possível utilizá-la para sólidos desde que seja firmado um acordo entre quem vende e quem compra: dependendo da maneira com que o sólido for acondicionado no recipiente, caberá um pouco mais ou menos.

A unidade de medida mais adequada é...

De volta à escola, a tarefa dos estudantes foi preencher uma tabela com as diferenças entre o supermercado e a feira. Eles destacaram, por exemplo, que no primeiro as embalagens indicam o peso em gramas ou quilos e, se o produto é vendido a granel, deve ser pesado em uma balança, que geralmente é digital. "Na Matemática, a precisão é essencial, garante a veracidade da informação. Mas, em alguns momentos da vida social, isso acaba ficando em segundo plano. Nas feiras, por exemplo, sempre acontecem negociações. O comprador pede para o feirante socar a farinha um pouco mais na lata, para caber mais", explica Camilla Ritzmann, coordenadora do curso de Pedagogia da Faculdade Messiânica e consultora do Instituto Avisa Lá.

Nas aulas seguintes, Andréa mostrou às crianças vídeos e fotos que fez durante a visita delas ao centro de abastecimento. Uma visão um pouco mais amadurecida e distante da euforia do passeio permitiu que outros aspectos pudessem ser trabalhados e que fosse concluída a sistematização da aprendizagem: quais instrumentos são mais adequados para mensurar determinados produtos? Quais unidades de medida são próprias de cada tipo de mercadoria?

A meninada aprendeu que a balança, seja de pratos, seja eletrônica, é muito mais precisa que um copo ou uma bacia. E que medir feijão em litro é uma maneira popular de se referir à quantidade por causa do recipiente em questão, embora a unidade convencional de medida de massa seja o quilo, enquanto o litro é mais apropriado para mensurar a capacidade de líquidos. "Estudar as formas de medir usadas no dia a dia não significa legitimá-las como matemáticas, e sim como possíveis de ser usadas em determinados contextos", explica Camilla.

1 Olho vivo na organização Leve a turma à feira e diga que observe como os vendedores expõem e comercializam os alimentos. Peça uma comparação com o modo de funcionamento do supermercado.

2 Provocações sobre medidas Questione a garotada sobre a validade de os feirantes usarem diversas formas de medição e acondicionamento dos alimentos. Será que a quantidade de chuchus dispostos em bacias do mesmo tamanho é igual?

3 Consolidando novos saberes Em classe, oriente a meninada a preencher uma tabela comparativa sobre o jeito de vender nos supermercados e nas feiras e converse sobre as unidades de medida e os instrumentos mais adequados para medir cada alimento.

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