A classe toda vai virar estátua

Criar um contexto colabora para a turma fazer desenhos de imaginação e observação

POR:
NOVA ESCOLA, Ana Ligia Scachetti, Larissa Teixeira
A bela Vênus de Milo integrou a apreciação de obras e de imagens da Grécia antiga. Divulgação/acervo Louvre A bela Vênus de Milo integrou a apreciação de obras e de imagens da Grécia antiga Alguns alunos posaram como as esculturas para que o restante da turma pudesse desenhá-los. Arquivo pessoal/Agda Alguns alunos posaram como as esculturas para que o restante da turma pudesse desenhá-los Alguns alunos posaram como as esculturas para que o restante da turma pudesse desenhá-los. Arquivo pessoal/Agda Alguns alunos posaram como as esculturas para que o restante da turma pudesse desenhá-los

Quando Agda Brigatto contou alguns mitos gregos para os alunos do 4º ano da EE Professora Rosina Frazatto dos Santos, em Campinas, a 100 quilômetros de São Paulo, a ideia era estimular a imaginação deles para os desenhos que seriam feitos em seguida. Ela cerrou as cortinas, apagou a luz e pediu que todos fechassem os olhos para ouvir as histórias. Assim, cada um imaginou os personagens do seu jeito.

Inicialmente, ela contou a trajetória de Dédalo e seu filho Ícaro, que foram condenados pelo deus Zeus e exilados na Ilha de Creta. Narrou, também, o mito do Minotauro, ser com corpo de homem e cabeça de touro que vivia em um labirinto na mesma ilha. Após ouvir os relatos, todos ficaram curiosos. Perguntaram como era o Minotauro e se ele tinha mesmo existido. Agda explicou que esses são mitos do povo grego, e que as pessoas da antiguidade acreditavam neles. Em seguida, pediu que as crianças fizessem desenhos do monstro da maneira como o imaginaram. Elas tentaram, então, juntar a figura de um animal com a de um homem, seguindo as informações dadas pela professora. "Os alunos ainda não tinham uma ideia clara. Então, eu retomei o que havia contado sobre esse aspecto", lembra.

As produções foram feitas com lápis de cor e giz de cera nas folhas dos cadernos. Na busca por entender como era realmente o monstro, cada um comparou o seu registro com o do colega. Alguns o haviam representado com corpo de animal, outros com corpo de homem.

José Cavalhero Simon Júnior, artista plástico e arte-educador, ressalta que o desenho de imaginação estimula o ato criador e incentiva o estudante a buscar referências em seu próprio repertório. "Se ele é convidado a criar uma imagem de monstro, por exemplo, conseguirá entrar nesse desafio porque já conhece inúmeras feições, texturas, cores e formas que simbolizam aquele ser", afirma. Maria José Spiteri Tavolaro Passos, professora de Artes Visuais da Universidade Cruzeiro do Sul (UCS), também considera esse um importante canal de expressão. "É um exercício de construção de uma imagem, de dar forma a um discurso verbal", explica.

Conhecer onde os personagens viviam

Na aula seguinte, Agda procurou contextualizar a região de onde vinham todas aquelas histórias, pois isso contribuiria para as atividades que seriam realizadas posteriormente. Ela exibiu na lousa digital imagens da Grécia coletadas na internet. Mostrou que no país ainda hoje existem muitos templos, que eram utilizados antigamente para cultuar os deuses. Para organizar as informações sobre esses personagens, apresentou uma tabela com o nome e a função de cada um no Olimpo, o lar dos deuses. A professora explicou que na época acreditava-se que os fenômenos ocorridos no mundo humano resultavam do poder desses seres. Poseidon, por exemplo, era o deus do mar, que causava tempestades e terremotos, e o líder Zeus impunha justiça e ordem lançando relâmpagos.

Ao longo das aulas, Agda introduziu outros mitos gregos e pediu que todos fizessem ilustrações dos personagens como os imaginavam. Para compilar as histórias, usou livros disponíveis na escola, como Deuses e Heróis: Mitologia para Crianças, de Dad Squarisi (Ed. LGE, 96 págs., tel. 61/3362-0008, 25 reais), e Contos e Lendas dos Heróis da Mitologia, de Christian Grenier (Ed. Martins Fontes, 152 págs., tel. 11/3116-0000, 36,40 reais). E também estudou sobre o assunto nas obras A Mitologia Grega (Ed. Brasiliense, 122 págs., tel. 11/3062.2700, edição esgotada) e Dicionário da Mitologia Grega e Romana (Bertrand Brasil, 616 págs., tel. 11/3286 0802, 115 reais), ambos de Pierre Grimal (1912-1996).

A apreciação de imagens ainda incluiu fotos atuais da Grécia e esculturas, como a famosa Vênus de Milo, exposta no Museu do Louvre, em Paris. As crianças se surpreenderam com as figuras seminuas e a educadora esclareceu que os gregos valorizavam muito o corpo. Em outras fotos, ficaram intrigadas com as vestimentas, feitas de panos brancos. "Parece um lençol", disseram. Agda explicou, então, que eram utilizados pedaços grandes de tecidos para confeccionar as roupas, o que dava a aparência de um lençol.

Comparar várias versões das imagens

Finalmente, chegou o momento de os alunos visualizarem o Minotauro. A professora exibiu um episódio do Sítio do Picapau Amarelo em que o monstro atormenta Pedrinho. A turma ficou surpresa com a aparência dele e comparou com os desenhos feitos. Os estudantes também olharam para suas versões iniciais e as realizadas no final da sequência. Notaram que as últimas tinham uma riqueza maior de detalhes.

Depois disso, as produções foram reunidas, e cada aluno confeccionou um caderno de mitologia. Todos fizeram furos na margem das folhas e, com a ajuda da docente, costuraram o maço com barbante. Cavalhero ressalta que é possível deixar que as próprias crianças decidam o que colocar nos cadernos. "Ao escolher quais atividades registrar, esse objeto se torna um continente da aprendizagem subjetiva, das marcas pessoais e da sistematização do pensamento, como um caderno de artista."

Para a etapa final, a docente pediu que a turma levasse lençóis para a escola e se vestisse como as figuras vistas. Em um primeiro momento, deixou que as crianças tentassem se vestir. Como elas não conseguiam prender os tecidos, Agda mostrou que isso poderia ser feito com barbante. Prontos, alguns alunos posaram como modelos vivos, imitando a postura das esculturas, enquanto os demais os retratavam com lápis de cor e giz de cera. "Quando as crianças colocam no próprio corpo a posição das esculturas, elas podem se aproximar do ideal de beleza que existia na Grécia", diz Marisa Szpigel, coordenadora de Arte da Escola da Vila, em São Paulo.

Durante a produção desse desenho de observação, a docente indicou que a sala ficasse atenta a detalhes como o caimento dos panos no corpo dos colegas. Marisa lembra que pode ser muito difícil desenhar figuras humanas e, se a produção está envolvida por um contexto como o que Agda criou, a atividade flui com mais naturalidade. Os registros fotográficos feitos pela professora, que ilustram estas páginas, provam que a turma se sentiu no Olimpo e ousou ser estátua e artista por alguns momentos.

1 Os mitos como os imaginamos Conte histórias da Grécia antiga. Peça que todos imaginem como são os personagens relatados nos mitos e os desenhem a seu modo. Deixe que comparem suas representações com as dos colegas.

2 Uma viagem à Grécia Apresente imagens antigas e atuais do país. Localize a região no mapa e mostre que muitos templos e construções históricas ainda sobrevivem e podem ser vistos em cidades como Atenas. Oriente as crianças a registrar com desenhos as percepções delas sobre essas informações.

3 Caderno de mitologia Exiba imagens e vídeos sobre os mitos que você narrou anteriormente. Deixe que a turma elabore novas imagens e as compare com as que fizeram na primeira aula. Peça que cada um reúna suas produções e as encaderne.

4 Os modelos estão vivos Mostre fotos de esculturas gregas como a Vênus de Milo. Solicite que alguns alunos se vistam com lençóis ou panos brancos e posem como as esculturas. Os demais deverão desenhar os colegas, que servirão de modelo.

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