Cada lance da Copa do Mundo vai render um clique

Fotografias de partidas de futebol podem ser um ótimo instrumento para estudar a imagem do corpo

POR:
Anna Rachel Ferreira
Fotos Rodolpho Machado, Alexandre Battibugli e Lemyr Martins Fotos Rodolpho Machado, Alexandre Battibugli e Lemyr Martins Fotos Rodolpho Machado, Alexandre Battibugli e Lemyr Martins Fotos Rodolpho Machado, Alexandre Battibugli e Lemyr Martins Fotos Rodolpho Machado, Alexandre Battibugli e Lemyr Martins Fotos Rodolpho Machado, Alexandre Battibugli e Lemyr Martins Fotos Rodolpho Machado, Alexandre Battibugli e Lemyr Martins

A obsessão pelo retrato perfeito da figura humana persegue muitos artistas. Antigamente, só se podia buscar a excelência com os lápis e os pincéis. Mas o surgimento da fotografia abriu espaço para novas experiências nesse tema. A foto eterniza momentos e evidencia detalhes que não seriam notados a olho nu. Sob essa perspectiva, Larissa Glebova, professora da Escola da Vila, em São Paulo, propõe uma sequência didática que promove o estudo dos movimentos do futebol por meio dessa linguagem visual.

Converse com os alunos sobre que imagens de futebol eles já viram e pergunte se prestaram atenção na posição dos jogadores. Em seguida, apresente fotografias selecionadas. Você pode buscá- las em sites como cbf.com.br e pt.fifa.com. Inclua lances em que os atletas aparecem em posturas distintas e oriente a classe a observar os detalhes com perguntas como: "Que partes do corpo são mais perceptíveis nesta imagem?". 

Cláudia Dantas, psicopedagoga clínica e escolar, sugere que os professores que têm algum estudante com deficiência visual na sala flexibilizem a atividade apresentando a ele e aos demais um brinquedo que tenha os elementos do jogo em miniatura (trave, bola e bonecos de jogadores articulados). Em grupos, as crianças podem reproduzir os movimentos vistos e, pelo toque, o estudante com deficiência visual confere a posição do corpo. Outra possibilidade é que você ou algum colega descreva a cena da foto detalhadamente e colabore para que o aluno com necessidades educacionais especiais (NEE) faça a postura retratada ali com seus membros. 

Para seguir com a reflexão, solicite que os estudantes procurem imagens em que os jogadores apareçam de corpo inteiro e que apresentem as questões discutidas em sala. "O olhar é lapidado com base na observação dos olhares de outras pessoas", explica a pedagoga e fotógrafa Cláudia Reis. Enquanto cada um compartilha a imagem que encontrou, pergunte se ela parece ter sido tirada de perto ou de longe e se é possível imaginar em que local do campo o fotógrafo estava. Dessa maneira, os alunos começarão a pensar sobre aspectos como ângulo e distância.

A quadra vira estúdio

Agende com o professor de Educação Física e leve a turma para assistir ao jogo de futebol de outra classe. Para esse dia, combine com os alunos para que tragam as máquinas fotográficas que tiverem disponíveis e reserve o equipamento da escola, se houver. Antes, vocês podem assistir a trechos do documentário Janela da Alma (Walter Carvalho e João Jardim, 73 min, Copacabana Filmes), em que um fotógrafo cego conta com um assistente que narra as cenas para ele. A mesma técnica pode ser utilizada por um estudante cego.

Na quadra, oriente as crianças a observar a diversidade de posições corporais que aparecem em um mesmo jogo ou jogador e quais se assemelham com as que foram vistas em sala. Deixe que elas fotografem a partida sozinhas. "Muitas câmeras têm o modo esporte que já ajuda na nitidez. Mas os alunos podem usar outras técnicas como assistir ao jogo pela lente ou visor da câmera e estar sempre com o foco fechado no lance", sugere Alexandre Battibugli, editor de fotografia da revista PLACAR. Na sala de aula, questione sobre as dificuldades encontradas, compartilhe as imagens feitas com o grupo todo e discuta se elas poderiam ser melhoradas. É importante que os estudantes reflitam sobre a complexidade de fazer uma foto estática de algo que é dinâmico. A turma pode tentar reproduzir a postura dos jogadores com o corpo. Nesse momento, deixe que o aluno cego tateie quem faz a reprodução.

Na sequência, introduza a história inicial da fotografia em movimento com as experiências do inglês Eadweard Muybridge (1830-1904). Ele usou 12 câmeras estereoscópicas e registrou o salto de um cavalo. Alguns dos trabalhos estão disponíveis no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) e no museu Tate, de Londres, e podem ser apresentados à turma. Peça que os estudantes comentem sobre a diferença de fotografar no século 19 e nos dias atuais.

Para finalizar, proponha uma fotomontagem em que as crianças figurem como jogadores. "A turma já criou repertório e testou possibilidades. Agora é como se elas desconstruíssem o que aprenderam para criar algo novo", diz Tina Gonçalez, do Núcleo de Artes da Escola Comunitária de Campinas. Primeiro, peça que procurem em jornais e revistas uma paisagem que sirva de fundo para a montagem e a recortem.

Em seguida, diga para escolherem uma posição corporal para fotografar e inserir na composição. Lembre-as, por exemplo, que clicar um salto é algo muito complicado. Definida a pose, leve a turma para um local claro da escola. Você pode pedir o trabalho em dupla. Assim, todos serão jogadores e fotógrafos. Para o aluno que possui deficiência visual, dê ênfase à narração. Permita, também, que ele e os demais atuem como observadores táteis. Quem representa o atleta fica parado e é tateado pelo colega.

Após os cliques, descarregue as fotos no computador e ajude os alunos na seleção, avaliando aspectos como nitidez e enquadramento. Oriente-os a imprimir de acordo com o tamanho do fundo selecionado. Se for necessária a redução do retrato, isso pode ser feito em programas de edição de texto e de imagem. Instrua as crianças a recortar a parte que integrará a montagem e fazer testes de composição. Depois, elas devem passar a cola branca atrás com um pincel e posicionar no local planejado. Reúna essa produção com as de todas as etapas e organize uma mostra. Esse material também pode ser usado para você avaliar a evolução dos estudantes ao longo do processo. Assim, os detalhes da sequência ficam registrados em cada imagem. Clique a clique.


Confira comentários e dicas de Alexandre Battibugli, editor de fotografia da revista PLACAR, sobre imagens de jogos de futebol:

Às vezes, é necessário mais de um clique para conseguir a foto perfeita. Foi assim nesta comemoração do jogador da África do Sul na Copa do Mundo de 2010. Esta foto foi escolhida entre várias outras. É importante abrir mão das imagens que não atingiram o resultado esperado. Foto: Alexandre Battibugli Seleção criteriosa Às vezes, é necessário mais de um clique para conseguir a foto perfeita. Foi assim nesta comemoração do jogador da África do Sul na Copa do Mundo de 2010. Esta foto foi escolhida entre várias outras. É importante abrir mão das imagens que não atingiram o resultado esperado
É importante estar atento à posição das pessoas na hora do clique para obter um bom resultado. Nesta foto, por exemplo, Taffarel, de costas, comemora a vitória do Brasil e Baggio, da Itália, lamenta a perda do pênalti na final da Copa do Mundo de 1994. Foto: Alexandre Battibugli Enquadramento É importante estar atento à posição das pessoas na hora do clique para obter um bom resultado. Nesta foto, por exemplo, Taffarel, de costas, comemora a vitória do Brasil e Baggio, da Itália, lamenta a perda do pênalti na final da Copa do Mundo de 1994 Esta imagem reforça o movimento do jogador em vez de congelá-lo. Para obter esse efeito ao retratar Messi na Copa do Mundo de 2010, o fotógrafo usou uma velocidade baixa na câmera, algo possível em equipamentos profissionais. Foto: Alexandre Battibugli Borrão proposital Esta imagem reforça o movimento do jogador em vez de congelá-lo. Para obter esse efeito ao retratar Messi na Copa do Mundo de 2010, o fotógrafo usou uma velocidade baixa na câmera, algo possível em equipamentos profissionais Assistir a várias partidas de futebol ajuda o fotógrafo a prever deslocamentos e se posicionar melhor em campo. Assim, é possível captar lances como este de Cristiano Ronaldo, da seleção de Portugal, na Copa de 2010. Foto: Alexandre Battibugli Dedicação Assistir a várias partidas de futebol ajuda o fotógrafo a prever deslocamentos e se posicionar melhor em campo. Assim, é possível captar lances como este de Cristiano Ronaldo, da seleção de Portugal, na Copa de 2010 Esta imagem mostra jogadores holandeses e espanhóis durante a final da Copa de 2010. Para conseguir captar o momento exato de uma defesa como esta o fotógrafo deve estar o tempo todo com a câmera apontada para a bola. Foto: Alexandre Battibugli Olho no visor Esta imagem mostra jogadores holandeses e espanhóis durante a final da Copa de 2010. Para conseguir captar o momento exato de uma defesa como esta o fotógrafo deve estar o tempo todo com a câmera apontada para a bola É importante estar atento a outros momentos que surgem no jogo além das disputas de bola. Não se pode largar a câmera só porque o gol já foi feito. Comemorações como esta da seleção brasileira também merecem registro. Foto: Alexandre Battibugli Visão ampla É importante estar atento a outros momentos que surgem no jogo além das disputas de bola. Não se pode largar a câmera só porque o gol já foi feito. Comemorações como esta da seleção brasileira também merecem registro

1 Ver a posição dos outros Separe imagens diversas de partidas de futebol para as crianças observarem a posição e os detalhes dos corpos dos jogadores. Chame a atenção para as diferenças entre as fotos de deslocamento e de cenas paradas.

2 Atenção aos detalhes Peça que os alunos procurem outras fotos do esporte que possuam as características comentadas, observem os detalhes dos corpos representados e tentem imaginar o posicionamento dos fotógrafos em campo.

3 Experiência em campo Leve a turma para fotografar um jogo de futebol na escola. Deixe que explorem sozinhos e depois converse sobre as dificuldades e dê dicas. Organize uma aula expositiva sobre a história da fotografia em movimento.

4 Todo mundo vira atleta Proponha um trabalho de fotomontagem. Os alunos devem escolher uma imagem de fundo e uma pose típica do futebol. Oriente que se fotografem em duplas. Depois, oriente-os a imprimir as imagens, recortar e fazer a colagem.

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