O Brasil imperial bem perto da criançada

Objetos antigos e textos levam a entender os aspectos mais marcantes da vida na época

POR:
NOVA ESCOLA, Marília de Lucca, Bruna Nicolielo
A espineta, um parente do cravo, era frequente nos saraus do palácio, um marco da cultura. Acervo do Museu Imperial-Ibram/Minc A espineta, um parente do cravo, era frequente nos saraus do palácio, um marco da cultura O costureiro guardava linhas e agulhas. Servia a uma das principais ocupações da mulher. Acervo do Museu Imperial-Ibram/Minc O costureiro guardava linhas e agulhas. Servia a uma das principais ocupações da mulher O telefone era usado apenas na comunicação entre duas das residências imperiais. Acervo do Museu Imperial-Ibram/Minc O telefone era usado apenas na comunicação entre duas das residências imperiais A cadeira higiênica ficava fora do palácio por exigência dos órgãos de saúde pública. Acervo do Museu Imperial-Ibram/Minc A cadeira higiênica ficava fora do palácio por exigência dos órgãos de saúde pública

Preste atenção nos objetos mostrados nesta e nas próximas páginas. Eles levaram a turma do 5º ano da EM Marieta Gonçalves, em Petrópolis, a 72 quilômetros do Rio de Janeiro, a uma viagem sem escalas ao Brasil Império. Pertencentes à família real brasileira, ilustram aspectos do modo de vida da época no que se refere à cultura, à comunicação, à vida doméstica e a hábitos de higiene. Nas aulas da professora Marcia Marcatto, eles serviram de inspiração para um trabalho de análise da sociedade da época. "Meu objetivo era trabalhar com aspectos econômicos, sociais, políticos e culturais. Assim, tratei de vários temas, como a imigração europeia", diz ela.

A análise dos objetos foi intercalada a situações de leitura, discussão e sistematização das ideias. As crianças leram trechos selecionados do livro didático História de Petrópolis (Maria Inez do Espírito Santo, 110 págs., Ed. Arteg, tel. 21/95387485, 35 reais) e textos elaborados pelo Setor de Educação do Museu Imperial (disponíveis em abr.io/texto1, abr.io/texto2 e abr.io/texto3). Nesses momentos, Marcia complementava a leitura dos estudantes com novos dados. Durante uma atividade, ela exibiu um mapa de Portugal e um do Brasil, indicando o percurso que a família real fez ao deixar seu país natal, fugindo de guerras, para se estabelecer no Rio de Janeiro, que se tornou a capital da coroa. Depois, Petrópolis se tornou a residência de verão oficial do imperador. "Meu objetivo era fazer a garotada analisar o micro e o macrocontexto e entender como o contexto internacional influenciou o local", diz.

O próximo passo foi uma preparação para a visita ao Museu Imperial. A professora, que já conhecia bem a instituição, explicou que alguns objetos do acervo seriam analisados. Para que todos pudessem fazer uma visita virtual prévia, levou seu netbook para a classe. Outras ferramentas disponíveis no site podem ser utilizadas, como a de ambiente 360°, que permite visualizar as diversas salas do museu, ampliar e diminuir imagens, girá-las para a direita e a esquerda e para cima e para baixo, além de ouvir sons.

Na visita, a garotada descobriu mais detalhes sobre as peças em exibição, como a locomotiva Baroneza, da estrada de ferro de Petrópolis, a primeira do Brasil. A monitora da instituição e a professora convidaram a meninada a imaginar a vida das pessoas que utilizavam tais objetos, lançando perguntas como: "Para que serviam?", "De que maneira eram usados?", "Por quem?", "Ainda têm a mesma utilidade nos dias de hoje?", "O que mudou?" e "O que permanece da mesma forma?". "No museu ou pela internet, o recomendado é confrontar esse passado ao Brasil atual", diz Regina Helena de Castro Resende, responsável pelo Setor de Educação do Museu Imperial.

A professora explicou que instrumentos musicais como a espineta eram tocados nos saraus que a família imperial organizava e que esse tipo de apresentação era uma das manifestações culturais mais comuns do século 19 no país. O costureiro, uma caixa de costura do tamanho de um móvel, despertou a atenção das crianças. "Por que quase toda casa tinha caixa de costura?" "As mulheres trabalhavam fora?" As questões as levaram a entender o papel das tarefas domésticas na ocupação da mulher no período.

Despertou a curiosidade dos estudantes também o assento higiênico - ou comua, como era chamado na época o vaso sanitário. Eles descobriram que o artefato ocupava a área externa das casas por exigência dos órgãos de saúde pública, pois não havia tratamento de esgoto. Já o telefone, que hoje ocupa uma mesa de trabalho, ficava na Fazenda Imperial Santa Cruz e servia para a comunicação com o Palácio de São Cristóvão.

De volta à sala de aula, Marcia propôs registrar a experiência com uma pesquisa em livros e na internet sobre a estrada de ferro de Petrópolis. A turma foi dividida em grupos, que depois contaram à classe o resultado de suas descobertas. A professora indicou fontes confiáveis e informou que a ferrovia transportava café e outros bens, produzidos pela mão de obra imigrante, que na época começava a substituir a escrava no país. Por fim, ela expôs os trabalhos no mural da sala. Outras atividades, como debates seguidos de produção textual, podem ser usadas para sistematizar o resultado das descobertas da meninada.

Um olhar sobre as crianças do Império

Em Araucária, região metropolitana de Curitiba, a professora Aparecida Sigolo, da EM Elvira de França Buschmann, começou contando aos alunos do 5º ano sua própria história de vida. Em seguida, os convidou a fazer o mesmo. O objetivo era mostrar que todos os indivíduos são sujeitos históricos. Um dos estudantes compartilhou relatos sobre trabalho infantil e falta de escola que surpreenderam os demais. A docente usou o episódio para discutir a prática na atualidade. Ela questionou a garotada: "Hoje achamos que criança precisa estudar, não trabalhar. Sempre foi assim? Vamos descobrir?" O passo seguinte foi o estudo das crianças que viveram no Império.

Imagens antigas e textos dos livros Agora É Hora - Eu Conto a História (Ana Claudia Urban e Maria Auxiliadora Schmidt, 192 págs., Ed. Base, tel. 41/3264-4114, 62 reais) e História das Crianças no Brasil (Mary del Priore [org.], 450 págs., Ed. Contexto, tel. 11/3832-5838, 65 reais) foram lidos. A garotada conheceu, entre outros pontos, a Lei do Ventre Livre (1871) e suas consequências, como o aumento do número de crianças abandonadas. Entre uma leitura e outra, Aparecida perguntava: "Vamos comparar os dados que os textos nos trazem?", "O que permanece igual?" e "O que mudou?". A turma lembrou que ainda existem crianças de rua (leia no quadro abaixo outra forma de estabelecer uma relação com o presente).

Esse recorte permite outras abordagens. É possível estudar a história das crianças de elite, como Pedro II (1825-1891), coroado imperador do Brasil aos 15 anos, dos menores enviados para a Guerra do Paraguai (1864-1870) e dos pequenos imigrantes que acompanharam os pais rumo ao Novo Mundo. "É possível perguntar como eram os pequenos que viviam naquele tempo e sempre oferecer leituras que levem a turma a descobrir mais dados", diz Maria Auxiliadora Schmidt, professora de Metodologia do Ensino de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Aparecida optou por essa alternativa, propondo uma pesquisa com familiares sobre sua origem e infância - como muitas outras cidades do país, Araucária recebeu imigrantes europeus durante o século 19. Em seguida, as entrevistas foram analisadas.

Independentemente do recorte ou do tipo de abordagem, a meninada vai voltar desse mergulho no passado conhecendo o Brasil imperial e olhando o presente com um olhar mais sensível.

Uma nova história

A exumação do corpo de Pedro I (1798-1834)colocou o Brasil imperial na ordem do dia. É possível problematizar o tema, indicando reportagens sobre o episódio. Vale perguntar: "Como vocês acham que o Brasil era na época em que tínhamos rei?" Para Juliano Custódio Sobrinho, professor de História da Universidade Nove de Julho (Uninove), a descoberta reforça a importância de estimular a turma a confrontar dados e levá-la a entender que o passado está sujeito à interpretação e à revisão constante.

1 História do cotidiano Convide a turma a olhar os objetos desta página e das próximas. Eles são a base para uma análise do modo de vida da época. Apresente os recursos virtuais do site do Museu Imperial.

2 Informação complementar Forneça textos informativos para os alunos conhecerem mais sobre aspectos do período, como a cultura e a vida doméstica. Proponha uma discussão sobre as descobertas da classe.

3 Mais dados na história oral Peça que as crianças entrevistem seus familiares para obter mais conhecimentos sobre temas do período, como a imigração europeia. Proponha um estudo sobre a infância da época.

4 Sistematizar é preciso Proponha um debate, comparando as descobertas ao Brasil atual. Sugira a produção de um texto individual ou coletivo para reunir as conclusões desse estudo histórico.

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