Bens culturais locais como fonte de informação

Estudantes aprendem sobre o município onde vivem por meio do estudo do patrimônio local

POR:
NOVA ESCOLA, Fernanda Salla, Larissa Teixeira
Diante do busto de Hatiro Fukuhara, os alunos fizeram registros do que observaram. Rafael Araújo Diante do busto de Hatiro Fukuhara, os alunos fizeram registros do que observaram A turma analisou objetos e imagens sobre os imigrantes na Associação Cultural. Rafael Araújo A turma analisou objetos e imagens sobre os imigrantes na Associação Cultural O flho de imigrantes japoneses Mauro Jun Matsuzaki foi entrevistado pela turma. Rafael Araújo O flho de imigrantes japoneses Mauro Jun Matsuzaki foi entrevistado pela turma

A falta de registros oficiais que documentassem a trajetória de Tomé-Açu, a 208 quilômetros de Belém, não impediu que os alunos do 5º ano da EMEF Doutor Fernando Guilhon aprendessem sobre a história local. Com a orientação da professora Maria do Socorro Mendes Pereira, a turma deu início a uma investigação sobre a formação e o desenvolvimento da cidade, que incluiu etapas de análise da paisagem e entrevistas com personagens importantes. Além de valorizar a cultura do município - que tem apenas 54 anos de existência - e conhecê-lo melhor, o objetivo era incentivar a pesquisa, utilizando o patrimônio cultural como objeto de estudo.

Como as crianças não conheciam o tema, Maria do Socorro realizou com elas uma leitura coletiva do texto O Homem e o Patrimônio Cultural, escrito pelo historiador Carlos Henrique Rangel. "Com a atividade, a turma compreendeu que tudo o que as pessoas produzem em uma localidade ao longo do tempo é o patrimônio", diz a educadora. Juliano Custódio Sobrinho, da Universidade Nove de Julho (Uninove), enfatiza que isso vai além do que é possível ver e é necessário mostrar para os estudantes que as memórias das pessoas também fazem parte da história.

O passo seguinte foi aproximar a garotada dos procedimentos investigativos. Para isso, a turma leu em conjunto trechos da obra Pesquisa na Escola, o Que É e Como Se Faz (Marcos Bagno, 35 págs., Ed. Loyola, tel. 11/3385-8500, 12,28 reais) e discutiu conceitos como a importância da pesquisa e como organizá-la. "Uma das funções da Educação escolar é familiarizar o aluno com o pensamento científico", diz Mauro Cezar Coelho, da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Desafiados a ampliar a percepção sobre a paisagem do lugar, os estudantes foram a campo. Segundo Maria do Socorro, eles questionaram o que poderiam ver de novo na cidade, que já é conhecida de todos. Ela explicou que, às vezes, é importante enxergar as coisas com olhos de pesquisador para notar detalhes que passam despercebidos no dia a dia. "Os alunos não sabem ler e analisar objetos. É necessário dar a eles os instrumentos que possibilitam isso. Para utilizar e observar um bem cultural e dar sentido a ele, é preciso procedimento científico", afirma Ivo Mattozzi, professor de Didática da História e História Moderna da Universidade de Bolonha, na Itália.

Na rua principal de Tomé-Açu, a garotada observou os bustos de Yamaji Muto, que enviou a primeira missão japonesa para a região, e Hatiro Fukuhara, presidente da Companhia Nipônica de Plantação e criador da colônia oriental no município. Com um caderno em mãos, as crianças anotaram as informações das placas de identificação, que relatavam a chegada dos imigrantes em 1926, à procura de áreas onde pudessem instalar colônias agrícolas. Nessa década, o Japão passava por uma grave crise econômica e o governo do Pará, vendo o êxito da imigração no sudeste, doou terras para incentivar a vinda dos japoneses para o estado e fomentar a agricultura.

Ao retornar para a sala de aula, a turma discutiu sobre o que viu. "As experiências concretas das crianças, vivenciadas em seu cotidiano, contribuem para a formação de sua visão de mundo. Por isso, a história local é um dos aportes apropriados para trabalhar a consciência histórica delas", afirma Coelho.

Entrevistas e pesquisas na família

Em seguida, os estudantes levantaram com seus familiares quem foram as personalidades marcantes da trajetória local para compartilharem, em classe, o que descobriram. Entre elas, estava o escritor Akira Nagai, autor de um jornal artesanal. A professora também lembrou de Edgar Campos de Oliveira, um dos políticos mais antigos, e Austriclinio Viana Mendes, um dos primeiros a trabalhar na produção de pimenta- -do-reino, no período em que a especiaria era o ponto forte da economia da região. Ela convidou, então, essas duas figuras que fizeram parte de momentos significativos da história recente do município para que fossem entrevistadas pelos estudantes na escola.

Oliveira falou sobre a luta da então vila de São Tomé para se separar da cidade de Acará, o que ocorreu em 1959. Mendes tratou das dificuldades de adaptação cultural com os japoneses e sobre como, depois da Segunda Guerra Mundial, a cidade se transformou na maior produtora mundial de pimenta-do-reino. "É interessante trabalhar com a turma como se deve fazer entrevistas, pois isso também faz parte das aprendizagens da área. Vale a pena preparar um roteiro de perguntas junto com os alunos", diz Sobrinho.

As crianças também utilizaram como fonte de pesquisa o jornal confeccionado por Nagai, que reúne informações históricas da cidade, e puderam aprofundar aquilo que tinham ouvido dos entrevistados. Para colher dados sobre os costumes da região, como as festividades típicas, a turma foi até a Associação Cultural de Tomé-Açu, onde também se encontra um pequeno museu com objetos e textos que contam sobre a chegada dos imigrantes, e conversaram com descendentes dos japoneses. Eles disseram que a Festa da Imigração Japonesa é uma das mais importantes da cidade, ao lado do aniversário do município.

Todo o trabalho dos alunos foi reunido em um livro, produzido por eles coletivamente, com os dados levantados durante a investigação. Depois de compartilhar seus registros, eles elegeram as informações mais relevantes e elaboraram os textos. Em conjunto, as próprias crianças revisaram o material e sugeriram alterações de gramática e ortografia para a versão final, digitada pela professora. A obra foi disponibilizada na biblioteca da escola e enviada tanto para a Secretaria Municipal de Educação quanto para a biblioteca pública local. Além de se apropriar dos procedimentos de pesquisa, a turma conheceu melhor o lugar onde vive e a importância de preservá-lo para as gerações futuras.

1 Introdução ao bem cultural Aproxime os alunos do conceito de patrimônio com escritos sobre o tema. Debata o que faz parte dele. Leve à sala textos sobre metodologia de pesquisa e leia de forma coletiva. Discuta a importância da observação e do registro.

2 Trabalho de campo Leve as crianças para analisar os bens culturais da cidade, que podem incluir museus e estátuas. Diga o que observar e oriente-as para que registrem o que viram. De volta à sala, socialize as anotações de todos.

3 Entrevistas e pesquisas Peça que todos levantem com a família quem foram as pessoas importantes para a cidade e convide uma delas para uma entrevista. Prepare um roteiro de perguntas com a turma. Confronte os relatos do convidado com outras fontes.

4 Organização dos dados Promova a socialização dos registros feitos durante o processo investigativo e organize um texto coletivo com as informações mais relevantes. Faça junto com os estudantes a revisão do material produzido por eles.

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