Basquete não é só bola na cesta

Passe e marcação fazem parte do esporte e devem ser ensinados em situações de jogo

POR:
Beatriz Santomauro
No momento de montar as equipes, a prioridade foi garantir o equilíbrio. Anderson Astor No momento de montar as equipes, a prioridade foi garantir o equilíbrio Um arco substituiu a cesta para não se descaracterizar o jogo em grupos menores. Anderson Astor Um arco substituiu a cesta para não se descaracterizar o jogo em grupos menores Com os alunos em times pequenos, o contato de cada um com a bola era maior. Anderson Astor Com os alunos em times pequenos, o contato de cada um com a bola era maior

O basquete é um campo rico em experiências corporais, pois envolve movimentos variados, como quicar a bola, lançar à cesta, fazer o passe e se esquivar da marcação. Mas, para que essa prática, comum nas escolas, resulte em aprendizado para todos, é preciso abandonar o trabalho centrado apenas na técnica. "Devemos fugir das aulas que selecionam os melhores e marginalizam os com menos habilidade", diz Adriano Rosseto, docente do curso de Educação Física Escolar do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (Uni-FMU).

Essa foi uma das principais preocupações de Simone Spotorno, professora de Educação Física da EMEF Frederico Ernesto Buchholz, em Rio Grande, a 312 quilômetros de Porto Alegre, que trabalhou o esporte com o 5º ano. A fim de que todos aprimorassem o desempenho, ela lançou mão de times mistos, espaços diferentes, bolas mais leves e cestas mais baixas.

Para diagnosticar o que os estudantes sabiam sobre o esporte, a educadora propôs um questionário sobre o funcionamento do basquete e, em seguida, pediu que eles executassem gestos típicos da modalidade, como passar a bola um para o outro, enquanto ela observava. Simone notou que 95% das crianças não sabia realizar o movimento convencionalmente, faltando mira, força e rapidez. A sondagem escrita também deixou clara a falta de conhecimento sobre as regras.

Com base nisso, a professora elaborou atividades que as desafiassem a fazer o passe de peito e sua recepção, a lidar com o peso da bola e com a força necessária para lançá-la e a aprender as regras do esporte. Tudo foi trabalhado no contexto de jogo. "Numa situação real, são exigidas desenvoltura com a bola, rapidez e capacidade de antecipação, o que não ocorre quando as habilidades são trabalhadas isoladamente."

Toda aula começava com uma roda de conversa, em que Simone dava orientações sobre o planejamento do dia. Antes de entrar em quadra, ela passou as regras: não se pode andar com a bola em mãos sem batê-la no chão; se ela for jogada para fora da quadra, a posse é do adversário; e ela deve ser passada para outra pessoa quando o jogador parar de batê-la. Esses e outros fundamentos foram reforçados durante os jogos.

Na quadra da escola, a docente propôs que as crianças jogassem seguindo as normas dadas anteriormente. Para garantir o equilíbrio das equipes, a escolha dos times era feita por ela. Enquanto parte da turma jogava, os demais alunos observavam os colegas em ação. "As crianças já conseguem fazer análises interessantes dos jogos. Elas podem anotar se a participação de todos está sendo garantida, os erros e acertos, como está sendo feito o deslocamento do time em quadra, entre outros indicadores que as ajudam a refletir sobre sua prática e melhorar a forma de jogar", diz Fabio D’Angelo, coordenador do Instituto Esporte Educação.

Em outra proposta, Simone dividiu a quadra em quatro partes e formou times. Bambolês presos às redes do gol do futebol funcionaram como cestas baixas. Cada grupo tinha de fazer cinco passes de peito entre os membros da equipe sem deixar os adversários roubarem a bola. Para isso, era essencial caprichar na mira e na força enquanto os oponentes focavam na marcação.

A professora também deu desafios condizentes ao que cada grupo dominava ou precisava consolidar, como indicar que os times mais fortes fizessem dez passes em vez de cinco, como os demais. Em outra partida, todos os 24 alunos da turma jogaram juntos. Divididos em dois times, cada criança ocupava uma área da quadra. A proposta era passar a bola para um grande número de jogadores até fazer o ponto.

Mesmo que as crianças não estejam familiarizadas com o basquete ou que sejam ainda pequenas e fracas para lançar a bola ao alto, o arremesso à cesta não pode ser deixado de lado. Afinal, sem isso, o esporte fica descaracterizado. Para trabalhar essa questão, a quadra foi dividida ao meio, com dois times de seis participantes em cada lado. Dessa forma, as crianças não corriam tanto, podendo usar a energia para executar o passe de bola e mirar na cesta oficial.

Segundo D’Angelo, é possível incentivar a turma a fazer tentativas de arremesso de diferentes distâncias, adaptar o alvo usando arcos de vários tamanhos e, se a estrutura da cesta permitir, regular a altura para que fique mais baixa.

Rosseto destaca que entre as aprendizagens propiciadas pelos esportes com bola estão as habilidades motoras de manipulação, que exigem o manuseio e o controle do material para a execução e o sucesso delas. Por isso é importante assegurar às crianças o acesso a ele. "Não adianta querer ensinar basquete utilizando uma única bola para 30 alunos. Na falta de algo específico, podem ser usadas bolas de vôlei, plástico, futebol, borracha e outras", explica. A ideia de buscar alternativas para a cesta também vale, caso não haja o equipamento na escola.

Relacionamento em quadra e inclusão

Outro cuidado da professora foi que as crianças se relacionassem bem mesmo diante do estresse da competição e dos acertos e erros dos colegas. Por isso, ao fim de cada partida, era realizado um bate-papo para sistematizar o que funcionou em relação às regras, discutir estratégias e jogadas e resolver conflitos que surgiram em quadra. "Não basta propor um jogo e achar que todos vão saber trabalhar em equipe, cooperar e conhecer e respeitar regras de imediato", afirma Simone.

Os dois alunos com deficiência participaram de tudo. A docente diz que procurou ficar de frente para o garoto surdo para que ele lesse os lábios dela. Já com a menina sem mobilidade em uma mão, diz que pensavam juntas a melhor forma de realizar os movimentos. Na hora de fazer o passe, por exemplo, ela usava uma mão só.

Para avaliar os estudantes, ela retomou as anotações do diagnóstico, fez registros durante o processo e organizou em uma tabela o que cada um já sabia e o que precisava aprender. "Os alunos têm tempos diferentes de aprendizado e não posso esperar um mesmo resultado de todos. Quem tem um passe fraco no início do trabalho mas se esforça e chega ao fim com alguma desenvoltura, para mim já é nota 10."

1 Diagnóstico e registro Converse com os alunos sobre o esporte e peça que anotem o que já sabem. Entregue bolas e solicite que façam movimentos próprios do jogo, como passes e cestas. Observe e registre tudo.

2 Organização dos jogos Proponha partidas variadas: com mais e menos espaço de quadra, bolas de diversos tamanhos e adaptações da cesta. As experiências devem possibilitar o aprendizado de todos em situação de jogo.

3 Retomada da evolução Atualize regularmente os registros feitos no diagnóstico inicial, incluindo a evolução e a dificuldade das crianças nos variados desafios. Ao fim do processo, avalie o que já sabem e que aprendizagens precisam ser adquiridas.

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