Viajar para estudar

Cursos no exterior possibilitam ter contato com novas metodologias para depois experimentá-las

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Júlia de Medeiros
Cursos no exterior possibilitam ter contato com novas metodologias para depois experimentá-las. Ilustração: Alice Vasconcellos

Visitar outro país é sempre muito bom. Imagine, então, se você puder aliar o turismo a uma temporada de estudos. Para muitos professores - como as duas que são citadas nesta reportagem -, essa combinação virou realidade em cursos que complementam a formação, apresentam metodologias inovadoras ou abordam outros temas de interesse profissional.

Antes de embarcar, porém, vários aspectos precisam ser considerados. Afinal, uma viagem desse tipo comumente requer um investimento considerável de tempo e dinheiro. Bernardete Gatti, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas (FCC), lembra que o idioma é um dos grandes obstáculos para quem pretende estudar em outro país. "Muitas vezes, mesmo com tradução simultânea, o docente não aproveita todo o potencial do curso por não falar a língua", destaca. Portanto, essa deve ser a primeira preocupação de quem busca um aperfeiçoamento fora do Brasil.

O currículo e o plano de aulas, é claro, também devem ser muito bem analisados antes dessa importante escolha. Eles precisam ser focados nas áreas que mais despertam o seu interesse. Além disso, é importante observar se é contemplado algum tipo de atividade prática, como visitas a escolas locais. Em alguns programas, o professor visitante até tem a chance de lecionar. "Experiências como essas dão ao educador a oportunidade de verificar tudo o que aprendeu nas aulas. Isso facilita bastante o processo de aproveitamento do conteúdo estudado no dia a dia com os alunos, na volta para casa", diz Bernardete.

Apoio a quem viaja ainda é pequeno

Infelizmente, são poucas as redes de ensino que oferecem incentivos e licenças para quem se interessa por ampliar seu conhecimento com pós-graduações e outros cursos feitos no exterior. Paraná, Goiás e São Paulo são algumas exceções. É necessário, porém, preencher vários pré-requisitos para ter direito à oportunidade, como estar há um tempo mínimo no cargo e escolher uma iniciativa reconhecida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Sem garantias de promoção, o maior ganho com essas viagens é o conhecimento adquirido. "Buscar programas internacionais é acreditar que a Educação é um processo contínuo e que necessita de aperfeiçoamento e reflexão constantes", ressalta Telma Holanda, cofundadora da Diálogos Viagens Pedagógicas.

O Ministério da Educação (MEC) oferece, por meio da Capes, bolsa integral para quem quer estudar fora. Passagens, hospedagem, seguro-saúde e um auxílio para outros gastos são cedidos pelo governo. As bolsas para mestrado e doutorado sanduíche - em que parte do curso acontece em uma universidade estrangeira - são as mais comuns. Para concorrer, é preciso estar matriculado em uma instituição brasileira e submeter um projeto para avaliação.

Quem ainda está na graduação também pode pleitear auxílio financeiro para realizar parte do curso em outro país. Há, ainda, o Programa de Licenciatura Internacional (PLI), que tem duração de até dois anos e ênfase no Ensino Fundamental e no Médio. Nesse caso, o intercâmbio acontece exclusivamente em instituições portuguesas e francesas e o foco está na formação inicial de professores de Química, Física, Matemática, Biologia, Língua Portuguesa, Arte e Educação Física. Em 2012, 64 brasileiros participaram.

Para os docentes de Língua Estrangeira, existe ainda mais chance de conseguir uma bolsa de estudos. Só este ano, mais de mil deles, que trabalham na rede pública, participarão da terceira edição do Programa de Aperfeiçoamento para Professores de Língua Inglesa nos Estados Unidos (PDPI, sigla em inglês). A iniciativa é fruto de uma parceria da Capes com a embaixada americana no Brasil e a Comissão Fullbright. O Instituto de Educação da Universidade de Londres, na Inglaterra, também oferece algo semelhante, focado em metodologias de ensino de inglês.

Na creche dos hermanos

Arquivo pessoal Arquivo pessoal Arquivo pessoal

"Fiz um curso de apenas três dias no Jardin de Infantes Fabulinos, em Buenos Aires. Minha coordenadora, que já havia ido para lá, me selecionou. Fui com as despesas pagas pela escola e com o objetivo de conhecer os princípios aplicados nessa instituição, que preza pela escuta e pelo respeito ao trabalho das crianças. Foram dias de muita troca com as educadoras argentinas e suas crianças. Pude assistir a algumas aulas e acompanhar a interação dos pequenos nas diversas áreas temáticas existentes. O aprendizado que tive lá mudou minha forma de planejar as aulas. Passei a dar mais importância à organização de espaços diferentes e à busca de materiais para atingir os objetivos educacionais. Também notei várias possibilidades para que a turma se sentisse desafiada."

Kelly Coelho da Silva, professora de Educação Infantil da Escola Abc e Cia, em São Paulo

Pagando do próprio bolso

Também há diversos cursos pagos, em que o professor ou a escola em que ele atua arca com os custos. São viagens mais focadas, organizadas por centros de formação, como o da Escola da Vila, em São Paulo, que, no ano passado, levou 26 educadores para Barcelona, na Espanha, para estudar as novas tecnologias. Este ano, a viagem foi para o Canadá, com foco no mesmo tema. Cada pacote custa em média 8 mil reais e contempla palestras, visitas a escolas e um pouco de turismo, afinal isso também enriquece a experiência.

A cidade italiana Reggio Emilia, referência mundial na Educação Infantil, recebe professores de vários lugares interessados em conhecer a proposta do município. Os programas, organizados pela empresa Reggio Children, funcionam como uma espécie de congresso com duração de cinco dias e incluem visitas a escolas locais. A inscrição custa cerca de 3,2 mil reais. Outra opção para conhecer os princípios e as metodologias reggianas é buscar a Red Solare, uma instituição argentina que tem o objetivo de difundi-los na América Latina. Ela organiza workshops com visitas a escolas na Argentina e na Itália.

Para quem não fala outro idioma, a experiência em um país de língua portuguesa é uma boa opção. Portugal, Angola e Moçambique oferecem oportunidades para brasileiros. Então, é só definir os objetivos, encontrar o curso certo, conquistar a bolsa e a licença... Ufa! E fazer as malas, claro.

Intercâmbio com os States

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"Participei, no ano passado, do International Leadership in Education Program (Ilep). Assisti a aulas na Kent University, no estado de Ohio, nos Estados Unidos, com uma bolsa que durou cinco meses. Estudei Metodologia do Ensino, Tecnologias na Sala de Aula e Educação Multicultural. Também fui a congressos, tive encontros com educadores do mundo todo e dei aulas em algumas escolas. Nesse momento prático, o contato com os alunos do 6º ano ao Ensino Médio foi valioso. Tive a oportunidade de falar sobre a nossa cultura com eles e promovi debates sobre obras de escritores brasileiros como Carlos Drummond de Andrade. Agora, dois professores de lá virão para Nova Campina fazer um estágio e conhecer mais sobre o trabalho que eu e meus colegas realizamos."

Ivanete Ladim, professora de Língua Estrangeira da EMEF Professor Ary Antunes de Moura, em Nova Campina, a 300 quilômetros de São Paulo

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