Aprender com a turma

Docentes contam como a observação e a escuta da garotada permitiram construir novos conhecimentos

POR:
Bruna Nicolielo
Mariana reconheceu o valor do uso intencional de objetos diversos na creche. Marcelo Almeida. Ilustração Elisa Carareto Mariana reconheceu o valor do uso intencional de objetos diversos na creche Maria Cristina entendeu que a escrita dos alunos dá indícios sobre como intervir. Sonia Vicentin. Ilustração Elisa Carareto Maria Cristina entendeu que a escrita dos alunos dá indícios sobre como intervir Pereira passou a estudar e a valorizar a forma de os estudantes resolverem as contas. Ivan Amorin. Ilustração Elisa Carareto Pereira passou a estudar e a valorizar a forma de os estudantes resolverem as contas

Observar a classe e estudar a teoria, estabelecendo relações, é fundamental para aprimorar o trabalho em sala. "Essa prática torna observáveis informações que até então passavam despercebidas e permite fazer generalizações, úteis em outras situações", diz Zilma de Oliveira, consultora da área de Educação e professora aposentada da Universidade de São Paulo (USP). Tal estratégia, que está ao alcance de qualquer professor, serviu de procedimento de pesquisa para importantes pensadores do ensino. Jean Piaget (1896-1980), por exemplo, relatou as análises que fez dos dois primeiros anos dos filhos Jacqueline, Lucienne e Laurent em livros como A Formação do Símbolo na Criança: Imitação, Jogo e Sonho, Imagem e Representação (340 págs., Ed. LCT, tel. 11/5080-0770, 85 reais). Essas informações levaram o psicólogo suíço a descrever a fase até os 3 anos como sensório- motora, em que conhecemos o mundo por meio dos sentidos.

As leituras desse autor foram fundamentais para a educadora Mariana Coral propor o contato com elementos visuais, sonoros, olfativos e táteis à sua turma, composta de crianças com idades entre 3 meses e 1 ano, na CEI Luiza Maria da Veiga, em Joinville, a 186 quilômetros de Florianópolis. Numa atividade com tintas, ela se surpreendeu ao ver que os bebês, que nem sequer se movimentavam, interagiam com o material de diversas maneiras: olhavam, tocavam, cheiravam, punham na boca, lambiam e faziam caretas, derrubavam, colocavam em seu próprio corpo e por aí vai. "Com base nessa observação e nas leituras, constatei que eles se desenvolvem em múltiplas linguagens, mesmo tão pequenos, e reconheci o valor da exploração nessa faixa etária", relembra. Desde então, ela trabalha com materiais de forma muito mais intencional, planejando propostas com diferentes objetos, como chocalhos, tintas comestíveis e celofane, entre outros. Assim, os pequenos aprendem experimentando diversas sensações, com pesos, texturas, temperaturas, formas etc... "Os bebês pensam com as mãos, ‘falam’ por meio de gestos, do olhar e do corpo, formulando suas hipóteses com as experiências que lhes são sugeridas", afirma Mariana.

Outra referência importante para ela foi a do educador italiano Loris Malaguzzi (1920-1994), conhecido por valorizar a escuta da garotada. Graças a esses estudos, à reflexão e à pesquisa de referências, Mariana também pôde implementar outras atividades. Uma delas foi inspirada no cesto de tesouros, caixa com diversos materiais criada pela pesquisadora inglesa Elinor Goldschmied (1910-2009), que, aliás, a propôs com base em sua própria observação de crianças pequenas.

Considerar diversas formas de pensar

Há 17 anos trabalhando como alfabetizadora, Maria Cristina Hermenegildo, da EEEFM Carlos Drummond de Andrade, em Presidente Médici, a 412 quilômetros de Porto Velho, aprendeu a articular sua observação e seus estudos para ensinar cada vez melhor. A experiência mais marcante foi ver pela primeira vez um estudante que escrevia as palavras só com vogais. "Eu pensava, aflita: ‘E agora? Ele está engolindo as letras, então não aprendeu nada!’ Na verdade, eu desconhecia as hipóteses de escrita", relembra.

Ela levou o caso do menino à coordenação pedagógica. Também foi conhecer o trabalho da psicolinguista argentina Emilia Ferreiro e estudou o livro Psicogênese da Língua Escrita (Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, 300 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 57 reais), em que as conversas sobre a escrita das autoras com crianças estão sistematizadas e analisadas. Assim, ela descobriu que o garoto estava na hipótese silábica com valor sonoro (que representa cada sílaba por uma letra que expressa o som correspondente). Tudo isso a ajudou a pensar em intervenções específicas para esse aluno e, depois, para outros que apresentavam produções semelhantes. Do episódio, ficou uma lição: é preciso levar o pensamento infantil a sério. "As crianças são muito observadoras, capazes de estabelecer as relações mais surpreendentes. Aprendi a considerar isso, intervir de maneira adequada e respeitar o tempo de cada uma", completa. Ela não parou mais de estudar. "Com os cursos de formação continuada e reflexões sobre as pesquisas, pude me aprofundar", diz a docente.

Ademir Pereira Júnior, professor de Matemática do CE Adaile Maria Leite, em Maringá, a 423 quilômetros de Curitiba, também tem histórias sobre as expressões do pensamento da garotada. Em uma sala de 6º ano, ele propôs a resolução de vários problemas, entre eles um cálculo do tipo 1.000 - 234, ou seja, uma situação em que o minuendo terminava em zeros. Pereira reparou que um dos estudantes tinha acertado esse tipo de conta sem deixar marcas de "empréstimos" ou qualquer outro recurso. Na época, ele participava de um grupo de estudos em Educação Matemática da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e lia os textos do livro Didática da Matemática - Reflexões Psicopedagógicas (Cecilia Parra e Irma Saiz, 258 págs., Ed. Artmed, 60 reais), o que o levou a questionar o garoto, de 11 anos, sobre sua estratégia. O menino falou baixinho, como se contasse um segredo: "Em vez de calcular 1.000 menos 234, faço 999 menos 234, porque é mais fácil. Daí eu acrescento 1 e escrevo a resposta".

O episódio marcou Pereira, que começou a estimular a turma a explicitar seus procedimentos de cálculo, valorizar formas inusitadas de resolver problemas e elaborar portfólios para registrar o percurso de cada adolescente. "Passei a ver o aluno como sujeito ativo e a estudar mais. Nosso olhar só se modifica quando pesquisamos, documentamos e relacionamos teoria e prática", diz.

A história do docente lembra um episódio vivido cerca de 30 anos atrás por Célia Maria Carolino Pires, hoje professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Em uma formação que ela ministrava, uma professora da então 4ª série contou o caso de um menino que tinha uma estratégia parecida e perguntou a ela qual era a melhor forma de ensinar o algoritmo desse tipo de cálculo. Célia propôs que conversassem com o estudante, que admitiu fazer uma "conta escondida" e quis saber se a professora não ia "brigar com ele". "Ficamos surpresas e encantadas. Mesmo assim, a docente ainda me perguntou se podia aceitar esse jeito de fazer", relembra. Naquele momento, pouco se discutia o valor dos procedimentos pessoais de cálculo e a importância de compartilhá-los. "Esses dois episódios mostram como é fundamental incentivar nossos alunos a pensar nas aulas de Matemática", afirma.

Desde aquela época, Célia estuda os procedimentos pessoais e discute o assunto em formações e na universidade, apoiada por especialistas como o francês Gérard Vergnaud, cuja descoberta mais importante é a Teoria dos Campos Conceituais, que ajuda a entender como as crianças constroem os conhecimentos e foi elaborada com base em observações do autor sobre a prática.

Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias