Pisa 2015: O que a avaliação indica para a sua aula?

Resultados apontam onde estão as falhas de aprendizado e quais estratégias podem ajudar a saná-las

POR:
Wellington Soares, Anna Rachel Ferreira

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2015, cujos resultados foram divulgados no dia 6 de dezembro, indica que os estudantes brasileiros se saem melhor em perguntas que são mais próximas do cotidiano deles. São questões que trazem textos pessoais em Leitura, cálculos com dinheiro em Matemática e a explicação de fenômenos em Ciências. “No Pisa, verifica-se se os alunos conseguem ler o que está nas linhas, entre as linhas e além das linhas. Nosso ensino, quando consegue, só faz a primeira delas”, aponta José Francisco Soares, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Como resultado, apenas 6% dos jovens do país conseguiram atingir os níveis considerados adequados em todas as áreas.

O relatório divulgado pelo Inep -- responsável pela aplicação da prova no país -- dá pistas que podem auxiliar o professor a avaliar o trabalho desenvolvido durante 2016 e iniciar o planejamento do próximo período letivo. “Os dados servem para motivar as atividades diagnósticas de início de semestre ou até para rever a maneira como a escola organiza seu currículo”, sugere Mônica Mandarino, pesquisadora da Fundação Cesgranrio, no Rio de Janeiro, e uma das redatoras da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Especialistas apontam uma necessidade de integração maior entre as áreas e de propor atividades mais desafiadoras aos estudantes. Veja abaixo sugestões para cada uma das áreas.

CIÊNCIAS: ALÉM DA TRANSMISSÃO DE CONTEÚDOS

O que estamos fazendo: As questões em que os alunos apresentam maior facilidade são aquelas em que apenas precisam explicar os fenômenos científicos. “É mais fácil reproduzirem uma explicação dada pelo professor do que lidar com situações-problema e imaginar novas maneiras de resolvê-las”, diz Inês Kisil Miskalo, gerente executiva de Educação do Instituto Ayrton Senna e formadora de professores em Ciências. “Quando o jovem tem a necessidade de analisar algo em outro contexto, não consegue. Quer dizer que ele não se apropriou do conhecimento”, reforça Luis Carlos de Menezes, professor da Universidade de São Paulo (USP) e assessor da BNCC.

O que precisa mudar: Mais do que apenas explicar como um fenômeno ocorre, é preciso desafiar os estudantes a buscar explicações. “A turma precisa formular hipóteses, pensar em como prová-las e aí fazer os procedimentos necessários”, defende Inês. Sequências didáticas em que o professor apresenta uma questão ou um problema (“Por que chove?”, por exemplo) e permite que os alunos encontrem as respostas -- com o uso de procedimentos de pesquisa e de experimentos -- costumam trabalhar todas as habilidades consideradas pela avaliação internacional como fundamentais para o exercício da cidadania. “O docente deve agir como mediador desse processo”, reforça a especialista.

MATEMÁTICA: O DESAFIO DA CONTEXTUALIZAÇÃO

O que estamos fazendo: Os pontos fortes dos brasileiros apontam para uma facilidade com questões de cálculo, sobretudo quando colocadas em situações cotidianas, como as que envolvem dinheiro. Para Mônica Mandarino, é comum que professores enfatizem esses procedimentos justamente porque são mais fáceis de contextualizar. “Há um esforço positivo em tentar tornar a Matemática mais atraente, usando situações do cotidiano, mas outros conteúdos acabam sendo deixados de lado”, afirma.

O que precisa mudar: É necessário garantir que todos os conteúdos previstos estão sendo bem trabalhados, sobretudo os relativos ao eixo de Espaço e Forma (Geometria) -- apontado pelo exame como um dos pontos fracos dos brasileiros. A contextualização também é desafiadora. “É possível tornar as aulas instigantes e motivadoras usando contextos que não são do cotidiano. A própria geometria pode ajudar a ensinar álgebra, por exemplo”, sugere Mônica.

LEITURA: SEM MEDO DO DESAFIO

O que estamos fazendo: Os jovens brasileiros se saem melhor ao lidar com textos de cunho pessoal, como cartas, mensagens instantâneas e blogs, por exemplo. Em textos considerados de “situação pública” pelo Pisa (notas oficiais e relatórios), o desempenho é pior. Uma hipótese é que esse resultado se dê porque esses últimos exigem referências que são mais distantes do cotidiano do aluno. “Essas produções requerem maior abstração. Além disso, usam termos e expressões que pertencem a um contexto específico,  como o meio jurídico no caso de textos oficiais”, diz Rita Jover-Faleiros, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O que precisa mudar: Deve-se aprimorar a seleção dos textos trabalhados em sala. “Muitas vezes, elegemos apenas produções que consideramos mais acessíveis ou com as quais os alunos vão se identificar”, explica Rita. Os textos precisam ser mais desafiadores. Além disso, também é fundamental integrar o trabalho de Língua Portuguesa com produções escritas de outras disciplinas. Documentos oficiais são comumente utilizados na aula de História, assim como informações reunidas em gráficos e tabelas estão presentes em Geografia e Matemática. “Uma fonte trabalhada por outro professor pode ser analisada nas aulas de Português”, propõe a docente.

Veja, também, uma seleção com planos de aula, reportagens e vídeos que podem te ajudar a superar esses desafios.

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