Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Que tal fazer as pazes com as avaliações externas?

POR:
Mara Mansani
O aluno Isaac lê textos produzidos pela turma, no mural da sala de aula
Isaac Yuunoo Silva Murosaki, 8 anos, já desenvolveu habilidades de leitura compatíveis com as expectativas das avaliações para o 3º ano. (Foto: Mariana Pekin)

Estamos a poucos dias de terminar o ano letivo e em muitas escolas pelo Brasil afora, assim como na minha, em Sorocaba (SP), chegou a hora das avaliações externas. Além das nacionais, como a Provinha Brasil para os 2º anos e a Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) para os 3º anos, temos as avaliações das secretarias de Educação estaduais e municipais. Aqui no estado de São Paulo, temos o Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), que avalia turmas de várias etapas da Educação Básica. Em geral, elas avaliam o aprendizado em Língua Portuguesa e Matemática. Em minha escola fizemos na última semana de novembro a ANA e, na semana passada, a prova do Saresp.

Durante muito tempo, alguns professores não aceitavam e nem compreendiam o objetivo dessas avaliações. Havia certa insegurança no ar. Afinal, essas avaliações eram vistas apenas como uma forma de rotular e, depois, de pressionar os docentes. Havia até quem se negasse a dar aulas nos anos que seriam avaliados, para evitar essa situação. Eu mesma me encaixava nesse grupo. Por isso, entendo perfeitamente que muitos se sintam aflitos.

Mas, com a consolidação dessas avaliações e um maior esclarecimento sobre elas, fui perdendo o medo e compreendendo a importância delas na busca da boa qualidade no ensino brasileiro. Vejo que, além de mim, muitos colegas passaram a encarar esse tipo de política como um dos instrumentos de diagnóstico norteador do trabalho pedagógico em sala de aula e na escola como um todo.

Na alfabetização, os resultados da Provinha Brasil e principalmente da ANA são ainda mais relevantes: ao avaliarem a aprendizagem em todo o Brasil, dão um panorama geral sobre a situação das crianças brasileiras. Com base nesses resultados, produzem-se indicadores que mostram se as metas estão sendo alcançadas e se as políticas públicas têm sido eficazes.

Já o Saresp, na disciplina de Língua Portuguesa, é bem exigente e serve como um bom instrumento de diagnóstico, não só da leitura e interpretação, mas principalmente da escrita dos alunos. Só não acho positivas certas comparações entre os números, pois, deslocadas do contexto e de outros aspectos relevantes que ajudam a definir se uma escola é boa, não contribuem em nada para melhorar a qualidade do ensino.

Referências para o dia a dia

Mas, além das notas de cada aluno propriamente ditas, essas avaliações fornecem um outro tipo de material – riquíssimo, diga-se de passagem – que pode ser usado o ano todo como referência para a avaliação processual. São relatórios pedagógicos, matrizes de referência, descritores de habilidades esperadas dos alunos, níveis de proficiência esperados, exemplos de questões, provas comentadas, entre outros subsídios, que vêm junto com a análise do desempenho e os resultados de cada escola.

É claro que os números merecem nossa atenção, mas eu digo a vocês: não percam de vista esses materiais! Sempre leio tudo e uso para o planejamento. Eles são uma baliza para saber se meus alunos estão dentro das expectativas.

Abaixo, dou dois exemplos simples de como utilizo essas referências, e que podem servir de convite para você considerar, daqui para frente, o que as avaliações oferecem. E, claro, os links para você baixar os relatórios.

  • ANA

Nessa avaliação, segundo o relatório de 2013, os examinadores exigem várias habilidades na leitura, como reconhecer a finalidade, localizar informações explícitas e identificar o assunto de um texto.

A partir disso e por meio de atividades diagnósticas, notei que meu aluno Isaac (foto) já tinha desenvolvido todas essas habilidades, mas ainda havia estudantes com dificuldades em identificar o assunto do texto. Então, planejei atividades voltadas para quem precisa desenvolver melhor essa habilidade, mas também envolvi, de alguma forma, a turma toda para que os demais consolidassem a aprendizagem. As novas estratégias incluíram, por exemplo, a ampliação do tempo para as rodas de leitura, atividades de interpretação oral dos textos, entre outras.

Neste link, você encontrará as informações gerais da ANA e as habilidades às quais me referi, na página 19.

  • Saresp

Já no sistema de avaliação estadual, chamam a atenção as habilidades de escrita exigidas. Segundo o Relatório Pedagógico Saresp 2015, espera-se, por exemplo, que o aluno escreva uma parlenda com correspondência sonora alfabética e ortografia regular; reescreva o final de história conhecida garantindo a presença da maioria dos acontecimentos narrados, ou recrie um trecho conhecido, sem comprometer a coerência global do texto; transcreva trechos de diálogos usando pontuação e letras maiúsculas; entre outras.

Com base nessa descrição, pude ver que a maioria de meus alunos escreveram parlendas alfabeticamente e com a ortografia regular. Por outro lado, alguns ainda apresentam dificuldade no uso da pontuação e, ao reescrever um trecho de uma história, acabam esquecendo certos acontecimentos. Isso sinaliza que é preciso intensificar o trabalho nas oficinas de escrita por meio da apresentação de bons modelos textuais, oferecendo oportunidades diferenciadas para que o aluno desenvolva essas habilidades. Propus, então, mais escritas e revisão de textos, de forma coletiva, em duplas e, por fim, individualmente.

O arquivo do relatório, além de provas comentadas, está disponível neste link.

É claro que não trabalhamos para os alunos irem bem nas avaliações e a escola ter bons resultados. Nosso objetivo é oferecer uma Educação de qualidade que leve a aprendizagem de todos. Bons resultados são fruto do trabalho de cada professor e da equipe escolar como um todo. Mas, com certeza, essas avaliações externas são bons norteadores desse caminho!

Um grande abraço a todos e até segunda-feira!

Mara Mansani

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