Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Como foram os encontros entre as escolas da rua em que trabalho

Três instituições que nunca tinham trocado uma experiência sequer, passaram a conversar e se dispuseram a unir forças

POR:
Mara Mansani
O professor Ramon e os alunos da EE Professora Laila Galep Sacker e da Escola Beija-Flor brincando na praça próxima à rua. (Foto: Mara Mansani)

A Rua José Marchi, em Sorocaba (SP), está em transformação. Como contei em outro post, é nessa via que ficam a escola em que leciono, a EE Professora Laila Galep Sacker, e outras duas instituições, a CEI Dolores Culpiam do Amaral e a Escola Beija-Flor, da rede particular. Elas nunca tinham trocado uma experiência sequer, mas, há quatro meses, passaram a conversar e se dispuseram a unir forças para transformar aquela rua em um lugar especial, onde a Educação das nossas crianças extrapole os muros e seja uma preocupação de todos. E já avançamos muito!

É um processo lento, como uma metamorfose. Nós, que não nos falávamos mesmo sendo vizinhos, realizamos nossas primeiras atividades planejadas coletivamente. A minha turma e a das professoras Aline e Rita, da Escola Beija-Flor, todas de 3° ano, trocaram presentes feitos pelas crianças e alinhados a nossas atividades planejadas: desenhos, brinquedos (como as cinco Marias, aqueles saquinhos de areia que jogamos para cima, desafiando a agilidade das mãos), propostas de brincadeiras, dobraduras e uma carta coletiva, contando um pouquinho sobre a classe e perguntando como é a rotina dos novos colegas (vale lembrar que o gênero carta é um conteúdo de aprendizagem previsto para o 3°ano).

Essa troca deixou todos nós ansiosos pelo primeiro encontro, com muita vontade de nos conhecer pessoalmente. Então, marcamos em uma pracinha que também faz parte da nossa rua. E o grande dia chegou!

Aquele passeio na pracinha teve um misto de timidez, alegria e emoção. Brincamos, conversamos e cantamos juntos, animados pelo professor de Música da Beija-Flor, o Ramon. Atividades simples, mas tão envolventes! Foi um dia maravilhoso!

Na praça da Rua José Marchi, em Sorocaba (SP), as crianças sentiram um misto de timidez e emoção ao se verem pela primeira vez. (Foto: Mara Mansani)

Sabe, muitas vezes, penso que nós, professores da escola pública, temos alguns preconceitos em relação às escolas particulares, e vice-versa. Julga-se sem saber os objetivos e as práticas de cada rede, antes de conhecer o que de fato acontece e quem são os profissionais envolvidos. Essa parceria, esse intercâmbio de práticas, só aprimora nosso trabalho! Como foi bom perceber que estamos no mesmo barco, e que temos o mesmo objetivo, de que nossos alunos avancem na aprendizagem e explorem cada vez mais o imenso oceano do conhecimento.

Aliás, a escola Beija-Flor é linda! Tem um grande espaço aberto, com árvores e brinquedos. Percebo que os alunos de lá estão felizes e motivados, reflexo do esforço de uma equipe de profissionais comprometidos. Exemplo disso é uma das coordenadoras pedagógicas, a Samira. Ela é muito presente, organizada e consciente da importância de seu papel no desenvolvimento do trabalho que é feito em sala de aula.

Bom, não paramos por aí! Nos reunimos mais uma vez, mas agora no CEI Dolores Culpiam do Amaral, vizinha de cerca da Laila Galep Sacker, incluindo os alunos da Educação Infantil de lá. Novamente, houve um grande e emocionante encontro com alunos e docentes. Estavam lá o Ramon, a professora Laís, que sonhou comigo esse projeto, a Cristiane, representante da Diretoria de Ensino Estadual, e a coordenadora Samira.

Quando entrei na escola, fiquei impressionada com os grandes espaços que ela possui. Nem imaginava o que havia lá dentro! A instituição, que é municipal, tem uma sede linda, ampla, com horta, jardim, brinquedos ao ar livre e muito mais!

Katia é a diretora. Apaixonada pela Educação, ela nos recebeu com muita alegria e consideração, e fez questão de mostrar tudo. Ela e a equipe produziram um jardim lateral com árvores frutíferas, onde as crianças poderão aprender e se deliciar com amoras, mangas e pitangas. Segundo ela, o próximo passo é plantar pés de maracujá na cerca entre as escolas, para desfrutarmos juntos. Esse é o caminho: realizar o hoje, mas planejar o amanhã. Só com essa visão mais global, construímos uma escola que possa atender as necessidades de toda a comunidade escolar.

Depois do tour, fizemos uma espécie de sarau e apresentamos aos pequenos números musicais, cantados e interpretados pelos alunos maiores. Os pequenos adoraram! Mas nossos anfitriões não deixaram por menos e também cantaram. Ficamos todos emocionados com mais esse dia inesquecível (puxa, precisamos repetir esses saraus!).

Houve, ainda, um outro fato interessante. Muitos alunos da minha escola tinham passado primeiro pela Dolores Culpiam, e por isso acabaram reencontrando os antigos professores. E, para mim, isso também foi muito interessante, pela oportunidade que tive de conversar sobre o desenvolvimento de alguns desses alunos. Como seria bom e produtivo para a alfabetização dos alunos se cada vez mais docentes tivessem essa oportunidade de troca!

Alunos e professores reunidos na CEI Dolores Culpiam do Amaral, vizinha de cerca da EE Laila Galep Sacker. (Foto: Arquivo/Mara Mansani)

Enfim, nossa rua educadora está nascendo – e isso é só o começo. Muitas ações ainda virão. Faremos feiras de trocas de brinquedos, saraus literários, plantio de mudas em áreas comuns da região e chamaremos, cada vez mais, toda a comunidade para participar. Juntos, construiremos esse espaço de aprendizagem tão especial, metro a metro. Na era da tecnologia e da conexão em tempo real com o mundo todo, às vezes o necessário é somente abrir as portas e bater na casa do vizinho.

Quero aproveitar e deixar aqui meu agradecimento a todos que estão tornando possível a realização desse intercâmbio – de forma especial, à minha equipe gestora: Sílvia, Marisa e Valéria, obrigado!

Um grande abraço,
Mara Mansani

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