Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Conheci a horta de um lindo projeto em uma escola vizinha

POR:
Mara Mansani

A professora Cleide e seus alunos cuidando da horta. (Foto: Mara Mansani)

A EMEIEF Jayme Ferreira da Fonseca fica no caminho do meu trabalho, aqui em Salto de Pirapora, no interior de São Paulo. Todos os dias, quando passo por lá, um detalhe me chama a atenção: a escola tem uma horta e um jardim muito bem cuidados.

Uma horta na escola não é algo exatamente inovador. Muitas instituições dispõem desse tipo de espaço, e eu mesma já participei da construção de muitas delas. Mas essa, da Jayme Ferreira, é exuberante. Tanto que muita gente para alguns minutos e a contempla. E eu ficava me perguntando quem teria feito aquilo e se o projeto tinha envolvido as crianças.

Não resisti à curiosidade e fui conhecer de perto a experiência. Bati à porta e encontrei a diretora Aline, a coordenadora pedagógica Ana Maria, parte da equipe docente e as crianças, que me contaram suas histórias, me emocionaram e me surpreenderam. O projeto se chama “Mãos que criam” e vai muito além da construção dos canteiros.

A instituição atende 278 pequenos da Educação Infantil em dois períodos. Tudo começou em 2015, com a iniciativa de uma das professoras, a Cleide. Vendo que muitos pais estavam desempregados, ela resolveu oferecer pequenas oficinas de agricultura, artesanato e outros trabalhos manuais, atividades que abrissem novas possibilidades de geração de renda e trabalho. No início, houve quem dissesse que a ideia não ia dar certo porque os pais “fogem da escola”. Mas as famílias, embora meio envergonhadas, toparam o convite.

Cleide tem muita experiência em sala de aula e chegou a dar aula para muitos desses pais na infância. Forte, corajosa e decidida, ela conseguiu o apoio dos gestores que estavam lá, à época, e envolveu outras professoras no esforço de atender as famílias. Os encontros aconteciam sempre depois da aula, e tinham duração de meia hora.

As coisas começaram bem, aí chegou a hora de ampliar a proposta e levá-la também às crianças. Foi assim que nasceu o “Mãos que criam”, agregando estudantes e toda a equipe, com o apoio da Secretaria de Educação do município.

Cleide (a segunda, da esquerda para a diriera, sentada na fileira de trás) e a equipe de docentes e funcionários da EMEIEF Jayme Ferreira da Fonseca. (Foto: Mara Mansani)

Um dos pontos fortes do projeto é o fato de que ele foi abraçado por todos, e não se tornou algo imposto por uma pessoa, de cima para baixo, como infelizmente vemos acontecer muitas vezes. Todos os que conversaram comigo disseram, com orgulho: “Esse projeto é o carro-chefe da nossa escola”.

Mesmo com a chegada das novas gestoras, Aline e Ana Maria, o trabalho não foi interrompido. Pelo contrário, se renovou e foi incorporado à vida escolar e até à vida pessoal da diretora. Ela gostou tanto que fez uma hortinha em casa, com o filho.

As crianças, embora pequenas, são muito capazes quando bem orientadas. Plantaram verduras, legumes, ervas medicinais, temperos. Isso sem contar os pés de acerola, pitanga e melancia, e as flores do jardim. Aprenderam muito, da germinação aos cuidados com a terra, passando pelas características das plantas, dos frutos e o uso das ervas pelos avós. Muitos se livraram também da ideia – tão reproduzida pelos adultos – de que “terra é sujeira”. Compreenderam na prática que terra é vida, alimento, casa, abrigo dos animais.

Todas gostaram de mexer com a terra e ficaram admiradas quando começaram a ver o nascimento dos frutos! Descobriram que, com as próprias mãos, podem criar coisas maravilhosas. Plantaram, cuidaram, observaram, colheram, levaram para casa e puderam comer na escola o que produziram. Isso acabou levando, inclusive, a um outro projeto, sobre alimentação saudável.

Alunos levam ao refetório o resultado da colheita na horta. As verduras farão parte do cardápio da merenda. (Foto: Mara Mansani)

Foram realizadas, ainda, outras atividades em sala de aula envolvendo a horta/jardim, como rodas de conversa e leituras. Como estou sempre pensando na alfabetização, fiquei imaginando que esse projeto abre ótimas oportunidades para se aprender sobre o sistema de escrita. Podem ser feitas plaquinhas para identificação dos canteiros e das plantas ou um folheto com fotos do passo a passo de como plantar e cultivar uma hortaliça, com as legendas feitas com a professora como escriba.

Na experiência do “Mãos que criam”, estão nitidamente presentes os quatro pilares da Educação difundidos pelo relatório Educação – Um tesouro a descobrir, elaborado para a Unesco em 1999, sob a liderança de Jacques Delors, pela Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a conviver. O projeto da escola conseguiu, de fato, aproximar as crianças da natureza, despertar o interesse pelo cuidado com o meio ambiente, produzir e manter uma horta com a participação de todos e estimular uma alimentação mais saudável.

Com uma equipe unida, uma comunidade engajada e turmas maravilhosas, o resultado só poderia ser mesmo uma aprendizagem inesquecível! Ninguém discute que a Educação brasileira tem inúmeros problemas para superar, mas é muito bom saber que temos muitos professores – mas muitos mesmo! – dedicados, excelentes e que fazem trabalhos maravilhosos. Parabéns a todos vocês da EMEIEF Jayme Ferreira da Fonseca e muito obrigada por compartilharem comigo e com os meus leitores essa linda experiência.

Um grande abraço,

Mara Mansani

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