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O novo livro de Valter Hugo Mãe e o encontro da sensibilidade portuguesa com a cultura japonesa

POR:
Ana Ligia Scachetti

Olá! Hoje quem escreve aqui é a Ana Ligia Scachetti, editora executiva dos conteúdos digitais de NOVA ESCOLA e GESTÃO ESCOLAR. Pedi licença à Anna Rachel para conversar com vocês sobre o belíssimo novo livro de Valter Hugo Mãe: Homens Imprudentemente Poéticos (Ed. Biblioteca Azul, 192 págs., 44,90 reais).

Conheci o autor há uns três anos, por meio de Regina Scarpa. Ela era coordenadora pedagógica da NOVA ESCOLA na época e chegava pela manhã à redação recitando trechos extremamente sensíveis de um dos livros dele. O intercâmbio leitor também funciona muito entre nós, jornalistas, e logo fui atrás daquela delícia de texto.

Li O Filho de Mil Homens e A Máquina de Fazer Espanhóis. Confesso que até hesitei por ter guardado o segundo para uma viagem de férias. Era denso demais para um momento que eu queria que fosse só relax. Mesmo assim, não me arrependi. A perfeição de Valter ao descrever sentimentos e situações é invejável. Por essas e outras características, ele me confortou um pouco da perda do meu escritor favorito, José Saramago (1922-2010).

Para mim, eles dois têm uma proximidade na maneira como veem o mundo e as pessoas. Em Homens Imprudentemente Poéticos

, Valter escreve, por exemplo, que “obrigar a floresta à gentileza de um jardim era ofensivo”. Uma frase simples, mas que conta tanta, tanta coisa. Fala da relação do homem com a natureza, como se uma pessoa pudesse obrigar ou ofender uma área natural. Concede personalidade a essa mesma natureza. O jardim é gentil, a floresta é rebelde.

Também como Saramago, Valter brinca com a pontuação. Nesta obra, resgatou o uso das letras maiúsculas, mas os diálogos são expressos num mesmo parágrafo, sem travessões, interrogações ou exclamações, apenas com pontos finais. Mas não se preocupe, a escolha das palavras é tão perfeita que você saberá a entonação correta e não terá dúvida de quem fala o que.

Tudo isso no Japão

Já deu para entender que eu adoro Valter Hugo Mãe. Mas aí ele vai e escreve um livro que se passa no Japão, país que eu amo e tive a oportunidade de visitar há dois anos. Por tudo isso, fui à Livraria Cultura, aqui em São Paulo, comprar o meu exemplar no dia do lançamento e garantir um autógrafo dele. A fila era enorme e ele pacientemente atendeu a cada um. Deu abraços, tirou fotos, conversou e depois ainda agradeceu a acolhida em sua página no Facebook.

A cultura japonesa é pura poesia e o novo livro todo transpira isso. Do texto, claro, às ilustrações de Paulo Ansiães Monteiro, feitas em tinta preta, com traços que lembram os pergaminhos em papel de seda que contam histórias de samurais e os painéis em papel feito de arroz que têm ideogramas escritos apenas em preto.

Pode parecer que essa estética, assim como a vida do artesão Itaro e do oleiro Saburo, só seria possível em um Japão antigo. Não. O Japão ainda é isso, tem enorme respeito pelas tradições, repete os mesmos festivais há milênios, ainda tem uma relação forte com a natureza (quem nunca quis estar lá para reverenciar a florada das cerejeiras?) e uma vivência espiritual intensa dos princípios budistas e xintoístas. Seria plausível que Itaro vendesse leques nos dias de hoje em Quioto, uma cidade tomada por templos e cheia de gueixas.

Valter foi até aquele país, entrou na floresta, encontrou artesãos e transpôs a profundidade da sua experiência para as páginas. Sobre o ofício do artesão, ele escreve outro trecho marcante: “era um cúmplice da natureza, um certo intérprete. Como se avivasse a memória antiga à coisa inerte. O gesto precisava de ser único, sem repetição, para que a obra comparecesse na espontaneidade possível.”

O destino é outra figura central no livro. Os avisos da morte, os reveses da vida e a maneira como cada um lida com a tragédia permeiam o cotidiano no pé da montanha. A sensibilidade também está especialmente presente na menina cega Matsu. É incrível como ela imagina cada coisa e cada movimento do mundo sem enxergar. Em certo momento, ela diz: “Sentes, irmão. Há uma alegria naquele bocado de morte”.

O autor é, ele mesmo, um grande homem poético, mas nada imprudente. Toda linha faz sentido, toda palavra é cuidadosamente usada. E o encontro do Japão com Portugal resulta em uma narrativa deliciosamente harmônica.

Boa leitura!

Um abraço e até a próxima,

Ana Ligia

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