Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Como as araras-azuis me ajudaram a introduzir textos científicos na alfabetização

POR:
Mara Mansani

Já contei a vocês em outro post que sempre pesquiso novos gêneros para alfabetizar meus alunos. Entre os vários que uso em sala de aula, estão sempre presentes os textos de informação científica. As crianças se interessam e gostam muito! Elas são extremamente curiosas e ávidas por descobrir novas informações, e quando o assunto é natureza e animais, isso é ainda mais forte.

São classificados como textos de informação científica os verbetes de enciclopédia, as fichas técnicas, os artigos científicos, entre outros cuja função é informar algum fato, divulgar e explicar as descobertas desse campo para o leitor. Por essa razão, a principal característica desse tipo de texto é a linguagem precisa, clara e objetiva, com afirmações validadas em estudos e pesquisas, sem expor opiniões meramente pessoais ou ideias vagas dos autores.

Costumo introduzir esse gênero já na fase inicial de alfabetização, desde o 1º ano – mas de forma adequada àquele estágio, é claro. O interessante é que ele abre uma possibilidade muito grande de desenvolvimento da capacidade de síntese, que futuramente será tão exigida.

Geralmente, começo com produções em forma de “Você sabia”, e depois a turma evolui para coisas mais complexas. Para você entender bem o que estou dizendo e dar algumas referências, deixo aqui a experiência que venho construindo com meus alunos de 1º, 2º e 3º anos. Trata-se de uma prática de leitura e escrita que chamei de A Arara-azul. Veja só:

Etapa 1: Preparação e exploração prévia do assunto

A primeira parte do trabalho é quase totalmente baseada na leitura. Para isso, seleciono artigos de qualidade, com temas diversos, que sejam atrativos às crianças. Gosto de enfatizar isto: é fundamental recorrer a fontes confiáveis, com dados corretos e bem fundamentados. De modo geral, encontro ótimos materiais em sites voltados ao público infantil, como a Revista Ciência Hoje das Crianças e o Invivo, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Além dos artigos, esses dois endereços oferecem também jogos, experiências que podem ser reproduzidas na escola e muito mais.

No nosso caso, escolhi um tema bem concreto, o estudo da arara-azul (não há motivo especial para a escolha, poderia ser qualquer animal), e encontrei dois bons materiais: um chamado S.O.S. Araras e o outro intitulado Um nome para a maior de todas as araras.

Fiz a leitura em voz alta dos artigos e, em seguida, uma série de questionamentos com o intuito de que os alunos notassem elementos comuns aos dois, tanto em relação às características do gênero, como ao tema. E a turma compreendeu que ambos tinham a função de informar descobertas relativamente recentes feitas pelos pesquisadores sobre o animal. Depois, mostrei várias imagens das araras-azuis, disponíveis na internet (basta uma busca rápida no Google para encontrar várias delas).

Fizemos, ainda, uma roda de conversa na qual os alunos puderam falar das coisas mais importantes, interessantes ou curiosas que descobriram sobre essas aves brasileiras, e voltamos para a leitura dos dois artigos, mas, desta vez, em duplas. Além de ler, eles tinham que localizar, selecionar e destacar, usando o lápis, as principais informações sobre o animal. Por fim, compartilhamos o que foi selecionado por todos.

 

Etapa 2: Referências

Você se lembra que o tema do nosso post anterior foi justamente esse? Pois nesse trabalho sobre as araras azuis, temos uma aplicação bem concreta do que expliquei. Para que os alunos conseguissem escrever em forma de “Você sabia”, apresentei diversos modelos com informações sobre outros animais, para que se familiarizassem com esse formato, seguindo aqueles passos que descrevi na semana passada.

Etapa 3: Produção

Escrever um texto em forma de “Você sabia” não se resume a retirar informações explícitas e implícitas, copiando-as de uma fonte. Essa atividade requer que o aluno busque também na memória as informações apreendidas, escrevendo-as com suas próprias palavras, de forma clara e objetiva. 

Com base nos modelos, propus que a turma se dividisse em duplas e elaborasse uma primeira produção com dados sobre a arara-azul-grande, utilizando as informações que já haviam obtido pelas leituras.

Num segundo momento, fizemos a produção coletiva, em que exerci o papel de escriba, registrando na lousa o que a turma ia construindo. Depois, passamos tudo para o mural da sala de aula, acrescentando algumas ilustrações. E, assim, concluímos o trabalho!

Com esses mesmos procedimentos, é possível propor a escrita de outros tipos de texto dentro desse gênero, como um verbete de enciclopédia ou uma ficha técnica sobre o animal. Na alfabetização, é muito importante abrir espaço para uma grande variedade de modelos de diversas tipologias. Afinal, em nosso dia a dia, estamos sempre em contato com essa diversidade. Acho interessante introduzir paulatinamente, mês a mês, essa diversidade.

Bom, espero que vocês tenham gostado dessa minha experiência e que ela ajuda e inspirar as suas aulas.

Um grande abraço a todos e até segunda-feira!

Mara Mansani

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