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Em Arte, é preciso ensinar a ler textos sem palavras

Para explorar fotografias, pinturas, ilustrações e charges, é preciso saber a gramática própria que rege a linguagem visual e contextualizar as condições de produção de cada obra estudada

por:
MS
Michele Silva

Textos não são só aqueles formados por palavras e frases, que se encadeiam para ganhar sentido. Os grafites nas ruas, os comerciais da TV e as pinturas em livros e obras de arte são formados por sinais que precisam ser decodificados, lidos, para serem compreendidos. Somados aos textos verbais, essas linguagens ajudam os alunos a interagir com o mundo e a se expressar melhor. 

Mesmo assim, por muito tempo, o ensino de Arte praticamente desconsiderou a necessidade de trabalhar a leitura de imagens e outros gêneros próprios da disciplina, sejam eles visuais, sonoros, corporais e, claro, textuais (leia o quadro abaixo). Ainda hoje, a regra geral de boa parte das escolas é colocar os alunos para produzir sem que eles tenham um conhecimento adequado das obras artísticas. "Com essa ansiedade para pôr a mão na massa, surgem atividades sem nenhuma contextualização", diz Paola Zordan, professora da Licenciatura em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

Da multiplicidade de gêneros presentes na disciplina, a leitura de imagens é a mais frequente (leia o infográfico). Fotografias, pinturas, desenhos e charges são expressões artísticas com características próprias, que precisam ser discutidas com a turma para que as obras sejam realmente lidas e não "adivinhadas" - a clássica atividade de mostrar um quadro e mandar, logo de cara, a pergunta "o que o artista quis dizer?" pouco acrescenta ao repertório artístico da turma (leia a sequência didática). Em vez disso, você deve procurar auxiliar cada aluno a desenvolver o chamado olhar cultural, em que conhecimentos estéticos, antropológicos, históricos e científicos estão a serviço de uma compreensão da obra de arte que vá além das aparências ou do simples "gostei" ou "não gostei". 

Na prática da sala de aula, a leitura em Arte se dá em cinco etapas principais. A inicial é aquela em que se tem a percepção geral da obra, o resultado do trabalho do artista - é o que os especialistas denominam de aquecimento do olhar. Um mergulho mais profundo é realizado nas três fases seguintes - descrição (a desconstrução da imagem), análise (a investigação sobre os meios utilizados) e interpretação (hipóteses sobre o significado da obra, considerando a vida do artista e as condições em que a obra foi produzida, ou seja, as informações de contexto). Apenas depois de tudo isso é que o aluno realiza uma nova produção, inspirada pela obra lida - é o momento da releitura (atenção: não se trata de reprodução da obra), que pode ser mais bem desenvolvida com a ajuda de anotações e comentários.

Gêneros privilegiados em Arte 

Imagem  Realizadas com base em uma gramática característica - a visual -, utilizam formas, cores, volumes e texturas para construir um sentido. 

Diferentemente dos textos verbais, que impõem uma forma de leitura - da esquerda para a direita, começando pelas primeiras palavras -, a leitura de uma obra visual é mais subjetiva e requer que o leitor use sua experiência, sua sensibilidade e seus recursos cognitivos para atribuir significados.

Texto verbal  Também presentes em Arte, devem estar, de algum modo, relacionados ao objeto cultural apreciado, já que seu estudo tem como objetivo principal promover a ampliação de repertório da turma e a intertextualidade, trazendo elementos como informações sobre a origem e a intencionalidade do artista. É um terreno fértil para explorar biografias e movimentos, resenhas de exposições, filmes e mostras, catálogos de museus e depoimentos.

Filme  Os que têm como tema a vida e a obra de algum artista também podem contribuir para que a classe compreenda melhor o percurso de criação e o contexto da produção. Atenção, porém, para filmes muito romanceados, que podem acabar mistificando o artista e reforçando rótulos, como o do gênio que cria obras por mágica.

Descrever, analisar, interpretar

Moça com Livro, de Almeida Júnior. Foto: Samuel Esteves
Moça com Livro, de Almeida Júnior. 
Foto: Samuel Esteves

Na EMEF Guilherme de Almeida, a turma da 6ª série desenvolve as três etapas de leitura da obra Moça com Livro, de Almeida Júnior (1850-1899)

Interpretação  Hipóteses sobre o significado: a postura da menina remete a uma cena de lazer, seu ar pensativo ao marcar a página do livro pode indicar que ela leu um trecho que a fez devanear

Descrição  Indica o que é perceptível na imagem: a menina está deitada na grama, possivelmente em um parque ou jardim, usa camisa pouco abotoada, tem os olhos voltados para o alto e bochechas ruborizadas

Análise  Diz respeito aos aspectos formais da obra: a pintura é realista, a figura da menina ocupa o primeiro plano e tem cores claras, com exceção das bochechas e lábios, em contraste com o fundo escuro 

Contar o que se vê e como se vê e imaginar significados

Vamos detalhar melhor cada um desses passos. No primeiro contato do aluno com a obra, vale a receita óbvia e essencial: fazer um levantamento prévio com os estudantes do conhecimento sobre o objeto cultural e deixar claros os objetivos da atividade. "Também chamado de envolvimento para a leitura, esse momento pode contar com elementos de apoio, como uma música ou um poema ligado ao tema", sugere a professora Anamelia Bueno Buoro, doutora em Comunicação e Semiótica e professora de Estética e História da Arte e da Tecnologia na Faculdade Senac.

Nesse momento, esteja preparado para acolher uma multiplicidade de pontos de vista. Afinal, a vivência de cada um interfere na primeira impressão: um jovem pode relacionar a imagem com outras já conhecidas ou com algum fato experimentado, evocando sentimentos tão distintos quanto alegria, tristeza e prazer. Peça que os alunos registrem, individualmente, suas impressões nos cadernos, listando as primeiras palavras que lhes vêm à cabeça.

A socialização dessas anotações pode iniciar a leitura mais pormenorizada da obra escolhida. Para fazer essa investigação com a turma da 6ª série na EMEF Guilherme de Almeida, na capital paulista, a professora Cleide Maria de Lima pede que os alunos construam listas, com frases curtas ou mesmo palavras-chave, sobre características da imagem. As perguntas são a base dessa etapa: o que seus olhos veem? São pinturas, desenhos ou fotografias? Que elementos mais se destacam: objetos, pessoas, imagens indefinidas?

Perceba que todas as questões seguem uma linha clara: elas contribuem para que se pense nos aspectos descritivos, ou seja, tudo aquilo que está ao alcance dos olhos. Na prática, porém, a linha que divide a descrição da análise é tênue. Por isso, as duas atividades podem se misturar na fala dos alunos durante a prática da leitura. Cabe a você ir separando suas falas em duas colunas diferentes no quadro, por exemplo, conforme a característica de cada uma.

Se a descrição diz respeito à enumeração dos elementos mais visíveis do quadro - o que se diz -, a análise deve focar os elementos formais da linguagem artística - o como se diz. "Desenvolver a habilidade de análise significa descobrir como linhas, formas e cor se organizam no espaço da obra para comunicar algo", define Anamelia.

A composição é abstrata ou figurativa? O espaço é bidimensional, tridimensional ou plano? Existem linhas na imagem? De que tipo: retas ou curvas, finas ou grossas? A opção por um tipo de cor (quente, fria, clara, escura) está ligada ao horário do dia ou estação do ano? E quanto às texturas: alguma camada passa a sensação de maciez, dureza, lisura ou aspereza? O trabalho é complementado com a análise de outros elementos formais da linguagem visual - formas, luminosidade, técnicas, gênero (retrato, paisagem, natureza-morta) e estilo a que a obra pertence.

O momento seguinte, a contextualização, é especialmente necessário quando se realiza a leitura de gêneros como a charge. Por ser uma imagem que trata, geralmente, de algo factual e perde o sentido logo após a criação, artigos de jornais ou livros e revistas que tenham relação com o momento retratado no desenho são fundamentais para a compreensão do significado do desenho. Atenta a essa especificidade, a professora Betania Libanio, da EMEF Presidente Kennedy, em São Paulo, recorre a esses gêneros textuais para ajudar os alunos a compreender a leitura de charges. "Numa das atividades, peço que a turma navegue pelo jornal selecionando reportagens e marcando informações que possam contribuir com a interpretação. Isso é importante principalmente quando o assunto é política, mais distante da turma", afirma.

As informações de contexto também podem favorecer a intertextualidade - o diálogo entre diferentes produções. Nas turmas de 5ª e 6ª séries do Colégio de Aplicação da UFRGS, em Porto Alegre, as professoras Nina Loguercio e Claudia Campos combinaram a leitura do quadro Os Comedores de Batatas, de Van Gogh (1853-1890), com outras obras que retratavam alimentos, como Feliz Aniversário, de Fernando Botero. "Ficou claro que havia múltiplas possibilidades: enquanto Van Gogh retrata a miséria dos camponeses da Holanda, a natureza-morta de Botero remete à fartura de um banquete", afirma Nina.

O fim da leitura é uma volta à imagem: uma nova observação à luz do trajeto percorrido. A interpretação pode ser feita com a produção de um comentário - o detalhe importante é que as impressões pessoais devem estar acompanhadas de informações descritivas e analíticas sobre a obra. Outra opção é promover novas produções artísticas inspiradas pela leitura. Tanto melhor se a atividade terminar numa exposição para colegas e pais, o que confere mais sentido ao processo e permite compartilhar a riqueza das criações estimuladas pela leitura em Arte. 

Procedimento de estudo - Comentário 

Produzido após a leitura, esse tipo de texto conjuga informações de todas as etapas do processo com a opinião de quem escreve

Visão pessoal: nos comentários da turma da professora Nina, o juízo de valor é embasado pela descrição e análise da obra estudada. Foto: Fabrício Barreto
Visão pessoal: nos comentários da turma da professora Nina, o juízo de valor é embasado pela descrição e análise da obra estudada. Foto: Fabrício Barreto

Para a areia, um outro tom de verde para o barquinho que é uma vagem de ervilhas e usou a luz de uma lanterna atrás do queijo e do presunto para fazer o sol. Esta imagem ficou muito legal e o alaranjado deu um toque de por-de-sol. Usar salmon foi um a ideia bem diferente.

Em Arte, o comentário é o texto que amarra a leitura. Costurando as informações que surgiram de forma solta e deram origem a listas de descrição, análise e interpretação, o aluno retoma o que foi conversado durante a leitura coletiva e organiza o seu aprendizado, podendo ainda exprimir sua opinião. Mais do que dizer "gostei, não gostei", o aluno deve escrever sobre o que a imagem mostra, que sensações provocou nele e que elementos foram usados pelo artista para produzir tal efeito. Avaliando, por exemplo, que cores são utilizadas (elas são fortes e variadas para demonstrar alegria ou escuras para remeter à tristeza?). O comentário ainda pode conter informações sobre o contexto de produção da obra e sobre o autor. Para auxiliar na construção desse texto, anotações e listas concebidas com base na leitura devem estar sempre à mão. Possibilitar o fácil acesso ao máximo de dados disponíveis é um recurso útil na elaboração da composição, evitando que seja preciso puxar tudo de memória ou voltar o tempo todo às fontes de pesquisa.

Quer saber mais?

CONTATOS
Colégio de Aplicação da UFRGS, Av. Bento Gonçalves, 9500, Prédio 43815, 91501-970, Porto Alegre, RS, tel. (51) 3308-6977
EMEF Guilherme de Almeida, R. Faustino Paganini, 647, 03732-010, São Paulo, SP, tel. (11) 2641-0956
EMEF Presidente Kennedy, R. Acuruí, 700, 03355-000, São Paulo, SP, tel. (11) 2673-3014

BIBLIOGRAFIA
As Senhoritas de Nova York, Daniel Piza, 96 págs., Ed. FTD, tel. (11) 3598-6200, 30 reais
Coleção Arte na Escola - O Leitor de Imagens, Anamelia Bueno Buoro, Beth Kok e Eliana Aloia Atihé, 64 págs., Companhia Editora Nacional, tel. (11) 2799-7799, 26,90 reais

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