Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias
Planos de Aula
01 de Dezembro de 2001 Imprimir
5 4 3 2 1

Solte os bichos e faça um livro

Misture lendas e ''causos'' num caldeirão, mexa com muita pesquisa, deixe apurar as informações e jogue pitadas de criatividade. O resultado é uma coleção de seres imaginários

Por: Ricardo Prado

Cortinas pretas estendidas pela sala, algumas velas espalhadas e, no canto, um "ser" esquisito, de máscara e capa preta. Essa foi a forma encontrada por Maria Guedes e Márcia Guimarães, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Maria Aparecida da Encarnação, em Aparecida, a 173 quilômetros de São Paulo, para provocar os estudantes de 3a e 4a séries. Com a colaboração de um funcionário da escola fantasiado, elas leram um conto sobre o lobisomem. Gritinhos excitados das duas turmas eram ouvidos a cada movimento do "bicho". Ao fim da leitura, a proposta: os alunos escreveriam um livro sobre seres imaginários. Poderiam até inventar os próprios monstros. Estava lançado, em grande estilo, o projeto didático (abaixo).

Projeto pedagógico

Nome do projeto: Seres Imaginários
Ciclo/série: 3ª e 4ª séries (2º ciclo)
Tempo de duração: de quatro a seis semanas


Objetivos de aprendizagem: Língua Portuguesa: valorizar o texto informativo como fonte; identificar os dados mais importantes com base nos propósitos de leitura (aqueles que respondem às questões acerca das quais se recorreu ao texto); socializar informações aprendidas na leitura de textos informativos; conhecer e fazer uso nas produções da linguagem e da organização desse tipo de texto; produzir textos coerentes e coesos; escrever corretamente as palavras recorrentes desses textos; utilizar os sinais de pontuação conhecidos; revisar e editar as produções; comunicar a pesquisa realizada a um destinatário específico.

Arte: fazer uso das informações obtidas de textos informativos para desenhos e trabalhos com massa de modelar.

Produto final: elaborar um livro contendo as ilustrações e as descrições dos seres imaginários; mural com exposição para a comunidade escolar.

1. Hora da pesquisa

Na Marieta Vilela da Costa Braga, outra escola da rede municipal, Flávia Cristina Costa Fernandes criou uma estratégia diferente: um passatempo, no qual os alunos da 3a série C tinham de juntar letras para formar as quatro palavras-chave do projeto (duende, gnomo, fada e bruxa). Como ela havia trabalhado com folclore pouco tempo antes, optou por concentrar o projeto nesses seres imaginários. "Quem preferir, pode direcionar as atividades para outros aspectos do folclore", explica Ângela Crescenzo Laredo, que é professora da Escola da Vila, em São Paulo, e atuou como capacitadora nas oficinas contratadas pela prefeitura. "Se houver livros ou pessoas mais velhas que falem sobre lendas da região, melhor ainda."

Especial Folclore

 

HISTÓRIAS E MUITO MAIS  Veja no especial de folclore que outros aspectos fazem parte da cultura popular tradicional e inspire-se para desenvolver seu próprio projeto na área.


Quando os alunos de Flávia conseguiram ligar as letras e chegaram às palavras fundamentais, no caso os nomes dos quatro seres imaginários, receberam a missão de procurar cada uma delas no dicionário. Era o começo da pesquisa. E a primeira pesquisa, com suas dificuldades características, a gente nunca esquece. Nessa fase, é essencial a orientação do professor. O trabalho de garimpar informações pode ser duro para os pequenos. O mestre deve conduzir os primeiros passos no cipoal de livros, artigos de jornal e outras fontes, inclusive orais. "É importante ensinar que, antes de sair pesquisando, é preciso delimitar o que se deseja saber, ou seja, fazer uma lista de perguntas para as quais vamos buscar as respostas", salienta Ângela.

O ideal é selecionar vários livros sobre o tema, até mesmo alguns que pouco ou nada tenham de informação relevante sobre o projeto. Deixe que os alunos os manuseiem e descubram o que procuram. Cedo eles perceberão que não precisam procurar página por página. Vão descobrir o índice e como ele varia uns são separados por assuntos, outros por ordem alfabética.

Ao longo do projeto, a turma de Flávia continuou trazendo materiais de pesquisa: páginas da internet, um livro didático encontrado na biblioteca, um artigo de jornal sobre folclore ou imagens de gnomos. Nessa fase, não deve ser desprezada a tradição oral. Veja o que aconteceu com Claudete Maria de Castro Souza. Ela entrou em contato com o projeto na EMEF Professor Anísio Novaes e o levou para uma turma multisseriada da EMEF Bairro de São Francisco, na zona rural. Para introduzir o tema, ela contou histórias ouvidas na infância, como a da "mulher do bonde".

Diz a lenda que uma loira aparecia no bonde que vai de Aparecida a Guaratinguetá, à meia-noite. Certa vez, o motorneiro ofereceu ajuda para descarregar uma grande mala que ela sempre trazia consigo. Não conseguiu, de tão pesada que era. A misteriosa mulher explicou, então, que carregava todos os pecados do mundo e desapareceu em seguida.

Por coincidência, na mesma época a TV local divulgou a "aparição" de um extraterrestre no bairro do Galo Duro, próximo à escola. "Foi o suficiente para que as crianças passassem a relatar outras histórias", lembra Claudete. "Uma aluna garantiu que o tal ET dormia atrás do fogão de sua casa." Para a professora, a participação de todos na hora da pesquisa foi o mais supreendente e o melhor do projeto. 

2. Nem tudo é verdade

Há um outro aspecto, sutil e interessante, que merece destaque. Ao propor que as crianças pesquisem seres imaginários, as professoras dessacralizaram o texto informativo. Revelaram que pode haver uma descrição minuciosa de um ser que não existe. "Um texto sobre o saci-pererê pode ser semelhante, em forma e conteúdo, a um sobre a onça", exemplifica Ângela. "Aí, vale a pena lançar a pergunta para a classe: qual fala de um ser verdadeiro?"

Ao mexer com o imaginário e as crendices populares, o trabalho cutucou também algumas posturas religiosas mais rígidas. Flávia, por exemplo, foi questionada por uma mãe de credo evangélico, que não gostou de ver o filho criar um livro sobre gnomos e duendes. A argumentação usada pela professora foi irretocável. "É como se estivéssemos falando da Branca de Neve", explicou. "Esse tipo de texto favorece a aprendizagem e estimula a criatividade."

Flávia também criou atividades: um jogo de tabuleiro em que novas informações eram passadas em forma de brincadeira e uma atividade com massinha de modelar para as crianças explorarem, de forma artística, as informações que haviam coletado sobre os diversos seres imaginários.

Além de aprimorar procedimentos de pesquisa e possibilitar questionamentos sobre a veracidade de "textos sérios", o projeto abre outra porta, usada na argumentação da professora diante da mãe: a da imaginação. Propor que as crianças, com base nos exemplos estudados e consagrados pelo conhecimento popular, criem os próprios seres imaginários, é uma tremenda aventura ficcional. No livro feito pela turma de Rosângela Wendling Ferreira, outra professora da Anísio Novaes, surgiram personagens curiosíssimos, como o "gosmentado" ("ele come minhocas e se defende dos inimigos se derretendo", explica a autora-mirim) ou o "abóbora" ("um monstro muito assustador e safado que pega as coisas dos outros").

Antes de propor que cada aluno crie um monstro, você, professor, deve analisar se a turma tem condições de avançar para o fascinante terreno da criação literária. É importante ressaltar que, além de se preocupar em como escrever, a criança vê-se obrigada a pensar no que escrever. Para quem ainda não domina plenamente a escrita, a experiência pode ser um desafio intransponível, que resultará em textos de baixa qualidade. Nesse caso, montar um livro com lobisomem, mula-sem-cabeça e outros seres do imaginário popular nacional já é um exercício de escrita mais do que suficiente.

3. Escrever e revisar

Um trunfo que o professor tem ao aplicar um projeto didático é dar nova dimensão ao trabalho da revisão. O fato de a produção escrita extrapolar o limite da sala de aula, seja para uma exposição seja para um livro, serve como estímulo para os estudantes prestarem atenção redobrada aos erros de ortografia, à repetição de palavras, aos problemas de entendimento e à legibilidade do que escrevem. Foi o que observou a professora Flávia, que dividiu sua classe em duplas, com um colega corrigindo o texto do outro. Já Claudete preferiu escolher uma redação por semana e corrigi-la no quadro-negro, diante de todas as crianças juntas. Ambas tiveram o cuidado de não ficar presas só à gramática, observando também a coesão e coerência do texto.

Ângela, do Centro de Estudos da Escola da Vila, recomenda que o professor fuja do que ela chama de "obssessão ortográfica" e eleja algumas ocorrências importantes, de acordo com o que está sendo trabalhado. "Isso não significa que não deva existir uma revisão rigorosa no texto publicado, pois uma produção que vai ultrapassar os muros da classe não pode ter erros e é bom que isso seja parte das tarefas", explica. "Em sala de aula, porém, a criança não assimila tudo o que o professor observa e até se sente desestimulada ao receber de volta um texto cheio de anotações."

A turma de Flávia foi avaliada atividade por atividade. Ela tomava notas e pontuava a participação dos alunos em cada etapa, comparando os objetivos pretendidos com o que cada um conseguiu atingir. O encerramento do projeto, feito em conjunto pelas três escolas participantes, foi uma exposição de textos e um cartaz dos seres imaginários. Era fim de ano e Flávia voltou para casa com a bolsa cheia de gnomos, fadas e duendes, pois parece que todos tiveram a idéia agradá-la com um "presente original".

Quer saber mais?

Centro de Estudos da Escola da Vila, Av. Corifeu de Azevedo Marques, 857, CEP 05581-000, São Paulo, SP, tel. (11) 3726-3384

EMEF Professor Anísio Novaes, R. João Aprígio Costa, 139, CEP 12570-000, Aparecida, SP, tel. (12) 565-4021

EMEF Professora Maria Aparecida da Encarnação, R. Nenzinho Macedo, 106, CEP 12570-000, Aparecida, SP, tel. (12) 565-2613

EMEF Professora Marieta Vilela da Costa Braga, Av. Juvenal Arantes, 399, CEP 12570-000, Aparecida, SP, tel. (12) 565-3890

 

Tenha acesso a conteúdos e serviços exclusivos
Cadastre-se agora gratuitamente
Cadastrar