O dia em que a caça consolou o caçador no Pacaembu

POR:
NOVA ESCOLA

Ilustração: Andrés Sandoval 

Dois alvinegros, Santos e Botafogo, faziam os grandes jogos dos anos 60. Pelé x Garrincha, fora outros gigantes dos dois timaços.

Num desses jogos, em São Paulo, os cariocas fizeram uma exibição inesquecível e, estranhamente, pouco badalada nos embates entre os dois melhores times do país naquela época. Aliás, sempre que se fazem referências aos jogos entre Botafogo e Santos daqueles tempos, só são lembradas as vitórias santistas, as goleadas de Pelé & Cia. Pois o Pacaembu estava lotado para ver mais uma.

Pelé e Mané estavam em campo, mas o diabo estava era no corpo que vestia a camisa sete, não a dez. O lateral-esquerdo Dalmo, do Santos, viveu uma tarde de terror. Garrincha pegava a bola e, andando, levava Dalmo até dentro da grande área, onde o zagueiro não podia fazer falta.

O Pacaembu não acreditava no que via: um ponta andar desde a intermediária até a área sem que o lateral tentasse tirar a bola, temeroso do drible desmoralizante. Até que Dalmo percebeu que tinha virado motivo de chacota dos torcedores, muitos dos quais nem santistas eram, mas que iam ao campo na certeza do espetáculo.

E Dalmo resolveu bater antes de chegar à grande área. Bateu uma vez, Garrincha caiu, o árbitro marcou a falta e repreendeu o paulista. Bateu outra vez, Garrincha voltou ao chão, o árbitro marcou a falta e ameaçou Dalmo de expulsão, porque naquele tempo o cartão amarelo não existia.

A terceira falta de Dalmo foi a mais violenta, como se ele estivesse pensando: "Arrebento essa peste, sou expulso, mas ele não joga mais".

Pensado e feito. Enquanto o gênio das pernas tortas estava estirado no bico direito da área dos portões principais do Pacaembu, o árbitro determinava a expulsão de Dalmo, cercado por botafoguenses justamente irados com seu gesto.

Eis que, como um acrobata, Garrincha levanta-se, afasta seus companheiros, bota o braço esquerdo no ombro de Dalmo e o acompanha até a descida da escada para o vestiário, que, então, ficava daquele lado.

Saíram conversando, como se Garrincha justificasse a atitude, entendesse que, para pará-lo, não havia mesmo outro jeito.

O Botafogo ganhou de 3 a 0 e saiu aplaudido do estádio. Tinha visto uma autêntica exibição do Carlitos do futebol, digna mesmo de Charles Chaplin, divertida, anárquica, humana, sensível, solidária.

Crônica do jornalista Juca Kfouri
publicada na revista Lance a Mais (em 9/9/2000),
ilustrada por Andrés Sandoval
 

Plano de aula

A crônica, como se conhece hoje, é um gênero de texto que aborda principalmente temas corriqueiros e diversos do dia-a-dia. Sua popularidade cresceu à medida que o jornal impresso, surgido no século 19, se consolidava como um importante meio de comunicação de massa. Mas a história desse gênero vem de longe.

Machado de Assis (1839-1908), em um de seus textos, brinca que a primeira crônica deve ter se originado provavelmente do comentário feito por duas vizinhas a respeito do clima e da temperatura do dia. O estágio seguinte dessa conversa, a fofoca, seria então a verdadeira mãe da crônica.

Os pioneiros nesse gênero foram os escribas e observadores que participaram das grandes navegações. A função deles era relatar aos patrocinadores da expedição e aos monarcas tudo o que viam e ouviam nas viagens. Pero Vaz de Caminha foi, portanto, o autor da primeira crônica que tem como tema a nossa terra. Os meios de comunicação se aprimoraram e há cerca de 200 anos, nos jornais franceses, esses textos começaram a aparecer nos rodapés das páginas. O espaço era conhecido como folhetim - abordava assuntos leves, como acontecimentos festivos da sociedade, e trazia passatempos para o leitor. Aos poucos, a crônica foi absorvendo temas políticos, econômicos e sociais, sempre mantendo uma linguagem mais informal do que a usada na literatura. O texto de Juca Kfouri é um exemplo disso: relata um momento histórico do futebol, mas transcende a mera informação.

Lima Barreto (1881-1922), João do Rio (1881-1921) e o próprio Machado formam o trio de escritores que mais se dedicaram ao gênero em seus primórdios no Brasil. Depois deles, a crônica se tornou fundamental na imprensa e na literatura nacionais. Para seus alunos se familiarizarem com esse tipo de texto, Noemi Jaffe, mestre em literatura pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da Escola da Vila, em São Paulo, elaborou o plano de aula a seguir, para alunos do Ensino Médio, baseada em uma crônica esportiva.

Ironia e humor fazem parte desse gênero

Depois de contar à turma a história desse gênero, reúna os alunos em grupos e peça a eles uma lista com as características que definem a crônica, como ironia, humor, trivialidade, leveza, brevidade, a narrativa em primeira pessoa, referência a algum fato de época e a presença de poucos personagens.

Apesar de o texto de Kfouri não ser irônico nem humorístico, vale a pena diferenciar essas duas características. A ironia é caracterizada pelo uso de linguagem indireta, com a intenção de criticar fatos ou personalidades. Já o humor pode ou não conter algum tipo de julgamento por parte do autor, mas o discurso é sempre direto. As charges, por exemplo, geralmente são irônicas; já alguns quadrinhos têm como intenção simplesmente fazer rir. Em O dia em que a caça consolou o caçador no Pacaembu, a intenção do narrador foi homenagear o célebre jogador Garrincha, e não ridicularizar Dalmo.

Muitas das características da crônica podem também pertencer aos contos, como o número reduzido de personagens e o fato trivial a ser tratado. Algum contos, como os do escritor Rubem Braga (1913-1990), já foram considerados crônicas por apresentarem temas mais complexos, extensos e profundos.

Imaginação para ir além do fato

Peça à turma para ler atentamente a crônica de Juca Kfouri e identificar pelo menos cinco características do gênero. Qual o significado do título? Ainda com a classe dividida em equipes, proponha que cada uma imagine o diálogo que teria ocorrido entre Garrincha e Dalmo depois da expulsão do jogador santista e que coletivamente produza uma crônica. Os alunos devem se colocar no papel de um repórter.

A seguir, mostre a carta de Pero Vaz de Caminha e peça a todos que identifiquem as diferenças entre a linguagem usada à época pelo relator do rei de Portugal e pelo jornalista esportivo, nosso contemporâneo. Como seria a crônica de Caminha se fosse escrita nos dias de hoje? E a de Kfouri, se tivesse sido produzida em 1500? Eis mais uma atividade para estimular a imaginação e a produção de texto.

Jornal, fonte para escrever uma crônica

Será que os recursos utilizados pelo jogador Dalmo para impedir os gols do Botafogo ainda são válidos hoje em dia? É comum ver a mesma atitude de Garrincha - de perdoar o adversário - nos jogadores atuais? Essas questões rendem uma boa discussão sobre ética e sobre os interesses do futebol.

Por fim, os alunos devem trazer de casa o caderno de esportes de um jornal diário. Cada um escreve uma crônica sobre alguma notícia ou fato pitoresco ocorrido em algum jogo, de qualquer esporte.

Material necessário

?  Cópia da carta de Pero Vaz de Caminha

? Caderno de esportes de um jornal diário

Objetivos

Reconhecer a crônica como gênero da Língua Portuguesa; desenvolver a escrita e a produção de texto e refletir sobre a função e as transformações desse gênero

Quer saber mais?

Noemi Jaffe, noemi@vila.com.br

Bibliografia
A Crônica, Jorge de Sá, 100 págs., Ed. Ática, tel. (11) 3990-2100, 15,90 reais

Internet
No site do Itaú Cultural, www.itaucultural.org.br, você encontra textos de autores representativos da produção de crônica no Brasil.

A carta de Pero Vaz de Caminha está disponível na Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa. Entre no site www.bibvirt.futuro.usp.br e acesse Obras da Literatura 

 

Especial ERA UMA VEZ...

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