Um guarda-roupa cheio de história

O estudo da moda é um bom caminho para compreender o passado e as características de diferentes sociedades

POR:
Cristiana Andrade, NOVA ESCOLA, Priscila Ramalho
Ilustração: Fabiana Shizue / Foto: Xico Buny
Ilustração: Fabiana Shizue / Foto: Xico Buny

Você vê três figuras de mulher. A primeira está de corpete, saia armada, sombrinha na mão; a segunda, de vestido de bolinhas e botas brancas até os joelhos; a última, de calça boca-de-sino, bata colorida e óculos como os de John Lennon. O que conta cada uma delas? É fácil transformar roupas em datas. E, mais que isso, em costumes, valores, cenários, modos de vida... em História. As vestimentas são um ótimo caminho para mergulhar no passado. Analisando a forma de um povo se vestir, é possível entender seus hábitos e sua forma de agir e de pensar, além de muitas estruturas sociais.

Na Idade Média, por exemplo, a oposição entre trajes longos e curtos traduzia a separação entre nobres e camponeses. As vestimentas dos primeiros lhes davam pouca mobilidade, o que condizia com a ociosidade de sua vida social; já os segundos precisavam de liberdade de movimentos para os trabalhos manuais.

Segundo a historiadora Mary Del Priori, entre os séculos 16 e 18 as roupas tinham papel político-social: serviam para deixar claros a classe de quem as vestia. "Na forma e na cor, elas significavam uma condição de vida", analisa. Os tecidos bordados e luxuosos eram privilégio da aristocracia, para não ser confundida com as camadas emergentes.

"A moda é um fenômeno social", concorda a consultora Antonia Terra. "Insere-se historicamente em contextos e, quando analisada, revela vários aspectos da organização humana." O tema é envolvente porque cria uma aproximação com o passado. Assim, o estudo da História vai além do ato de memorizar nomes e datas e coloca a turma no lugar de pesquisadores. "Ela permite que cada criança reflita sobre a relação entre a própria vida e a realidade social mais ampla, estabelecendo vínculos", explica Antonia.

Para isso é preciso partir de um questionamento baseado em vivências sociais do presente. "O estudo da moda deve estar inserido em problemáticas sociais relevantes para os alunos ampliarem sua perspectiva crítica do mundo em que vivem", justifica a consultora. Ou seja, não se pode estudá-lo como uma expressão exótica da cultura ou um fato extraordinário.

Teoria

A moda é um elemento da História do Cotidiano. Essa nova maneira de estudar História muda o foco dos grandes homens e seus feitos para as pessoas comuns e seu dia-a-dia. Saem de cena os heróis e entram os costumes da vida real. Investigar o jeito de se vestir é mais uma forma de diminuir a distância em relação ao passado.

Experiência prática

No Colégio Positivo Júnior, em Curitiba, um grupo de sete alunas da 5ª série usou a moda para mostrar a evolução do papel da mulher na sociedade brasileira. Orientadas pela professora Dilene Bachiega Simões, elas escolheram algumas décadas mais significativas para descrever a mudança do comportamento feminino. Para caracterizar a forma de se vestir, fizeram uma grande pesquisa em sites, revistas antigas e álbuns de fotografia.

Começaram nos anos 1910, quando a mulher ainda "vivia para o marido" e se escondia nas golas altas, nos vestidos armados e nas cores sóbrias. A conquista da independência e o aumento da participação na sociedade foi mostrada até os dias de hoje. As garotas desenharam os modelos confeccionados por uma costureira e os usaram durante a apresentação do trabalho. "A moda representa todos os processos de transformação e permanência de um grupo social; é a exteriorização de uma mentalidade", explica a professora. Para ela, o trabalho fez com que a turma começasse a olhar mais para a sociedade. As estudantes deixaram de ver a História como algo fragmentado e passaram a enxergá-la como um todo do qual nós fazemos parte.

Dica

Um bom recurso para explorar nesse tipo de trabalho são os museus que preservam acervos de indumentárias de vários períodos históricos. Obras de arte, revistas especializadas, filmes, novelas e álbuns de fotografia também são ótimas vitrines da moda e dos costumes de qualquer época.

Plano de aula  Mudam as idéias, mudam os estilos

Durante a Revolução Francesa, os privilégios dos nobres franceses foram extintos e houve uma onda de entusiasmo com relação a tudo o que vinha da Inglaterra, então associada à liberdade. Com o vestuário não foi diferente. Os casacos bordados, os vestidos de brocado, as perucas e os penteados deram lugar a trajes mais simples, lisos e confortáveis, típicos da classe alta inglesa que preferia o campo ao ambiente da corte.

Ao abordar esse importante episódio histórico, você pode utilizar as roupas para identificar exemplos de mudanças provocadas nos valores da sociedade francesa a partir de 1789. Confira a sugestão de trabalho elaborada pela consultora Antonia Terra para turmas de 7ª e 8ª séries.

? Com os alunos, faça um levantamento sobre os valores da Revolução Francesa e proponha a análise de pinturas que mostrem vestimentas antes e depois da queda da Bastilha.

? Escolha duas imagens, uma da aristocracia francesa na segunda metade do século 18, vestida com trajes luxuosos, e outra da burguesia francesa da década de 1790, com homens usando roupas de estilo inglês.

? Peça que os estudantes tentem caracterizar a moda nos dois períodos e chame a atenção para as diferenças de estilo. Ajude-os a identificar a relação entre o modo de se vestir e os novos valores da sociedade antes e depois da revolução.

? Trabalhe algum texto que trate da mudança da moda francesa no período, analisando a transformação de costumes e valores e suas relações com a nova organização da sociedade.

Civilização egípcia
Os egípcios acreditavam na vida após a morte e viam o corpo como a porta para essa nova existência. Por isso, procuravam deixá-lo sempre bonito, bem cuidado e, sempre que possível, à mostra. Os tecidos utilizados eram transparentes e muitos trajes deixavam descoberto o corpo acima da cintura.

Idade Média
Num período marcado pela forte presença da Igreja, a indumentária sofreu grande influência religiosa, com longos mantos, túnicas e adornos de cabeça. O corpo passa a ser escondido, principalmente entre os nobres. Os camponeses precisavam de roupas um pouco mais curtas e práticas para o trabalho.

Cruzadas
Com as cruzadas, a Europa Ocidental uniu-se em torno de uma causa. Um dos efeitos desse fenômeno foi a uniformização da moda nos diversos reinos. Além disso, os viajantes voltavam ao continente com novos tecidos, costumes e adereços, como os turbantes e os véus usados pelos muçulmanos.

Anos 1920
Depois da Primeira Guerra, a mulher aumentou sua participação no mercado de trabalho e na sociedade. Encurtou a saia, abandonou o espartilho e passou a usar trajes mais práticos e confortáveis. Adotou roupas sem curvas e deixou os cabelos curtos. Foi a década que marcou o início da emancipação feminina.

Anos 1970
A moda hippie cabelo comprido, jeans e batas coloridas era um sinal de protesto contra a Guerra do Vietnã e o racismo, pela liberdade de expressão e a liberação sexual. As batas coloridas revelam a aproximação com as filosofias religiosas orientais, em especial o hinduísmo e seu ideal de paz e amor.

Ano 2000
Na era da globalização surgem tecidos de alta performance, que absorvem suor, mudam de cor, refletem a luz... As possibilidades da moda tornam-se infinitas e cabe a cada um escolher o que mais combina com seu perfil. O jovem consolida-se como o grande formador de novos conceitos de moda.

Quer saber mais?

CONTATO

Colégio Positivo Júnior, R. Marcelino Champagnat, 733, 80710-240, Curitiba, PR, tel. (0_ _41) 335-3535

BIBLIOGRAFIA 

A Roupa e a Moda: Uma História Concisa, James Laver, 288 págs., Ed. Companhia das Letras, tel. (0_ _11) 3707-3500, 51,50 reais

Corpo a Corpo com a Mulher, Mary Del Priore, 108 págs., Ed. Senac, tel. (0_ _11) 3284-4322, 20 reais

História da Vida Privada (5 vols.), vários autores, Ed. Companhia das Letras, 73 reais cada um

História da Vida Privada no Brasil (4 vols.), vários autores, Ed. Companhia das Letras, 69 reais cada um  

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