Os idosos na população brasileira: do preconceito ao conceito

Pesquisa de campo, entrevistas, produção e análise de gráficos. Um estudo demográfico sobre o bairro revelou aos estudantes o vigor da terceira idade e o respeito que essa faixa da população merece

POR:
Paola Gentile
Alunos de Regina entrevistam Maria Januária no asilo de Timóteo (MG): respeito e admiração pelos mais velhos Foto: Pedro Motta
Alunos de Regina entrevistam Maria Januária no 
asilo de Timóteo (MG): respeito e admiração 
pelos mais velhos Foto: Pedro Motta

Os velhos não servem pra nada. São um peso para a família!" "Não tenho paciência com a minha avó!" Frases como essas eram comuns entre os jovens de 13 a 15 anos das turmas de 7ª série de Regina Maria Ferreira da Silva. Professora da Escola Estadual Juscelino Kubitschek de Oliveira, em Timóteo, região do Vale do Aço de Minas Gerais, ela não poderia deixar passar esses comentários sem dar a devida atenção. Mesmo porque, de seus 29 alunos do ano passado, todos de famílias humildes da periferia da cidade, seis moravam somente com os avós. Para acabar com o preconceito, ela usou a ferramenta que tinha em mãos: a Geografia. O tema da sala de aula, na época, era a população brasileira. Uma frase do livro didático deu gancho para o projeto: "A pirâmide social do país aponta para o envelhecimento da população brasileira". Em um final de semana planejou as atividades do projeto, que duraria um mês.

Passo-a-passo e metodologia

1. Formação de equipes e estudo da lei
Para iniciar, Regina dividiu a turma em grupos. Os nomes escolhidos para identificá-los já eram significativos: Dignidade, Respeito, Sabedoria, Solidariedade etc. Cada um ficou responsável pela análise de uma parte do Estatuto do Idoso. Os alunos produziram cartazes com imagens e frases sobre o capítulo da lei que foi estudado. Assim ilustraram a apresentação que fizeram aos colegas. Depois disso, as equipes foram a campo fazer o levantamento do número de idosos do bairro. Cada um cuidou de uma rua, ocasião em que os jovens estudaram o mapa da região, localizaram a escola e aprenderam a se orientar usando a cartografia. Na etapa seguinte, eles elaboraram um questionário para ser respondido pelos idosos durante a visita que fariam ao asilo da cidade.

2. Confecção de gráficos e entrevistas
Os dados recolhidos na pesquisa de campo foram tabulados em gráficos de barras e mostraram a presença maciça de idosos no bairro. Os alunos pesquisaram sobre as causas do envelhecimento da população brasileira - que está, principalmente, na melhoria dos serviços de saneamento básico e de saúde pública -; aprenderam sobre expectativa de vida e a montar a pirâmide etária; analisaram a variação de idade da população brasileira entre 1980 e 2000, buscando a projeção para os próximos 20 anos. No dia da visita ao asilo - chamado de Dia da Sensibilização e da Solidariedade -, os alunos levaram blocos de anotações, máquina fotográfica e alguns mantimentos também. Eles ouviram as histórias sobre a vida de vários idosos, entre eles Maria Januária da Silva, 74 anos, que chegou lá como funcionária aos 40 anos e agora é moradora. Também escutaram José Ribeiro de Arruda, 73 anos, tocar violão e contar causos de sua juventude, passada na roça. Outra visita, dessa vez à Associação dos Aposentados de Timóteo, fez com que os jovens constatassem que os mais velhos têm - e como - disposição para atividades físicas e intelectuais. Eles presenciaram aulas de hidroginástica e ioga e fizeram entrevistas para saber sobre as viagens promovidas pela entidade e sobre a assistência à saúde que lá recebem. De volta à escola, cada aluno preparou um texto traçando um panorama sobre a situação dos idosos na cidade.

3. Elaboração do estatuto do idoso de Timóteo
Para finalizar, os estudantes escreveram o documento Idosos Sim, Velhos Não. Além de reforçar os direitos já garantidos pela lei federal, o texto traz novas prerrogativas: ser feliz, receber remédios gratuitamente e viver com a família mesmo em situação de doença. Os autores esperam que a população da terceira idade da cidade incorpore essas idéias à sua realidade. Cópias desse texto foram fixadas nas dependências da escola e distribuídas pelo bairro. "Idosos: sinônimo de paz, bom ânimo, força de vontade, coragem e felicidade", escreveu Maressa Kelly, 13 anos, em uma das dissertações produzidas durante o projeto.

GEOGRAFIA
Tema do trabalho
O respeito ao idoso e sua inclusão na sociedade

7ª série

Objetivos e conteúdos
O plano de Regina era levar os alunos a reconhecer o valor dos idosos na sociedade e a refletir sobre o processo de envelhecimento da população brasileira. Para isso, a turma teve de pesquisar, levantar dados e sistematizá-los, estudar o Estatuto do Idoso e pensar em atitudes que pudessem minimizar a violência que essa faixa etária da população sofre em casa e nas ruas. Ao mesmo tempo, os estudantes aprenderiam a confeccionar e a ler mapas, usando conhecimentos da cartografia, e a fazer gráficos e tabelas, utilizando os conteúdos de tratamento da informação.

Avaliação

Ao observar os debates em classe e a postura dos estudantes nas visitas a asilos e ao corrigir os textos produzidos por eles, Regina percebeu que as atitudes e os comentários deles em relação aos idosos haviam mudado. Os jovens também demonstraram segurança na confecção, na leitura e na interpretação de mapas, gráficos e tabelas.

Quer saber mais?

Escola Estadual Juscelino Kubitschek de Oliveira, R. Rosa, 550, 35180-000, Timóteo, MG, tel. (31) 3848-2234,

Maria Regina Ferreira da Silva, reginamariafs@hotmail.com

Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias