O Amazonas que não está nos livros

Expedição de cientistas brasileiros descobre outra nascente para o grande rio

POR:
Paola Gentile

Afinal, o Amazonas é ou não o maior rio do mundo? Há tempos essa questão inquieta pesquisadores de vários países.Aventureiros e cientistas,movidos pela curiosidade, saem em busca da sua verdadeira nascente desde que a América do Sul foi alcançada pelos exploradores espanhóis e portugueses, em busca de ouro e especiarias.No infográfico ao lado, você acompanha as expedições que mudaram o perfil do rio. É possível constatar também os vários nomes que recebe durante o longo percurso (escritos em branco), dos Andes ao oceano Atlântico.Verifique como o Amazonas "cresceu" no decorrer do tempo, com o acaso dando lugar a estudos sérios e científicos.

Para determinar o local onde nasce um rio, os geógrafos convencionaram levar em consideração o ponto onde aflora o depositário mais volumoso. Dessa forma, a nascente foi mudando de lugar a cada nova descoberta. Foi esse o critério observado durante a primeira expedição de pesquisadores brasileiros na região, em maio e junho deste ano. Uma equipe de 25 pessoas foi aos Andes verificar o que os satélites já apontavam por fotografias. Desde 2000, a nascente oficial do Amazonas é a região conhecida pelos nativos como quebrada (declive de onde brotam águas pluviais) Carhuasanta.Mas satélites de maior precisão apontaram que o "verdadeiro" berço estaria na quebrada Apacheta. Os dados foram confirmados e agora o rio tem mais 10 quilômetros de extensão.

A distância entre os dois pontos de afloramento de água não é expressiva para um rio com cerca de 6,9 mil quilômetros - e a descoberta não deve acabar com a polêmica sobre qual rio leva a fama de ser o maior do mundo. Porém o resultado dos recentes estudos traz para a sala de aula curiosidades que não estão nos livros didáticos e lança luz sobre conceitos geográficos que merecem ser estudados (leia o quadro abaixo).

Saber temporário
 
Desde as primeiras suspeitas de que a origem do rio estivesse no Equador até a constatação de que ele nasce no Peru, passaram-se cerca de cinco séculos. Nesse processo, dois elementos devem ser levados em consideração.O primeiro é a tecnologia. Os exploradores dos séculos 16 e 17 usavam taqueômetro (teodolito com dispositivo óptico para medir distâncias em estudos topográficos), sextantes e barômetros. Nessa época, os teóricos contavam apenas com os relatos e a percepção do olhar de quem havia estado no local. Com as imagens de satélite, desde os anos 1980 foi possível fazer medições mais detalhadas. E também mais desencontradas: alguns teóricos levam em consideração o comprimento linear, outros contam as curvas que o curso d?água faz no trajeto. Por isso, até hoje há divergências sobre a real extensão do Amazonas."E isso pouco importa", diz Bruce Forsberg, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. "Trata-se da maior bacia fluvial do mundo, com mais de 6 milhões de quilômetros quadrados e inúmeros afluentes."

Em segundo lugar, é preciso conhecer a natureza e os fatores que atuam sobre ela. A professora Sueli Furlan lembra que as nascentes de fato mudam de lugar: "A erosão e a ocupação do solo desgastam o relevo. Com isso, elas recuam ou aparecem novos pontos de afloramento da água dos lençóis freáticos".

A discussão sobre a extensão do rio percorre todo o curso d?água até chegar à foz, onde nova polêmica se instala: o rio termina na linha do território ou se estende até aonde chegam suas águas? Se for a segunda opção, outros 200 ou 300 quilômetros devem ser acrescidos à medição, já que essa é a distância que as águas do Amazonas avançam no Atlântico.

Na sala de aula

Seus alunos não precisam passar pela aventura que os expedicionários brasileiros viveram (leia no quadro abaixo), mas podem fazer grandes descobertas no bairro, na cidade ou em algum lugar de fácil acesso. "O importante é o espírito de aventura que leva ao conhecimento", afirma Sueli Furlan."O excursionismo e a expedição são trabalhos que podem ser realizados durante o ano letivo, exigem menos rigor metodológico que o estudo do meio e trazem excelentes resultados."Para ela, procurar respostas é sempre uma boa estratégia em Geografia."Guardadas as devidas proporções, foi isso que fizeram os pesquisadores: eles trilharam o caminho da descoberta. Confirmaram informações previamente levantadas e trouxeram novos dados para comprovar a pesquisa." 

A aventura da descoberta no coração dos Andes

Terreno desértico, frio, pouco oxigênio. Apesar do apoio logístico dos militares peruanos e de um grupo de guias turísticos, não há como negar que os pesquisadores brasileiros viveram uma aventura. "Foi difícil respirar por causa da altitude", lembra o engenheiro Oton Barros, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP). Junto com ele, foram ao local 24 especialistas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, da Agência Nacional de Águas e do Instituto Geográfico Nacional do Peru.

Até Arequipa, no sul do Peru, tudo estava sob controle, apesar dos 2,4 mil metros acima do nível do mar (confira o trajeto percorrido no mapa abaixo). Em Chivay, 1,1 mil metros mais alto, dores de cabeça e enjôo começaram a atormentar os membros do grupo. A partir daí, tudo ficou mais complicado. O trecho de Chivay a Tuti, por exemplo, levaria apenas uma hora e meia, mas teve de ser feito em etapas. Nesse ponto, o oxigênio disponível é metade do encontrado no nível do mar. Um cinegrafista do programa televisivo Expedições (TV Cultura e TVE Brasil), que acompanhava os pesquisadores, teve edema pulmonar e precisou retornar a Arequipa. Outro teve o nariz sangrando por várias horas. Barros também sofreu com a altura: "Comecei a empilhar pedras em torno da barraca. E, quanto menor a pedra, mais esforço eu fazia".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O roteiro da expedição brasileira até a nascente do Amazonas

1? dia   O grupo parte de São Paulo em direção a Lima e depois segue para Arequipa, também de avião.

2? dia   Em veículo 4x4, todos vão de Arequipa a Chivay. O trajeto, em estrada asfaltada, dura todo o dia.

3? dia  Período para aclimatação.

4? dia  Duas horas para percorrer os 20 quilômetros em estrada de terra que separam Chivay de Tuti.

5? dia  Um dia inteiro para fazer os 40 quilômetros até o platô onde está o primeiro acampamento, em Tuti.

6? dia  Período para aclimatação.

7? dia  Cinco minutos de carro até o paredão do Nevado Mismi para depois subir a pé em direção ao platô.

8? dia  O grupo vai à quebrada Carhuasanta e à confluência com a quebrada Apacheta, local do segundo acampamento.

9? dia  Todos caminham ao longo da quebrada Apacheta, onde é localizado o primeiro afloramento de água.

10? dia  Os pesquisadores voltam a pé para o acampamento de base e depois de carro até Chivay.

11?dia   Volta de Chivay para Arequipa e depois para Lima.

12? dia  Volta de Lima para São Paulo.

Além das fronteiras

Os mapas de hidrografia "quebram" o rio Amazonas, restringindo-o ao território brasileiro e desprezando o lado peruano. Mas muitas das características da bacia se devem à história de sua formação e a seu berço no alto de uma cordilheira.

ORIGEM A região do Amazonas e dos afluentes já foi mar - ou lagos interligados - com drenagem para o oceano Pacífico. Com o movimento das placas tectônicas, que formou os dobramentos que deram origem à cordilheira dos Andes, a vazão voltou-se para o Atlântico.

SOLO O leito e as margens dos rios que formam a bacia Amazônica têm grande concentração de matéria orgânica. Porém, nas regiões tropicais, o excesso de água facilita a oxidação desses materiais. Os nutrientes se concentram apenas na superfície, protegida pela vegetação. Com o desmatamento, o solo é lavado pela chuva, deixando apenas uma terra estéril à mostra.

NASCENTE É um equívoco apontar um único ponto para determinar a região em que nasce o rio. O melhor é considerar o local em que os lençóis freáticos vêm à superfície. A região da quebrada Apacheta apresenta pelo menos cinco nascentes. Todas elas contribuem para a formação do rio Lloqueta, um dos primeiros nomes do Amazonas.

PERENIDADE As fontes originais de água do Amazonas estão nos glaciares andinos, a 7 mil metros de altitude. Nos locais mais altos, chove com mais freqüência, o que também contribui para que o volume de água se mantenha. Além disso, existe na região andina um ecossistema formado por diversas espécies de gramínea. Essa estrutura, conhecida como bofedales, funciona como uma esponja, retendo a água que ali se deposita e mantendo a nascente sempre úmida.

Estudar o rio Amazonas... 

? Permite compreender a dimensão territorial das bacias hidrográficas.
? Ajuda a conhecer a importância da legislação de proteção das águas.
? Mostra que é sempre possível fazer novas descobertas.

Quer saber mais?

CONTATO
? Sueli Furlan, suelifurlan@uol.com.br

INTERNET
? No site do Inpe www.inpe.br, você encontra informações sobre o monitoramento da Amazônia feito por satélites.
? Conheça as propostas de desenvolvimento da bacia Amazônica em www.otca.org.br
? Para ter mais informações sobre o programa Expedições, veiculado na TV Cultura e na TVE Brasil, acesse www.expedicoes.tv 

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