Por que gastar tanto para ir a Marte?

São muitas as semelhanças entre a Terra e o vizinho vermelho. Elas podem ajudar a explicar nosso planeta ou até a construir um lar substituto para a humanidade

POR:
Márcio Ferrari
Imagem de Marte obtida pela Nasa. Foto: Nasa/JPL
Imagem de Marte obtida
pela Nasa por superposição
de fotos mostra detalhes
do relevo: análise geológica
feita pelo robô Spirit (abaixo)
detectou vestígios de água,
que são um sinal de vida.
Foto: Nasa/JPL

Não é de hoje que a humanidade se pergunta sobre a existência de vida naquele ponto avermelhado do céu que conhecemos como o planeta Marte. A recente missão norte-americana a nosso vizinho de sistema solar mostrou que as especulações são muito mais sérias do que fariam supor as fantasias terráqueas envolvendo homenzinhos verdes. Há fortes indícios de vida em Marte, e é basicamente à procura desses sinais que a Terra insiste em enviar missões de reconhecimento para lá.

Situado a 56 milhões de quilômetros da Terra, quando em sua distância mínima, Marte é o planeta vizinho com que temos mais afinidade. Vênus fica mais "perto" (menor distância: 42 milhões de quilômetros), mas a temperatura chega a 500º C, o que virtualmente inviabiliza qualquer coisa semelhante à vida. Marte, apenas à primeira vista, não parece muito melhor. É um planeta morto e muito frio, com temperatura média de 55º C negativos e vastas regiões cobertas de gelo. Mas as aparências, nesse caso, realmente enganam.

Por enquanto, é pouco e contraditório o que se sabe sobre o vizinho. Contudo, as pesquisas se intensificaram desde janeiro deste ano, quando pousaram em Marte dois jipes-robôs gêmeos da Agência Espacial Norte-americana (Nasa), o Spirit e o Opportunity. Cada um de um lado oposto do planeta, eles se juntaram a três sondas que já estavam lá, as norte-americanas Mars Global Surveyor e Mars Odyssey e a Mars Express, da Agência Espacial Européia (ESA).

Robô Spirit. Foto: Nasa/JPL/Cornell University/Maas Digital
Foto: 
Nasa/JPL/Cornell University/Maas Digital

O Spirit e o Opportunity, equipados com microscópios, espectômetros (instrumentos ópticos que medem a radiação luminosa) e brocas, passearam em solo marciano a uma velocidade média abaixo de 100 metros por dia, lentidão suficiente para observar detalhes, fazer análises geológicas, tirar fotos e quebrar rochas. "Os robozinhos estão lá para fazer análises químicas e estruturais de perto, como num laboratório", diz Enos Picazzio, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo.

Vestígios de água

O ponto alto da missão aconteceu no início de março, quando a Nasa anunciou a conclusão de que a região de Meridiani Planum — como o nome indica, lisa e plana — já esteve coberta, algum dia, por grandes quantidades de água. Análises feitas no local pelo Opportunity revelaram fortes indícios da presença de água, como marcas nas rochas e existência de minerais (hematita, por exemplo) que geralmente se formam mediante processos de hidratação. Sinais semelhantes foram detectados na cratera Grusev pelo Spirit. Reunidos, os vestígios se tornaram a confirmação de uma suspeita antiga, cumprindo o objetivo principal da missão dos robôs gêmeos.

A presença de água em estado líquido é o pré-requisito fundamental para a ocorrência de vida como a conhecemos na Terra, mas ainda é cedo para afirmar que Marte já abrigou atividade biológica. Falta encontrar traços diretos de vida, atual ou em forma de fósseis. "As sondas Spirit e Opportunity foram projetadas para fazer medidas específicas e enviadas a locais escolhidos para realizar a análise da presença de água, que já era dada como certa", diz Picazzio. "Se a idéia fosse fazer outro tipo de busca, a missão seria diferente."

A vida na Terra se fundamenta num meio aquoso, o único no qual as células são capazes de se reproduzir. Grande parte dos cientistas acredita que, se há vida extraterrestre, ela surgiu de processo semelhante ao ocorrido em nosso planeta, há 3,5 bilhões de anos, e deriva de moléculas orgânicas comuns no universo, como hidrocarbonetos ou aminoácidos. Por isso a "descoberta" de água em Marte é tão interessante — e desperta algumas possibilidades estimulantes.

Uma delas é a de que Marte nem sempre tenha sido inóspito. Se houve mesmo água em estado líquido no planeta, é porque o clima já foi muito diferente por lá — suficientemente quente para que a água se conservasse fluida. Três semanas depois do anúncio a respeito dos vestígios de água em Marte, os cientistas da Nasa divulgaram a conclusão de que um oceano — com sal — cobriu Meridiani Planum em tempos remotos. Cada vez mais, o Marte de ontem está se parecendo com a Terra de hoje.

Um espelho do futuro?

Dadas as semelhanças, o conhecimento sobre o vizinho pode nos ajudar a explicar nosso planeta. Marte pode se tornar um mundo experimental, no qual introduziremos a vida. É o que se chama de terraformação ou ecogênese. O passo inicial poderia ser a criação artificial de um efeito estufa, na forma de um cobertor de gases que aumente as temperaturas no planeta. Isso o recobriria de gás carbônico, por causa da composição da atmosfera marciana. Humanos e animais não teriam como respirar, mas seria um ambiente ideal para plantas — que devolveriam oxigênio ao ambiente. Depois de muito tempo, a atmosfera poderia até se tornar semelhante à da Terra atualmente, configurando um lar substituto para a humanidade.

É de esperanças como essa que se alimenta a aventura espacial. Uma vez fincada bandeira na Lua, em 1969, a humanidade — isto é, os países com recursos e ambições suficientes para enviar missões ao espaço — voltou os olhos para Marte. Quatro anos antes, a nave norte-americana Mariner 4 já havia sobrevoado a superfície marciana. Várias viagens se seguiram até que, em 1976, as missões norte-americanas Viking 1 e 2 chegaram a Marte, com laboratórios caros e sofisticados prontos para detectar sinais de vida — sem nenhum sucesso.

Espírito de aventura

O banho de água fria engrossou a crescente oposição popular norte-americana à "corrida espacial". As viagens para fora do planeta eram criticadas por terem se tornado pouco mais do que um dos itens da competição política entre Estados Unidos e União Soviética, as superpotências da Guerra Fria. Somente em 1996, depois de 21 anos praticamente paradas, as missões norte-americanas a Marte foram retomadas.

Ainda hoje viajar para o planeta vermelho é um empreendimento arriscado, e cada vez que uma missão dá errado, as críticas voltam a chover. E isso acontece com freqüência. Pela mesma época em que os robôs e Spirit e Opportunity pousaram, duas outras sondas — a britânica Beagle 2 e a japonesa Nozomi — deveriam ter chegado a Marte, mas ambas se perderam no caminho.

Mesmo que muita gente conteste a importância da exploração do espaço, parece haver um impulso irresistível nessa direção. Há quem diga que é da natureza do ser humano o desejo de ampliar fronteiras. Além disso, a possibilidade de vida fora da Terra também tem o dom de intrigar. Calcula-se que existam, universo afora, centenas de bilhões de galáxias, cada uma delas com dezenas de bilhões de estrelas. Uma delas é o Sol, em torno do qual orbitam nove planetas conhecidos, e um deles é a Terra. Por que só aqui haveria vida?

 

Plano de aula

Observação do céu

Renato da Silva Oliveira, professor de Física e coordenador do planetário AsterDomus, em São Paulo, preparou o seguinte plano de aula sobre Marte, para 7ª e 8ª séries.

A observação do céu, realizada fora da sala de aula, é uma atividade estimulante. Em grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, o acompanhamento de Marte pode ser dificultado não só pelas nuvens, mas também pela poluição atmosférica e, principalmente, pela iluminação urbana. Entretanto, as observações não precisam ser realizadas, necessariamente, em dias seguidos.

Oriente a atividade durante as primeiras saídas a campo. Os alunos, individualmente ou em grupos, podem mantê-la por meses ou durante o ano todo, desde que Marte esteja visível no céu. Eles perceberão que o planeta se desloca por entre as estrelas e realiza "laçadas", andando ora para leste, ora para oeste, em relação a elas (veja quadro).

Para essa atividade, é interessante que todos os alunos utilizem mapas padronizados. Prepare o mapa representando as estrelas que "fazem fundo" à movimentação de Marte. É fácil reconhecê-las no céu. Trata-se do retângulo formado pelas quatro estrelas principais da constelação de Órion, dentro do qual se vêem as Três Marias. Distribua cópias do mapa caseiro aos alunos. A mudança de posição de Marte é facilmente visível e pode ser anotada a mão livre.

As melhores épocas para observar o planeta vermelho e os períodos em que as "laçadas" podem ser vistas em intervalos de poucos dias variam conforme o ano e o local. Para se informar sobre essas condições, você pode utilizar softwares como o SkyMap Pro 9 ou o Cybersky ou então sites da internet.

Discussão sobre missões

Em sala de aula, aborde as atuais missões a Marte. O objetivo final é uma discussão sobre o significado e a importância dos programas espaciais.

Proponha previamente aos alunos que pesquisem e respondam, individualmente ou em grupo, um questionário. No dia da apresentação do resultado, cada questão pode ser discutida em detalhes para esclarecer dúvidas. Alguns pontos interessantes para debate:

? Por que Marte recebeu o nome do deus da guerra dos antigos romanos?
? Por que tem aparência avermelhada?
? Por que foram enviadas tantas missões a Marte recentemente?
? Quanto tempo Marte demora para dar uma volta em torno do Sol?
? Qual a distância da Terra a Marte?
? O que as sondas enviadas a Marte estão pesquisando?
? Foi descoberto algo realmente novo?
? Vale a pena gastar tanto dinheiro para enviar sondas a Marte?

É muito importante que você esteja bem preparado sobre o tema, informando-se em livros, revistas e sites especializados na internet.

Para entender o movimento de Marte

Foto: Jardim
Foto: Jardim

Há duas perspectivas diferentes na imagem abaixo, que não obedece a escala real, para mostrar como se dão as "laçadas" de Marte no céu. As órbitas dos planetas são vistas como se o observador estivesse fora do sistema solar, enquanto o fundo estrelado e o movimento projetado do planeta no céu correspondem aproximadamente ao que observamos da Terra.
As "laçadas" de Marte podem ser entendidas se lembrarmos que a Terra "ultrapassa" Marte em sua caminhada em torno do Sol. Apesar de estar muito distante para padrões de escala humanos, Marte está bem próximo da Terra para padrões astronômicos. As estrelas estão muito mais distantes que Marte e formam um "fundo de céu" que permanece praticamente imutável por anos. É sobre esse fundo de céu, dividido em constelações, que vemos Marte "caminhar".
Em certas épocas, seu deslocamento é vagaroso, permanecendo semanas quase sem sair do lugar.
Em outras épocas, próximas das "laçadas", o deslocamento é rápido e pode ser percebido de um dia para outro. A repetição de situações semelhantes não depende só do movimento de revolução da Terra em torno do Sol, mas também do de Marte, assim a periodicidade não segue nosso calendário (baseado apenas no movimento da Terra). Um aspecto que não está representado na imagem é o fato de as órbitas dos dois planetas não serem coplanares. Elas são inclinadas, entre si, pouco menos de 2°.

Quer saber mais?

Renato da Silva Oliveira, e-mail: renatoso@asterdomus.com.br

BIBLIOGRAFIA
Marte: Da Imaginação à Realidade, Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, 158 págs., Ed. Itatiaia, tel. (31) 3212-4600 , 20 reais

INTERNET
No site do planetário móvel AsterDomus (www.asterdomus.com.br), você encontra informações sobre astronomia, observatórios astronômicos, eventos e jogos relacionados ao tema

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