Obras que circulam

Fazendo composições que cabem em um envelope e são enviadas pelo correio, adolescentes trocam experiências com escolas vizinhas e aprendem que a arte é democrática

POR:
Paola Gentile
Cartões criados por alunos de Recife: desenho, pintura e colagem inspirados. Fotos: reprodução

Cartões criados por alunos de Recife: desenho, pintura e colagem inspirados 
em Cícero Dias. Fotos: reprodução

 

Só é considerada arte aquela que é emoldurada ou entalhada e exposta em museus? Desde meados do século 20, a arte contemporânea mostra que não, mas muitas vezes a escola não chega a tratar das manifestações mais atuais (com a turma, localize no pôster algumas delas). "Os recentes movimentos artísticos usam linguagens mais próximas dos jovens do que os convencionais. É por meio deles que conseguimos sensibilizá-los para a importância de conhecer e apreciar a arte", afirma Vilma Macedo, professora da EM Arraial Novo do Bom Jesus, em Recife. Entre as propostas que pipocaram nos últimos tempos, ela escolheu uma pouco conhecida da galera: a arte postal, na qual mensagens criativas - que caibam dentro de um envelope - são enviadas pelo correio. Artistas de diversas localidades são convocados e a técnica é livre.

Vilma resolveu apostar nesse projeto para mostrar às turmas de 8ª série que a arte pode ser bem democrática. Afinal, a arte postal surgiu nos anos 1950 justamente para que os pintores e ilustradores mostrassem sua produção fora do circuito oficial. O holandês Van Gogh (1853-1890) e o francês Marcel Duchamp (1887-1968) são considerados seus precursores: o primeiro por enviar cartas desenhadas ao irmão e o segundo por mandar aos vizinhos cartões-postais feitos com colagens. Mas foi em 1962 que as manifestações se intensificaram, com a inauguração da New York Correspondence School of Art, do americano Ray Johnson.

O projeto de Vilma extrapolou os muros da Arraial Novo do Bom Jesus e envolveu, além de seus alunos, outros 204 estudantes de oito escolas vizinhas.

Sequência de atividades

1 PESQUISA

Conhecer as características da arte postal é essencial para o sucesso do projeto. Em pesquisas na internet, é possível descobrir que quem toma a iniciativa escolhe o tema, convoca os artistas por carta, estabelece prazo para o envio das obras e monta a exposição. A única regra é não excluir nenhum trabalho. Vilma discutiu com as turmas o caráter democrático da iniciativa e daí surgiu o tema: a intervenção na própria arte.

2 ESTUDO DO TEMA

Antes de fazer a convocação, porém, é preciso dominar o assunto. Uma nova pesquisa levou à escolha do artista e da obra que serviria de base: Cícero Dias (1907-2003), com o mural Eu Vi o Mundo, Ele Começava no Recife, datado do fim dos anos 1920. Os alunos de Vilma fizeram a leitura de vários textos e apreciaram a própria obra, quando observaram as cenas que levaram a pintura a ser mutilada por ser considerada obscena. Um aluno sugeriu fazer uma réplica do mural para ter noção do tamanho original. Para tanto, a professora ensinou como ampliar usando a técnica do quadriculado traçado sobre a imagem. Como eles acharam o título emblemático, resolveram que a intervenção deveria começar por ele: Eu Vi o Mundo (?)... Ele (?) no Recife.

3 CONVOCATÓRIA E PRODUÇÃO

Os convidados geralmente são artistas de outras cidades ou países. A turma de Vilma convocou os estudantes das escolas vizinhas. Antes de a carta ser expedida, ela conversou com os professores delas e montou um blog (euviomundo.zip.net). Enquanto aguardavam os trabalhos, os alunos de Vilma também fizeram suas criações individuais e coletivas de postais, usando colagem, lápis de cera, caneta, guache, anilina etc.

4 EXPOSIÇÃO

Ao término do prazo dado (um mês), chegaram 204 postais, que foram expostos no pátio da Arraial Novo do Bom Jesus e de mais duas escolas. Para assinar a mostra, foi elaborada uma lista dos participantes em ordem alfabética, informando a idade e a escola em que estudavam.

Outras propostas

DESCOBRINDO AS CORES

Tonalidades sem fim: de muitas combinações, surgem as cores usadas nos trabalhos. Foto: Alexandre Battibugli
Tonalidades sem fim: de muitas 
combinações, surgem as cores 
usadas nos trabalhos. 
Foto: Alexandre Battibugli

Em vez de dar tinta de todos os matizes para os pequenos, deixe que eles façam experiências para "inventar" tonalidades. Distribua dois potinhos ou copos plásticos com guache ou tinta de pintura a dedo de cores diferentes. Peça que as crianças misturem as duas aos poucos, ora colocando mais de uma, ora de outra. Faça essa atividade gradativamente, dando em cada aula cores diferentes, até eles descobrirem muitos tons. No fim de cada período, deixe que elas usem as tintas novas em uma pintura em papel sulfite ou cartolina. Após as oficinas, mostre à turma como criar efeitos diferentes com a sobreposição de traços de lápis de cor ou giz de cera.

FONTE: 150 IDÉIAS PARA O TRABALHO CRIATIVO COM CRIANÇAS DE 2 A 6 ANOS, SILVIA MARIA GUEDES DOS REIS, 136 PÁGS., ED. PAPIRUS, TEL. (19) 3272-7578, 29,90 REAIS

LEITURA DE OBRA DE ARTE

Ao mostrar obras de arte ou reproduções para os alunos, motive-os a apreciar as imagens. Ao descrever o que vêem, eles tecem comentários sobre o que gostam ou não, sobre sentimentos e sensações ou mesmo relacionam com algum fato ocorrido na vida deles. Peça que a turma olhe a obra com atenção e dê um tempo para que ela se hospede no cérebro. Depois de elaborar uma lista com o que todos enxergaram, faça perguntas que estimulem a percepção da linguagem visual e estética, como os elementos formais, sua configuração espacial, os materiais utilizados, a textura e o suporte. Deixe que eles expressem suas interpretações e emoções. Se possível, exponha outras obras que tratem do mesmo tema para fazer comparações. Com tantas idéias na cabeça, a garotada pode querer produzir: discuta com cada um as propostas e a melhor maneira de elas serem concretizadas. Com esse debate, fica mais fácil escolher o modo de realizá-las.

CONSULTORIA: MARCO PASQUALINI DE ANDRADE, DO DEPARTAMENTO DE ARTE DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA

Quer saber mais?

CONTATO
EM Arraial Novo do Bom Jesus, Av. do Forte, 1340, 50640-000, Recife, PE, tel. (81) 3232-7513

INTERNET
Você encontra grupos de arte postal em www.artepostal.com.br e www.vorticeargentina.com.ar 

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